Dida Sampaio/Estadão
Plenário do Senado Federal, em Brasília Dida Sampaio/Estadão

Senado contrapõe governo e discute auxílio social permanente sem 'fura-teto'

Arranjo do governo para alterar a regra do teto em 2022 e destravar o Auxílio Brasil é alvo de críticas por parte dos senadores, que buscam por uma solução permanente e menos eleitoreira 

Daniel Weterman, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2021 | 19h22
Atualizado 29 de outubro de 2021 | 15h22

BRASÍLIA - Em um movimento para contrapor o governo do presidente Jair Bolsonaro, o Senado começou a discutir alternativas para viabilizar o Auxílio Brasil sem mexer no teto de gastos em 2022 e ainda elaborar um programa de renda básica permanente no País.

Líderes do Senado resistem em aprovar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos precatórios, em tramitação na Câmara. A medida mexe no teto de gastos e amplia o espaço para gastos federais sob a justificativa de pagar um auxílio social de R$ 400 até dezembro de 2022, ano de eleições presidenciais.

O desenho feito pelo governo é alvo de críticas por ser limitado ao ano eleitoral e comprometer a situação fiscal das contas públicas federais. Nesta semana, o Senado chegou a pautar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que torna a renda básica um direito permanente dos brasileiros. A medida foi adiada e há movimentos para voltar ao plenário.

"O que importa de fato é tornar a renda básica uma política de Estado, que não fique à mercê da vontade do governante, uma política permanente, constitucional. Essa é a única forma de blindá-la de turbulências políticas, garantindo maior segurança da proteção social prestada aos mais necessitados pelo poder público", disse o líder do MDB, Eduardo Braga (AM), autor da PEC, em discurso no Senado.

O relator da PEC, Antonio Anastasia (PSD-MG), retirou um dispositivo que excluía toda a despesa com a renda básica do teto de gastos. O argumento é separar a discussão sobre uma política constitucional do financiamento para o próximo ano. Nos bastidores do Senado, parlamentares falam em apresentar alternativas para oferecer uma resposta à demanda social sem carimbar uma proposta desenhada para beneficiar Bolsonaro politicamente. 

Além da PEC, o Senado avalia pautar nas próximas semanas um projeto de lei que cria a chamada Lei de Responsabilidade Social, apresentado pelo senador Tasso Jereissati (PSDB-CE). A proposta cria um benefício referencial de R$ 125 mensais per capita e metas de diminuição da pobreza no País. O projeto também é relatado por Anastasia, que deve protocolar um parecer nos próximos dias e liberar a proposta para votação. 

Teto de gastos

Em meio ao impasse, parlamentares começaram a discutir a apresentação de outra proposta, esta mais pontual, que viabilize o Auxílio Brasil sem mexer no teto de gastos em 2022. A PEC dos precatórios, patrocinada pelo Executivo, altera a forma de cálculo do limite fiscal e pode aumentar as despesas federais em até 90 bilhões só no ano que vem, conforme cálculos de técnicos do Congresso. 

"Nós também queremos dar o auxílio, estaremos ajudando aqueles que passam fome e estaremos ajudando a todos os brasileiros, que não terão mais inflação, que não terão dólar mais alto, que não terão combustível mais alto, que terão mais investimentos, que terão mais empregos", disse o senador Oriovisto Guimarães (Pode-PR). "Não há necessidade de furar o teto de gastos para que possamos conceder esse auxílio àqueles que mais precisam."

A discussão de uma proposta mais ampla, no entanto, esbarra na articulação do Palácio do Planalto e no ambiente na Câmara dos Deputados, mais alinhada a Bolsonaro e por onde a tramitação da PEC dos precatórios começou. Nos bastidores, líderes políticos classificam a PEC como uma "faca no pescoço" dos parlamentares. Isso porque o governo não tem aceitado nenhuma proposta alternativa para abrir espaço no teto e viabilizar o Auxílio Brasil em 2022.

Votar contra a PEC levaria o governo a acusar o Congresso de votar contra o programa social e a necessidade das famílias carentes, dizem congressistas. Ao mesmo tempo, caciques partidários têm buscando aumentar a influência na destinação dos recursos federais. Conforme o Estadão/Broadcast publicou, o Executivo espera conseguir votos para a aprovação da PEC negociando a folga no teto para despesas de interesse dos políticos.

Pacheco defende programa com 'bases sólidas

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), defendeu a discussão de um novo programa social com "bases sólidas" e admitiu divergências com o governo do presidente Jair Bolsonaro na discussão sobre o Auxílio Brasil e a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos precatórios.

O senador defendeu a alteração na dinâmica do pagamento de precatórios, corrigindo as dívidas judiciais pela inflação desde 2016, e abrindo a possibilidade de encontro de contas entre a União e credores, mas citou divergência sobre outros pontos da PEC em tramitação na Câmara.

Pacheco relatou que há "críticas de diversos setores" a dispositivos da proposta que não tratam especificamente do pagamento dos precatórios da União. O parecer que chegou ao plenário da Câmara altera o teto de gastos, regra fiscal que limita o crescimento das despesas primárias desde 2016, abrindo espaço para o aumento de outros gastos federais.

"O programa social é importante estar estruturado em balizas que sejam sólidas, sustentáveis, previsíveis. Há intenção de dar efetividade para que haja o auxílio para as pessoas, essa é a preocupação essencial. A forma que se fazer é que vem tendo esse debate ao longo do tempo", disse Pacheco em entrevista coletiva no Senado, reforçando que há compromisso da Casa em apoiar o governo no pagamento de um benefício social.

Em meio ao impasse, o ministro da Economia, Paulo Guedes, criticou o presidente do Senado e afirmou que Pacheco não pode fazer "militância" e parar com a agenda de reforma.

"Não há hipótese alguma de fazer militância política e antecipar a disputa eleitoral de 2022 porque eu sei exatamente a dimensão e a responsabilidade que representa ser presidente do Senado", disse Pacheco em resposta a Guedes. "Se pudéssemos fazer um programa de R$ 400, R$ 450, de R$ 600, obviamente, encontrando caminhos para isso, o governo federal pode ter absoluta convicção que terá o Senado Federal como parceiro nisso."

Nesta semana, Pacheco se filiou ao PSD, em um movimento para se colocar na disputa pelo Planalto em 2022. Pacheco procurou afastar a filiação da relação com o Executivo.

"Nós temos as nossas visões, afirmações, em relação a diversos temas que não são necessariamente coincidentes em relação ao governo. Isso acontece quando se fala de reforma tributária, auxílio emergencial, solução de precatórios. A gente quer chegar a um denominador comum e pode ser que ideias diferentes aconteçam nesse meio do caminho."

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Não há 'plano B' para Auxílio Brasil e governo foca na aprovação de PEC dos precatórios, diz Roma

Ministro da Cidadania afirmou que o auxílio emergencial acabou; pasta já se organiza para pagar em novembro o reajuste de 20% para beneficiários do Bolsa Família, mesmo sem votação da PEC, que abre espaço para ampliação do programa social

Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2021 | 14h18

BRASÍLIA - O ministro da Cidadania, João Roma, disse nesta quinta-feira, 28, ao Estadão/Broadcast que o governo não trabalha com 'plano B' e está focado na votação e aprovação da PEC dos precatórios, que vai abrir espaço para ampliar o programa social do governo, chamado agora de Auxílio Brasil.

Roma avisou também que o auxílio emergencial "acabou" e não haveria sequer tempo hábil para prorrogá-lo, caso essa fosse a decisão de governo. "Não há plano B. O que nós estamos focados é na aprovação da PEC", disse o ministro.

Diante da demora na aprovação da PEC, voltaram os rumores de uma possível extensão do auxílio emergencial para não deixar os vulneráveis desassistidos. Essa possibilidade, porém, foi negada pelo ministro.

"Acabou o auxílio emergencial. Acabou o tempo hábil, inclusive (para prorrogar)", afirmou Roma. Ele ressaltou que essa decisão já vem sendo comunicada pelo governo há duas semanas e que, mesmo que houvesse disposição em estender a ajuda, o pagamento no mês de novembro seria inviável.

O Ministério da Cidadania já começou a fazer seus ajustes internos para pagar  em novembro o reajuste de 20% anunciado aos atuais beneficiários do Bolsa Família, que passarão agora ao Auxílio Brasil. A operacionalização do benefício temporário que vai assegurar um mínimo de R$ 400 até dezembro de 2022, porém, ainda depende da aprovação da PEC.

"Essa história de prorrogar auxílio emergencial acabou. Não há mais como fazer isso. Em novembro, será pago o Auxílio Brasil", afirmou Roma.

A votação da PEC dos precatórios estava prevista para quarta-feira, 27, mas naufragou na falta de quórum necessário para dar ao governo a garantia de uma margem favorável de votos. As ausências ocorreram na semana em que o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), decidiu retomar a obrigatoriedade da presença dos deputados na Casa para as votações, acabando com o sistema remoto implementado devido à pandemia de covid-19.

Uma PEC precisa de 308 votos de deputados para ser aprovada, em dois turnos de votação. Por isso, governistas calculam que, por segurança, o ideal é ter 490 votantes no plenário. Na quarta, a presença mal chegou a 450. Nesta quinta, há 390 deputados na Casa.

O ministro ressaltou, porém, que o governo está "determinado" a ajudar os mais vulneráveis. A nova previsão é que a PEC seja votada na próxima quarta-feira, 3.

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Com Auxílio Brasil emperrado, lideranças políticas discutem novo decreto de calamidade

Medida permitiria prorrogar o auxílio emergencial e seria uma alternativa à PEC dos precatórios,que abre espaço no Orçamento para pagamento do benefício em 2022; governo está com dificuldade para reunir os 308 votos necessários

Idiana Tomazelli e Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2021 | 16h35
Atualizado 28 de outubro de 2021 | 22h18

BRASÍLIA - Apesar do discurso oficial de foco na aprovação da PEC dos precatórios, essencial para abrir espaço no Orçamento de 2022 para o Auxílio Brasil turbinado e para emendas parlamentares, lideranças políticas começam a discutir fórmulas alternativas para garantir uma ampliação no programa social mesmo que a proposta de mudança constitucional fique travada no Congresso.

Segundo apurou o Estadão/Broadcast, líderes aliados levaram a uma reunião com integrantes do governo a possibilidade de nova decretação de calamidade, devido à persistência dos efeitos econômicos e sociais da pandemia de covid-19.

A aprovação de um novo decreto de calamidade é, do ponto de vista de tramitação, mais simples do que uma PEC. Ele requer o apoio de maioria simples tanto na Câmara quanto no Senado. Isso significa metade dos votos, desde que na hora da apreciação estejam presentes 257 deputados ou 41 senadores.

Para as lideranças favoráveis a esse caminho, a PEC já está “contaminada” por uma série de fatores, como a briga dos Estados para evitar o adiamento do pagamento de seus precatórios relativos ao Fundef (fundo da educação básica) e a ideia de que a flexibilização do teto de gastos, regra que limita o avanço das despesas à inflação, abrirá espaço para outras despesas como emendas parlamentares e ampliação do fundo eleitoral.

Os contrários a essa via veem uma tentativa de “chantagem” política. Ao acenar com calamidade, que impõe também algumas medidas de ajuste (como congelamento de salários), mas acaba abrindo espaço a um volume ainda maior de gastos relacionados à urgência, aliados do governo colocariam pressão pela aprovação da PEC.

O governo tem tido dificuldade de reunir os 308 votos necessários. Segundo relatos, deputados aliados levaram à reunião com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e os ministros da Casa Civil, Ciro Nogueira, da Secretaria de Governo, Flavia Arruda, e da Cidadania, João Roma, um artigo publicado pelo ex-presidente Michel Temer no jornal Folha de S. Paulo em defesa da calamidade.

No texto, Temer afirma que os mais vulneráveis poderiam “rebelar-se” com o aumento de sua pobreza após o fim do auxílio emergencial e sem a ampliação do Auxílio Brasil. Como consequência, poderiam “praticar atos que desagreguem a nação brasileira”. Para Temer, isso revelaria a “a razoável imprevisibilidade” e a “urgência” para que o governo, numa situação de calamidade, abrisse créditos extraordinários - fora do teto de gastos - para bancar o aumento de gastos sociais.

A possibilidade tem sido discutida dentro do governo, embora não seja considerada a hipótese mais forte no momento. Mas uma fonte dessa ala reconhece que, caso a PEC não seja aprovada, dificilmente o presidente Jair Bolsonaro “vai ficar sentado sem fazer nada”. Nessa situação, porém, o foco continuaria sendo o atendimento das 17 milhões de famílias em situação de pobreza e extrema pobreza - ou seja, sem estender novamente a ajuda ao público atual de 39,4 milhões de famílias do auxílio emergencial.

Entre técnicos, a cautela é maior. Na equipe econômica, a resistência é grande e há a visão de que “seria uma calamidade fazer uma calamidade”. No entanto, mesmo que isso ocorresse, a avaliação é que a calamidade por si só não desobriga o governo a seguir o limite do teto de gastos. Para escapar da regra, seria preciso abrir créditos extraordinários, e esses técnicos não veem embasamento hoje para justificar a imprevisibilidade.

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Bolsonaro é aconselhado a consultar TCU sobre possibilidade de prorrogar auxílio emergencial

Possibilidade de prorrogação do auxílio voltou ao debate diante das dificuldades políticas para aprovação da PEC dos precatórios

Adriana Fernandes e Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2021 | 18h21
Atualizado 29 de outubro de 2021 | 15h25

BRASÍLIA - Sem garantia de aprovação da PEC dos precatórios, que libera espaço para o pagamento de ao menos R$ 400 às famílias do Auxílio Brasil até dezembro de 2022, o presidente Jair Bolsonaro tem sido aconselhado a fazer uma consulta formal ao Tribunal de Contas da União (TCU) sobre a possibilidade de prorrogar o auxílio emergencial.

A ideia está no cardápio de alternativas que vêm sendo analisadas por lideranças do Congresso e integrantes do governo para contornar o revés imposto pela falta de quórum na votação da PEC na quarta-feira, 27. A proposta abre ao menos R$ 83 bilhões para gastos no Orçamento de 2022, parte destinada à ampliação do Auxílio Brasil. Há promessa de nova votação após o feriado, mas lideranças estão céticas de que o governo terá os 308 votos necessários para aprovação. O assunto precisa ser liquidado até a segunda semana de novembro para viabilizar os pagamentos.

Outra opção defendida nos bastidores é uma nova decretação de calamidade pública, o que abriria caminho ao pagamento de benefícios sociais sem as travas fiscais que existem hoje. As duas medidas podem inclusive vir combinadas, pois há uma dúvida jurídica se é necessário decretar estado de calamidade para então prorrogar o auxílio emergencial.

Segundo apurou o Estadão/Broadcast, conversas informais sobre a extensão do benefício já ocorreram, mas a consulta ainda não foi formalizada ao TCU. Uma fonte da ala política do governo reconhece que, caso a PEC não seja aprovada, dificilmente Bolsonaro "vai ficar sentado sem fazer nada".

O auxílio emergencial atual acaba no próximo domingo, 31, e hoje paga parcelas que vão de R$ 150 a R$ 375. Pouco mais de 39 milhões de famílias são beneficiadas. Há nos bastidores a discussão se a prorrogação alcançaria todos os atuais beneficiários, como é o desejo da ala política, ou se ficaria restrita às 17 milhões de famílias que farão parte do Auxílio Brasil.

As alternativas ganharam força nesta quinta-feira, 28, em um ambiente de confusão, marcado por vaivém de declarações de autoridades e muita incerteza sobre qual será a fórmula final adotada pelo governo para contemplar os vulneráveis.

O ministro da Cidadania, João Roma, disse ao Estadão/Broadcast que o governo está focado na votação. "Não há plano B. O que nós estamos focados é na aprovação da PEC", disse. Ele descartou a prorrogação do auxílio e explicou que, mesmo que houvesse decisão nesse sentido, não há mais tempo hábil para pagar esse benefício no mês de novembro. "Essa história de prorrogar auxílio emergencial acabou. Não há mais como fazer isso. Em novembro, será pago o Auxílio Brasil", disse Roma.

Lideranças governistas mudaram de discurso ao longo do dia. O líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), disse no início da tarde ao Estadão/Broadcast que não haveria nem prorrogação do auxílio, nem decretação de calamidade. “Vai passar precatório. Já está tudo certo, tem dia para votar e a mobilização está feita”, disse. Horas depois, Barros admitiu a hipótese de extensão do benefício. “Se não tiver Auxílio Brasil, haverá auxílio emergencial. O governo não deixará de pagar o auxílio aos mais pobres”, afirmou o líder, segundo relatou o jornal Valor Econômico.

Para levar adiante a proposta de prorrogar o auxílio emergencial, o argumento é que os efeitos econômicos e sociais da pandemia de covid-19 persistem. A extensão do benefício social se daria por meio de crédito extraordinário, fora do teto de gastos, a regra que limita o avanço das despesas à inflação.

 

Calamidade

O mesmo argumento da pandemia valeria para a calamidade. Segundo apurou o Estadão/Broadcast, lideranças discutiram a possibilidade em uma reunião na quarta-feira, 27, com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP), e ministros do governo.

Para as lideranças favoráveis a esse caminho, a PEC já está "contaminada" por uma série de disputas em torno do texto e também pelo espaço fiscal aberto com sua aprovação. Já os contrários veem uma tentativa de "chantagem" política. Ao acenar com calamidade, o governo colocaria pressão pela aprovação da PEC.

Entre técnicos, a cautela é maior. Na equipe econômica, a resistência é grande e há a visão de que “seria uma calamidade fazer uma calamidade”. No entanto, mesmo que isso ocorresse, a avaliação é que a calamidade por si só não desobriga o governo a seguir o limite do teto de gastos. Para escapar da regra, seria preciso abrir créditos extraordinários, e esses técnicos não veem embasamento hoje para justificar a imprevisibilidade.

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Dólar sobe 1,26% e Bolsa cai com risco de governo adotar outras saídas para o Auxílio Brasil

Diante da falta de apoio para votar a PEC dos Precatórios, lideranças políticas já discutem a possibilidade de nova decretação de calamidade para bancar o programa social

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2021 | 14h32
Atualizado 28 de outubro de 2021 | 18h37

O impasse em torno da PEC dos Precatórios, cuja votação, marcada para ontem, foi adiada para semana que vem, alimentou a cautela do mercado nesta quinta-feira, 28, principalmente diante da informação de que lideranças políticas já se posicionam para buscar uma alternativa. A esse cenário, se somou ainda a avaliação de que o Banco Central não foi duro o bastante com a Selic, agora a 7,75%. Em resposta, o dólar fechou em alta de 1,26%, a R$ 5,6253, enquanto a Bolsa brasileira (B3) caiu 0,62%, aos 105.704,96 pontos -  menor nível de encerramento desde 13 de novembro de 2020.

O dólar à vista já abriu a sessão em alta e ultrapassou a marca de R$ 5,60 na primeira hora de negócios. O pior momento veio no início da tarde, quando a moeda americana correu até a máxima de R$ 5,6358, alta de 1,45%, em meio a rumores de que, dadas dificuldades para a aprovação da PEC dos Precatórios, o governo estudaria a possibilidade de decretar estado de calamidade pública, abrindo espaço para despesas fora do teto de gastos e renovação do auxílio emergencial, por meio da aprovação de créditos extraordinários.

Logo em seguida, o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-R), disse ao Estadão/Broadcast que não vai haver prorrogação do auxílio emergencial e nem decretação do estado de calamidade porque a PEC dos Precatórios será aprovada na próxima quarta-feira, 3, em sessão presencial da Câmara.

Na mesma linha, o ministro da Cidadania, João Roma, disse que o governo está focado "na aprovação da PEC" e não "há plano B". Em entrevista para comentar o resultado das contas do governo central, o subsecretário de Planejamento Estratégico da Política Fiscal do ministério da Economia, David Rebelo Athayde, disse que "não tem possibilidade de a equipe econômica defender a ideia de que haja um novo decreto de calamidade pública".

No entanto, depois da debandada de parte da equipe econômica na semana passada, puxada pela saída do secretário de Tesouro e Orçamento, Bruno Funchal, cresceram as dúvidas sobre a capacidade do ministro da Economia, Paulo Guedes, de se contrapor ao desejo da ala política do Planalto por ampliação das despesas.

Hoje, nem mesmo a divulgação de superávit de R$ 303 milhões do governo central em setembro, acima da mediana do Projeções Broadcast (déficit de R$ 4,250 bilhões), arrefeceu os temores de degringolada fiscal em meio ao abandono informal do teto de gastos. A fotografia das contas públicas pode ser boa, mas a história que o filme conta caminha para um final muito ruim, dizem analistas.

Para o head de câmbio da Acqua-Vero Investimentos, Alexandre Netto, a tese de que uma taxa Selic maior daria sustentação ao real não se sustenta, mesmo após o Banco Central sinalizar outro aumento de 1,5 ponto porcentual em dezembro. "O problema é a percepção de risco elevada com essa incerteza sobre a política fiscal", diz.

"A alta de 1,5 ponto porcentual (na Selic ontem) e o compromisso de mais um aumento não foi suficiente para o mercado. Mostrou um BC reativo ao cenário econômico - inflação alta e aumento do risco fiscal -, e não proativo para antecipar os problemas. Somente acompanhar o rumo certamente fará o Copom 'correr atrás da curva'", observa Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora.

Hoje, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 caiu de 8,473% para 8,40% e a do DI para janeiro de 2023 subiu de 11,529% para 12,40%, fechando perto da máximas de 12,405%.  A do DI para janeiro de 2025 fechou em 12,51%, de 11,817% ontem, e a do DI para janeiro de 2027, em 12,47%, de 11,905%.

"O BC continua atrás da curva e, sozinho, sem a âncora fiscal, não está conseguindo segurar a ponta longa dos juros. Os preços dos ativos estão cada vez mais baixos, mas o ruim sempre pode ficar pior", diz Ricardo Campos, CEO da Reach Capital

No exterior, o índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a seis divisas fortes - operou em queda firme, na casa de 93,300, sobretudo por conta do fortalecimento do euro, na esteira de declarações mais duras da presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde. Por aqui, com o avanço nesta quinta-feira, as perdas do dólar na semana foram praticamente apagadas (-0,04%). No acumulado do mês, a moeda americana avança 3,29%

Bolsa

Em meio ao impasse sobre a votação da PEC dos Precatórios, com o governo parecendo encontrar dificuldade para reunir quórum para uma aprovação segura, o Ibovespa voltou a mostrar nervosismo nesta quinta quanto à evolução do fiscal em 2022, no dia seguinte à elevação da Selic a 7,75% ao ano, com sinalização do Copom para outro aumento de 1,5 ponto porcentual em dezembro - indicação que não convenceu o mercado, que aposta em ajuste maior tanto em dezembro como em fevereiro.

Com isso, o Ibovespa se descolou de Nova York, com S&P 500 e Nasdaq renovando máximas históricas de fechamento, em altas de 0,98% e 1,39% cada. Já o Dow Jones subiu 0,68% - os três operam na esteira de balanços positivos. Na semana, o principal índice de ações brasileiro cai 0,56%, cedendo 4,75% no mês e, agora, 11,19% no ano.

À espera do balanço trimestral após o fechamento de hoje, Petrobras ON e PN subiram 0,96% e 0,94% cada, exceção positiva entre as empresas de maior liquidez. Na ponta do Ibovespa, destaque para Ambev, em alta de 9,72%, após resultados considerados fortes para o terceiro trimestre, seguida por BRF, com 6,56% e Klabin, com 1,37%. Na face oposta do Ibovespa, Americanas ON baixou 8,60% e Vale, que também divulga resultado trimestral hoje, caiu 1,57%. /ANTONIO PEREZ, LUÍS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

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