Senna: câmbio não deve sofrer intervenção

A alta da cotação do dólar não deveria levar o Banco Central a intervir no mercado, vendendo dólares ou oferecendo títulos cambiais - papéis indexados à cotação da moeda norte-americana. Essa é avaliação do ex-diretor de política monetária do Banco Central (BC) e diretor da MCM Consultores, José Júlio Senna.De acordo com o executivo, a situação no Brasil é mais confortável em relação aos períodos de crise no México e na Ásia, justamente em função do câmbio livre adotado como política monetária desde fevereiro de 1999. "Se o governo tentasse fixar um patamar para o dólar, as conseqüências para a economia brasileira seriam ainda piores, com queda no volume das reservas e aumento da desconfiança dos investidores em relação ao Brasil", explica.Senna afirma que, mesmo que a situação na Argentina não melhore, o efeito da crise no país vizinho não tem caráter permanente no Brasil. "À medida que os investidores estrangeiros vão se convencendo de que as condições econômicas brasileiras são bem melhores do que as da Argentina, o preço de venda do dólar pode começar a cair, o que não justificaria uma intervenção do BC agora", afirma Senna.Mas o Banco Central dá sinais de que pretende ser mais conservador. No final da manhã, a instituição cotou preço de venda e de compra do dólar junto às mesas de operação dos bancos. Muitas instituições interpretaram essa atitude do BC como uma possível intervenção no mercado. Isso fez com que a cotação recuasse de R$ 1,9350 - cotação máxima do dia - para R$ 1,9280.Desaceleração da economia nos EUA já era motivo para alta do dólarO ex-diretor do BC acredita que a situação da Argentina foi apenas a "gota d´água" para a forte pressão de alta sobre o dólar. A política monetária dos Estados Unidos, que vem aumentando a taxa de juros desde meados do ano passado, foi o primeiro passo para o cenário de instabilidade atual. Os juros subiram de 4,75% ao ano, registrados em junho de 1999, para 6,5% em maio desse ano. "Juros altos nos EUA desaceleram a economia do país e diminuem as perspectivas de ganhos das empresas. Como ainda não se sabe a dimensão do recuo da atividade da economia norte-americana e se já é suficiente para conter os índices de inflação, todos os preços de ativos no mercado mundial tendem a apresentar forte oscilação", explica Senna.Exemplo disso é a Nasdaq - bolsa norte-americana que negocia papéis do setor de tecnologia e Internet. No acumulado do ano, até ontem, a queda era de 15,96%. No caso do Brasil, o dólar é também um exemplo claro disso. "Devido à incerteza sobre os valores justos dos ativos, o investidor tende a deixar aqueles que oferecem maior risco, como as ações. Além disso, há uma migração de recursos de países emergentes para economias mais seguras", afirma.

Agencia Estado,

25 de outubro de 2000 | 17h42

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