Tiago Queiroz/Estadão - 16/11/2020
Tiago Queiroz/Estadão - 16/11/2020

Sem viagens para o exterior, mercado de luxo no Brasil já vende mais que em 2019

Shoppings de luxo tiveram aumento de dois dígitos nas vendas em outubro, enquanto outros centros de compras ainda têm movimento até 15% menor que no ano passado

Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2020 | 15h00

Na loja da grife francesa Balmain no Shopping Cidade Jardim, em São Paulo, uma simples camiseta de algodão pode custar mais de R$ 2 mil - praticamente todo o salário médio de um brasileiro, que é de R$ 2,2 mil. Na loja da Chloé, no mesmo shopping, uma bolsa passa facilmente dos R$ 10 mil. Mas o preço não é um impeditivo para os brasileiros ricos. No terceiro trimestre, as duas lojas registraram um aumento de 30% nas vendas.

Não é uma exclusividade dessas duas lojas. Enquanto a pandemia derruba o faturamento de muitos negócios mundo afora, o mercado de luxo tem ampliado as vendas de forma exuberante, tirando vantagem de situações provocadas pela crise global, conforme mostram os números das principais empresas do ramo.

Sem poder "turistar" por Miami, Roma ou Paris - onde ainda há restrições à entrada de estrangeiros por causa da pandemia -, os brasileiros de alta renda decidiram passar o tempo fazendo mais compras por aqui mesmo, em shoppings tradicionais do luxo, como o Cidade Jardim e o Iguatemi, por exemplo.

No mês de outubro, a rede de shoppings do grupo JHSF registrou um aumento de vendas na ordem de dois dígitos em comparação com o mesmo mês do ano passado, disse o CEO do grupo, Thiago Alonso. Na média, os demais shoppings do País ainda têm vendas cerca de 10% a 15% menores na comparação entre os mesmos períodos, o que revela a diferença no ritmo de recuperação do consumo entre os diferentes públicos.

"O público de alta renda tem disponibilidade de orçamento para consumo e lazer em qualquer contexto, mesmo de crise. Só que, em vez de gastar esse dinheiro na Europa, transferiu essas compras para o Brasil", diz  Alonso. "Aquela empresa que tem uma boa oferta de bens e serviços destinados a esse público está se saindo bem neste momento."

Segundo Vinicius Ruffo, diretor do braço de negócios da JHSF responsável por administrar grifes no Brasil, o crescimento de 30% registrado por Balmain e Chloé no terceiro trimestre deve ser ainda maior neste quarto trimestre. "Em maio percebemos aumento nas compras de itens básicos, tipo rasteirinhas e roupas confortáveis de se ficar em casa. Em julho, foram mais roupas para noite. E agora há uma explosão generalizada", diz.

Até o fim deste ano, a JHSF vai inaugurar o Cidade Jardim Shops, nos Jardins, classe da elite paulistana. O empreendimento é um complexo de lojas, como um minishopping, e será aberto ao público com 100% dos pontos comerciais alugados - o que também destoa das demais redes de shoppings, onde os espaços vagos aumentaram por causa da crise. O mercado paulistano também vai receber três novas grifes internacionais: Celine, Isabel Marant e Ines de la Fressange.  

Fenômeno semelhante pode ser visto no grupo Iguatemi. As vendas nos shoppings em setembro foram equivalentes a 77% do registrado no mesmo mês do ano passado, patamar que ultrapassou o nível de 80% em outubro, mostrando recuperação.

Já as lojas destinadas ao público de alto poder aquisitivo, como joalherias e roupas de grifes, venderam em outubro entre 10% e 15% mais na comparação anual, revelando uma performance superior ao do restante do varejo, conta a diretora financeira e de relações com investidores, Cristina Betts.

"As pessoas estão 'presas' em casa, com menos gastos com passeios e viagens ao exterior. Há uma carteira intacta que está sendo convertida em compras locais", observa.

Como consequência, já há negociações da Iguatemi para que marcas internacionais venham abrir ou ampliar lojas no Brasil, conta a executiva, sem revelar quais os nomes das pretendentes, entretanto. Segundo ela, essas transações devem se concretizar nos próximos meses.

 

Fenômeno global

O mesmo tipo de situação vivida pelos ultra ricos do Brasil se repete em outros mercados emergentes, como Índia, Rússia e China, onde os mercados locais de luxo têm crescido à medida que o turismo de compras nas capitais europeias e norte-americanas não foi plenamente retomado.

Cristina Betts acredita que as lojas de joias e grifes vão impulsionar as vendas da companhia pelo menos durante o quarto trimestre, já que as restrições a viagens para o exterior não serão levantadas imediatamente. Esse efeito deve ajudar a desenvolver o setor também no médio prazo, estima.

"Haverá uma demanda cativa importante daqui para frente. Quanto mais as pessoas compram aqui, vão percebendo que existem os mesmos produtos e com preços semelhantes. É um comportamento que vai durar", prevê.

Já Alonso, da JHSF, acredita que essa lógica vai se estender também para outros segmentos de luxo além do varejo, como hotéis e restaurantes. "Com menos incentivo para se passar férias no exterior, vamos ver um fluxo maior no turismo interno. Isso já aparece nas taxas de ocupação e diárias", afirma o executivo da JHSF, dona da rede Fasano.

Em outubro, o grupo lançou um aplicativo que permite fazer reservas e pedidos nos hotéis e nos restaurantes da rede. No último trimestre, os hotéis Fasano tiveram 57,7% dos quartos ocupados - considerando apenas as unidades liberadas para operar na pandemia. O porcentual é superior aos 52,1% do mesmo período do ano passado, também levando em conta o total de unidades disponíveis.

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