Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Seminário comemora 60 anos de Arminio, que agora investiga juros

Economista avalia até aspectos psíquicos ligados à economia do comportamento para explicar os juros altos

Fernando Dantas, Impresso

13 Agosto 2017 | 05h00

Juros baixos no mundo, altos no Brasil. Populismo, eficiência e justiça. Esses foram alguns dos temas com que Arminio Fraga foi brindado no seminário de comemoração dos seus 60 anos, realizado no dia 31 de julho na Casa das Garças, think tank ligado ao Departamento de Economia da PUC-Rio.

O evento teve participantes de renome global, como Stanley Fischer, vice-presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), e Raghuram Rajan, ex-presidente do BC da Índia e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI). Outros nomes de destaque foram os de Yuliy Sannikov (de Stanford), Markus Brunnermeyer (de Princeton), e do brasileiro José Alexandre Scheinkman (de Columbia e Princeton).

Arminio foi incumbido de comentar a exposição de Fischer sobre as baixíssimas taxas de juros globais por um longo período de tempo e acabou falando sobre as altíssimas taxas de juros reais brasileiras, que perduram por mais tempo ainda.

Com Tiago Berriel, atual diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central, Arminio, que vem retomando atividades de pesquisa, está fazendo uma ampla investigação sobre os altos juros no Brasil.

Ele aponta como possível causa inicial a introdução da correção monetária na década de 60, com o alto juro real de 6%, isento de imposto, pago pela caderneta de poupança. Mas a manutenção do juro real elevado por décadas é, para Arminio, “um fenômeno extraordinariamente complexo, que deve ter múltiplas explicações”. Nesse rol de causas, ele vê até aspectos psíquicos ligados à moderna economia do comportamento e à falta de educação financeira.

Por outro lado, Arminio frisa que, “aos trancos e barrancos”, o juro real brasileiro veio caindo desde o Plano Real. Recentemente, porém, “a aventura Dilma, que empurrou de maneira voluntarista o juro para baixo, deu errado, levou a congelamentos (de preços administrados) e depois foi preciso soltar”. Agora, com a nova gestão do Banco Central, o juro real voltou a cair, mas o desequilíbrio fiscal permanece como um risco em horizonte mais longo.

Populismo. O economista Vinicius Carrasco, recém-saído do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e, com Tiago Berriel, um dos organizadores do seminário em homenagem a Arminio, comentou durante o evento a apresentação de Rajan sobre a “era do descontentamento”– a dificuldade de compensar os perdedores da globalização, uma das causas da ascensão do populismo, em particular nos países ricos.

Carrasco notou que uma possibilidade trazida por Rajan, que apresentou dados preocupantes sobre o aumento de mortes de homens americanos brancos de meia-idade por suicídio, alcoolismo e consumo de drogas, é que, mais do que compensação pura e simples (o que se pode fazer em teoria repartindo os ganhos derivados de reformas econômicas tradicionais), os perdedores da globalização estejam em busca de algo que “devolva o sentido que viam na vida”.

Uma questão correlata, ligada a modelos de Brunnermeyer, é que, após um choque negativo, como o da crise de 2008, a forma certa de relançar a economia é de fato recapitalizar os bancos, instituições com mais capacidade de alocar capitais e gerir ativos de forma eficiente.

O problema, diz Carrasco, é que “é muito difícil justificar para o eleitor mediano a ‘redistribuição de riqueza para os mais ricos’, mesmo quando feita como parte de um seguro bem desenhado, cobrado de antemão – o que, aliás, não foi o caso na crise, aumentando a dificuldade”.

Arminio entra no assunto com uma entusiástica recomendação do livro Justice: What’s the right thing to do (Justiça: O que é a coisa certa a fazer), de Michael Sandel, professor de Filosofia Política de Harvard, que trata do tema da justiça, de Aristóteles até os contemporâneos. Arminio aponta que a justiça – e a percepção da sociedade sobre a sua vigência (ou não) – é extremamente importante no desenho das instituições econômicas, assim como a eficiência.

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