Reprodução/Facebook
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Quadro é de estagnação da economia e falta de rumo é notável, dizem economistas

Para participantes de seminário online realizado pelo Ibre/FGV em parceria com o 'Estadão', apesar das duas quedas seguidas do PIB

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2021 | 13h12

RIO - O Produto Interno Bruto (PIB) registrou dois trimestres seguidos de retração, no segundo (-0,4%) e no terceiro (-0,1%), caracterizando o que economistas de mercado classificam como “recessão técnica”, mas o cenário econômico é de estagnação, disseram pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) nesta quinta-feira, 9.

“Nossa avaliação é que tivemos uma recessão muito aguda (com a pandemia de covid-19, em 2020), saímos dela, mas não se pode dizer que não vamos entrar em outra. Agora, estamos em estagnação. Numa recessão, todos os setores se retraem. Agora, a desaceleração foi maior por causa da agropecuária. Denominar recessão é um pouco forte”, afirmou Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro Ibre, durante o IV Seminário de Análise Conjuntural, organizado pelo instituto da FGV, em parceria com o Estadão.

Também participante do seminário, o pesquisador Armando Castelar concordou com Silvia. “É mais um cenário de estagnação do que de recessão. Com o mundo crescendo muito, é frustrante. A economia mundial está com crescimento vigoroso. Então, estamos em estagnação, mas é frustrante”, afirmou o pesquisador do Ibre/FGV.

No cenário traçado por Silvia, o crescimento econômico ainda terá algum impulso associado à “normalização” das atividades, especialmente de serviços, à medida que o avanço da vacinação contra covid-19 permite a reabertura ou o funcionamento normal de negócios como consultórios médicos, salões de beleza, bares, restaurantes e cinemas. Esse impulso deverá garantir algum crescimento neste quarto trimestre e no início de 2022.

Para o próximo ano como um todo, o Ibre/FGV ainda espera a continuidade da normalização da oferta de serviços públicos, como saúde e educação, o que deve dar algum impulso positivo. Além disso, o bom regime de chuvas iniciado em outubro dá boa perspectiva para o PIB da agropecuária em 2022, após a estiagem atingir a atividade em cheio neste ano.

Por outro lado, inflação elevada, a alta dos juros básicos, o mercado de trabalho ainda em dificuldades e os gargalos de produção que atrapalham a indústria deverão segurar o que Silvia chamou de “parte cíclica” do PIB. Essa parte cíclica responde mais aos movimentos de crescimento da demanda via consumo das famílias, puxado por emprego e renda, e investimentos, puxados pelas perspectivas de boas taxas de retorno.

“O PIB ainda pode não ser negativo em 2022, mas o ‘PIB cíclico’, em torno de dois terços do total, terá contração. A questão toda é que existe um terço do valor adicionado (do PIB) que deverá contribuir positivamente”, afirmou a pesquisadora do Ibre/FGV, destacando a agropecuária.

O problema, para Castelar, é que há pouca perspectiva de saída do quadro de estagnação em 2022. “A questão maior que vai pegar em 2022 é a incerteza. Não temos muita ideia pra onde estamos indo, se é que vamos pra algum lugar. A percepção é que vamos ficar parados com inflação alta, desemprego alto e uma economia que não cresce. O que está mexendo com as ações dos agentes econômicos é 2023. Enquanto não houver clareza sobre 2023, não muda o quadro de estagnação”, resumiu o pesquisador.

Castelar chamou a atenção para como as perspectivas para o cenário econômico foram piorando ao longo do ano. Do primeiro ao quarto seminário conjuntural do Ibre/FGV, as projeções para o desempenho da economia vieram caindo. Agora, “terminamos o ano com cenário de baixo astral”.

“O que é notável é a falta de rumo. Ninguém sabe muito bem como vai fazer para mudar esse quadro de estagnação. O máximo de ambição é baixar um pouco a inflação e o PIB não cair”, afirmou Castelar.

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