Semana de frustrações

Essa foi uma semana de frustrações para a economia mundial. Frustração com o Fed (banco central americano) que havia prometido reavaliar a situação nos dias 22 e 23 e veio com medidas paliativas. Bernanke e seus colegas apenas agravaram o clima de incerteza e insegurança que derrubou os mercados ao acentuar ainda mais que "há riscos significativos de desaceleração econômica." Passaram a impressão de impotência e inércia que não são tão graves se não fosse esse o clima também no banco central da Eurozona e nos governos da União Europeia.

ALBERTO TAMER, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2011 | 03h05

Liderança coletiva. Na reunião do FMI, em Washington, só surpresas e declarações evasivas. Depois de uma visão muito lúcida sobre a desaceleração da economia mundial, sua diretora, Christine Lagarde, concluiu que o desafio é a falta de "liderança coletiva", que ninguém entendeu o que é. Liderança de todos seguida por todos ou liderança de alguns por todos?

Para a diretora do FMI, há os países emergentes! Eles estão crescendo, evitando um processo recessivo que poderia contaminar a economia mundial, mas para diretora do FMI "não estão fazendo o suficiente para crescer internamente e promover o reequilíbrio mundial." Mas não foi o próprio FMI que há pouco mais de uma semana alertou para o desequilíbrio não externo, mas interno desses países, apontando para as medidas que adotaram para defender seus mercados, produzir e crescer como defende agora o FMI? Diante das últimas análises do fundo, fica no mercado a impressão que nem o fundo sabe o que fazer. A única certeza é que a nova posição do fundo revela que não há decisão política dos países "avançados", que se aproximam da recessão e representam 50% do PIB mundial.

Nós? Não, vocês! Foi isso que responderam os países emergentes teoricamente. O problema não é nosso. É dos Estados Unidos, da Europa, que acumularam dívidas e se recusam a adotar medidas para evitar que a economia recue ainda menos de 0,2%, abrindo o caminho da recessão. Quando muito, nós podemos mais títulos da dívida dos países da Eurozona, mas não aqueles da Grécia, Itália ou Espanha. Aliás, já estavam comprando antes da crise. Uma parte das reservas brasileiras está em euros. Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul - o tal Brics - não só se abstiveram de assumir qualquer compromisso como acusaram os outros de não estarem conscientes da grave situação em que se meteram. E assim ficou tudo nessa semana de muitas palavras e nenhuma ação. Não muda nada. Até seria bom se ficasse assim, com economia mundial distorcida se conformando em crescer 4%, mas pode piorar com o aprofundamento da crise financeira da eurozona, e "se não houver uma solução rápida e em conjunto", como alertou o ministro Guido Mantega, em Washington. Quanto mais demorar, será mais difícil e oneroso sair da crise.

China se cala. Curioso é que nesse festival de declarações desencontradas, não se ouviu uma palavra da China, a segunda maior economia mundial. Seus lideres estavam mudos. Eles pararam de contar com o mercado mundial que recua, e decidiram "internar" os problemas. Estão crescendo "por dentro", para um mercado interno que pouco consome e representa 40% do PIB. Um mercado ansioso onde há pelo menos 700 milhões de pessoas ainda pobres que podem consumir mais.

Nos Estados Unidos há pouco a fazer porque as famílias já consomem muito e estão endividadas, mas no Brasil existe espaço a ocupar no mercado interno. E foi essa a política chinesa de "internamento", de quem pouco pode esperar do exterior, que está sendo adotada também no Brasil onde o mercado interno surge como uma das poucas opções viáveis nos próximos anos.

Mas há os desafios que não são apenas percalços, como o efeito da excepcional valorização do dólar sobre a inflação como registrou a coluna na quinta-feira. O Banco Central sentiu isso quando o dólar se aproximou de R$ 2 e fez uma intervenção no mercado, sinalizando que vai continuar agindo assim. A cotação recuou para R$ 1,80, mas neste mês a moeda americana se valorizou 15,5%.

Em meio a declarações conflitantes, o Banco Central afirmou que vai continuar atuando no mercado cambial futuro enquanto for necessário. A leitura do mercado é que a taxa deve ficar em torno de R$ 1,70, o que ocorreria em oito ou dez dias, quando os fundos de hedge acertarem suas posições vendidas em US$ 13 bilhões. Isso mostra as limitações do Banco Central e da equipe econômica para proteger a economia e estimular o crescimento sem provocar mais inflação que em doze meses, já está em 7,2%. O desafio é saber até quando os preços podem aumentar sem reduzir a renda e o consumo das família - uma peça mais central. A dúvida é até quando a política monetária e o câmbio podem ajudar.

Se as respostas a essas perguntas eram tímidas, elas ficaram mais evasivas diante das frustrações externas desta semana em que o FMI, EUA e a Europa deixaram muito claro que não sabem o que fazer para afastar o risco de recessão. Talvez, vão esperar a situação piorar. Nesse cenário sem perspectivas, o Brasil está sozinho e não pode esperar pela tal "aliança coletiva" da madame Lagarde.

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