Senador ataca 'supergênios' e critica uso de MPs contra crise

Pedro Simon foi duro com Mantega e Meirelles sobre MP que autoriza BB e a Caixa a comprarem outros bancos

Adriana Fernandes, da Agência Estado,

30 de outubro de 2008 | 12h38

O senador Pedro Simon (PMDB-RS) criticou nesta quinta-feira, 30, na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), no Senado, a utilização de medidas provisórias (MPs) pelo governo para enfrentar os efeitos da crise financeira internacional e cobrou do ministro da Fazenda, Guido Mantega, e do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, diálogo com o Congresso antes do anúncio de ações oficiais contra a turbulência. Em discurso duro, o senador afirmou que os dois - Mantega e Meirelles - não podem achar que são "supergênios" com condições de resolver os problemas melhor do que a sociedade.   Veja também: Crise financeira é sistêmica e ninguém escapará, diz Mantega Veja os reflexos da crise financeira em todo o mundo Veja os primeiros indicadores da crise financeira no Brasil Lições de 29 Como o mundo reage à crise  Entenda a disparada do dólar e seus efeitos Especialistas dão dicas de como agir no meio da crise Dicionário da crise    Simon foi mais duro com o presidente do BC, que no momento do discurso ainda não havia chegado à CAE. Dirigindo-se a Mantega, o senador disse que tem "muito respeito" por ele e que, em relação a Meirelles, tem "alguma restrição". Criticou o fato de os dois terem passado seis horas na Câmara, na semana passada, falando sobre a crise sem informar que no dia seguinte seria editada a Medida Provisória 443, que autorizou o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal a comprarem outros bancos.   O senador do PMDB comentou que, nos Estados Unidos, o governo apresentou "um plano de trilhão de dólares", enviou-o à Câmara, que o rejeitou e, em pleno processo eleitoral, o governo teve que enviar outra proposta ao Congresso e negociar. "No Brasil, não pode. No Brasil, tem que ser medida provisória."   Em resposta a Simon, Mantega justificou o uso de MPs sob o argumento de que "é necessário medidas emergenciais, que são submetidas a posteriori aos parlamentares" e citou como exemplo a criação do fundo soberano, que não teve um contexto emergencial e foi encaminhado por meio de projeto de lei. O ministro disse ainda que as medidas tomadas aqui são "bem diferentes" das dos EUA.   "Nós não fizemos pacote, tomamos algumas medidas, voltadas para questão da liquidez. A (MP) 442, por exemplo, apenas regulamenta o uso do redesconto, que já existe no País. Pacote é quando se faz conjunto grande de medidas, um plano que muda a moeda, a indexação. O que fizemos foi um pequeno armamento", afirmou.   Em busca de respostas   Com ironia, Simon perguntou ao presidente da CAE, senador Aloizio Mercadante (PT-SP), que tentava interrompê-lo, se soubera antes sobre a MP 443 ou só depois, pela televisão. Mercadante desistiu da interrupção e disse: "Continue, senador, eu vou contribuir com meu silêncio." Simon declarou: "O seu silêncio já explicou tudo."   Com dureza maior, Simon observou que, nos EUA, o presidente do Banco Central, Ben Bernanke, chegou a comparecer três vezes no mesmo dia ao Congresso, enquanto, no Brasil, "há uma mentalidade viciada em relação às MPs, que vem da Constituinte". O senador comentou que o governo brasileiro, na crise, está agindo com competência, mas, "há uma angústia em relação a se ver aonde vai e aonde não vai."   Simon lembrou que, durante o Plano Cruzado, em 1986, o então presidente José Sarney teve popularidade de 90% e, no final do governo, ela caiu para 9%. Disse que o destino político do País "está jogado nas questões econômicas". Acrescentou que, se dependesse dele, a popularidade do presidente Lula iria a 100%, mas tem medo de que "as coisas sejam mais difíceis." Simon encerrou dirigindo-se a Mantega: "Vossa Excelência é de uma competência muito grande, mas leve essa tese de que dialogar com o Congresso, onde tem mais gente em torno da mesa, é melhor." Assim que Simon terminou sua intervenção, Meirelles chegou à CAE para falar sobre a crise.   Oposição   A estratégia da oposição será pedir mais cautela a Mantega e a Meirelles. O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM) disse à Agência Estado que pedirá às duas autoridades para "conterem o ufanismo" quando falarem da crise financeira. Virgílio também adiantou que outro tema que deverá pautar as discussões na audiência é a Medida Provisória 443, aprovada nesta semana na Câmara, que abre à Caixa Econômica Federal e ao Banco do Brasil a possibilidade de adquirir o controle acionário de outras instituições financeiras.

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