Lula Marques/Agência PT
Lula Marques/Agência PT

S&P diz não ver entrega de políticas econômicas de forma consistente

Analista comentou que vai ser difícil o governo adotar medidas significativas de cortes de gastos devido ao clima político em Brasília e à rigidez na estrutura do Orçamento

Altamiro Silva Junior, correspondente, e Álvaro Campos, O Estado de S. Paulo

14 Setembro 2015 | 16h01

NOVA YORK E SÃO PAULO - A diretora-gerente de ratings soberanos da Standard & Poor's (S&P), Lisa Schineller, afirmou que não vê uma entrega de políticas econômicas de forma consistente por parte do governo brasileiro. Durante conferência pela internet, em diversos momentos ela citou a revisão nas metas de superávit primário, além das dificuldades nas negociações com o Congresso.

Lisa comentou que vai ser difícil o governo adotar medidas significativas de cortes de gastos devido justamente ao clima político em Brasília, além da rigidez na estrutura do Orçamento. "A forte queda nas receitas é uma das causas da inabilidade de atingir as metas fiscais, em função do contexto econômico, e aumenta o desafio de lidar com a rigidez estrutural no médio prazo. Os membros da equipe econômica estão comprometidos com isso, mas, dado o contexto político, vemos muitos riscos para que isso seja executado", afirmou.

A diretora recebeu uma pergunta de um dos participantes da conferência sobre a possibilidade de o governo usar medidas contracíclicas. Segundo ela, a não-entrega de resultados fiscais foi uma das coisas que mais prejudicou a credibilidade do governo e o essencial agora é mudar essa trajetória. "Esse debate sobre políticas contracíclicas é importante, mas houve um uso excessivo dessas medidas no passado e isso não levou a um crescimento mais forte, além de prejudicar a credibilidade do governo", comentou.

Lisa explicou que a S&P prevê três anos seguidos de resultado primário negativo (a partir de 2014) e que mesmo assim existem riscos para o cumprimento das metas estabelecidas pelo governo. "Nós esperamos uma resposta lenta em direção à construção de um superávit primário, com uma lenta retomada do crescimento, mas temos de ver como as coisas vão progredir no Congresso", disse.

Ela afirmou ainda que, se o contexto fosse diferente, as medidas mais estruturais anunciadas pelo governo no primeiro semestre (como a mudança nas regras de pensão por morte e seguro-desemprego) poderiam ter melhorado o sentimento em relação ao Brasil. O mesmo poderia ter sido observado com o programa de concessões em infraestrutura, mas os desdobramentos da operação Lava Jato, da Polícia Federal, e o desempenho muito ruim da atividade econômica acabaram impedindo isso.

"A capacidade de executar as políticas econômicas e fortalecer as perspectivas de crescimento é o que afeta o rating, e nós vemos uma capacidade menor de fazer isso hoje do que antes", afirmou Lisa. Mesmo assim, a diretora ressaltou que a S&P não fala em nenhum momento sobre um risco de solvência do Brasil.

Impeachment. Lisa Schineller afirmou ainda que um impeachment da presidente Dilma Rousseff não está no cenário base da agência, mas que se isso acontecesse obviamente haveria um grande estresse político.

Lisa lembrou que quando houve o impeachment de Collor, a S&P ainda não atribuía rating para o Brasil, mas apontou que o País já passou por momentos de alta tensão política antes, como o caso do mensalão. "Nós temos de analisar como seriam as políticas durante esse período de estresse político, ou com um governo interino. O que nós olharíamos é o grau de impacto que isso teria nas políticas econômicas", comentou, explicando que a agência não avalia os partidos políticos em si.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.