Erin Schaff/The New York Times
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Senado republicano seria ruim para os negócios

Aquilo que é ruim para os EUA prejudica também as corporações; as grandes empresas deveriam torcer pelos democratas na Geórgia

Paul Krugman*, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2020 | 04h00

Bem, parece que a onda azul ficou aquém da expectativa. Joe Biden será o próximo presidente dos Estados Unidos, mas, a não ser que os democratas surpreendam no segundo turno da eleição para o Senado na Geórgia – coisa que é possível, levando em consideração o notável poder de seus esforços de organização no Estado –, Mitch McConnell seguirá como líder da maioria no Senado.

As grandes corporações parecem felizes com esse resultado. O mercado de ações estava se valorizando antes mesmo de recebermos as boas notícias do avanço no desenvolvimento de uma vacina para o coronavírus. Os interesses corporativos parecem imaginar que vão prosperar em uma presidência de Biden contida pelo controle republicano do Senado.

Mas as grandes empresas estão enganadas. O mais provável é que um governo dividido resulte em uma paralisia em um momento em que precisamos desesperadamente de ações decisivas.

Por quê? Apesar do avanço na pesquisa da vacina, tudo indica que teremos um inverno digno de pesadelos no Hemisfério Norte graças à pandemia – que será muito agravado em termos humanos e econômicos se um Senado republicano bloquear a resposta do governo Biden. E embora seja esperada uma recuperação econômica quando uma vacina for amplamente distribuída, temos imensos problemas no longo prazo que não serão solucionados se vivermos o tipo de impasse que caracterizou a maior parte dos anos de governo de Obama.

Em primeiro lugar, a pandemia: com boa parte da atenção do público voltada para os esforços desesperados de Donald Trump para roubar a eleição ou para a esperança de uma vacina que nos permita retomar a vida normal, não sei ao certo quantas pessoas percebem o quanto a perspectiva para os próximos meses é sombria.

Ao longo da semana mais recente, os americanos têm morrido em decorrência da covid-19 a um ritmo de mais de mil pessoas por dia. Mas, normalmente, o número de mortes corresponde a algumas semanas antes do número de casos informados – e o número de novos casos diários mais do que dobrou nas três semanas mais recentes. Isso significa que, em algum momento do próximo mês, provavelmente chegaremos à marca de duas mil mortes por dia.

E o número de novos casos segue aumentando exponencialmente, de modo que as coisas devem ficar muito, muito piores nos meses seguintes, especialmente porque, na prática, os americanos estarão sem presidente até o dia 20 de janeiro. Quando Biden finalmente assumir, é bem possível que ele tenha pela frente o equivalente a um 11 de setembro por dia.

Além das mortes e dos danos de longo prazo à saúde dos sobreviventes, a explosão da pandemia também trará imensas dificuldades econômicas. Governos responsáveis estão impondo novas quarentenas que podem ajudar a limitar a difusão do coronavírus, mas isso também produzirá uma nova onda de desemprego.

É verdade que alguns dos piores surtos de coronavírus nos EUA são agora observados em Estados cujos irresponsáveis governadores não anunciam nem mesmo a obrigatoriedade do uso de máscaras. Mas até nesses Estados as pessoas não podem deixar de notar que amigos e vizinhos estão morrendo, e os hospitais se encontram cada vez mais lotados; elas vão reduzir seus gastos, levando a muitos empregos perdidos, mesmo na ausência de uma orientação política.

Claramente, o que precisamos é um imenso programa de auxílio contra desastres, oferecendo às famílias, às empresas e também aos governos locais e estaduais a ajuda necessária para evitar a ruína financeira até a chegada de uma vacina. E seria de se pensar que um Senado republicano estaria disposto a trabalhar com o governo Biden para aprovar um programa cuja necessidade é tão óbvia.

Quer dizer, esse seria o pensamento e alguém que passou os 12 anos mais recentes escondido em uma caverna.

Lembremos da famosa declaração de McConnell – “Para nós, o mais importante é garantir que o presidente Obama não seja reeleito” – que ocorreu em outubro de 2010, num momento de lenta recuperação econômica e altíssimo desemprego. Por que imaginar que ele se mostraria mais disposto a cooperar, mais disposto a agir em nome do interesse nacional, quando milhões de eleitores irrecuperáveis de Trump estão acusando os medalhões republicanos de traírem seu herói?

Sendo realistas, o máximo que podemos esperar é um pacote magro que ficará muito aquém das necessidades dos EUA. E eu me pergunto se os republicanos que temem Trump, que agora se mostram exemplos de covardia enquanto seu futuro ex-presidente faz alegações descabidas de fraude eleitoral, terão a disposição de aprovar esse mínimo.

A boa notícia é que o drama chegará ao fim quando tivermos uma ampla distribuição da vacina. Na verdade, uma forte recuperação nos empregos é esperada para o fim do ano que vem.

Mas esse não será o fim dessa história. Antes do coronavírus, os EUA tinham um baixo desemprego – mas nossa prosperidade de curto prazo (muito mal distribuída, diga-se) ocultou a extensão da nossa negação diante do futuro. Precisamos desesperadamente gastar trilhões no reparo de nossa infraestrutura ultrapassada, no cuidado de nossas crianças e no combate à mudança climática.

Até que ponto um Senado republicano vai aceitar esses gastos essenciais? A aposta mais segura é supor que não aprovarão nada. Afinal, McConnell impediu gastos com infraestrutura até quando Trump estava na Casa Branca e o investimento público poderia tê-lo ajudado a se manter na presidência.

Bem, o que é ruim para os EUA não é necessariamente ruim para as corporações. Mas, levando em consideração nossa situação atual, um governo dividido significaria uma paralisia em tempos de crise, o que pode facilmente ser catastrófico para todos. A verdade é que, mesmo considerando apenas os próprios interesses, as grandes empresas deveriam torcer pelos democratas no segundo turno da Geórgia. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

*NOBEL DE ECONOMIA, COLUNISTA DO ‘THE NEW YORK TIMES’

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