CHRIS J RATCLIFFE/AFP
CHRIS J RATCLIFFE/AFP

Reino Unido é rebaixado e bolsas perdem US$ 2 tri com Brexit

Com vitória do 'sim', pânico no mercado de ações superou o do dia seguinte à quebra do Lehman Brothers, em 2008; Ásia e Europa perderam mais que um PIB brasileiro

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

27 Junho 2016 | 15h12

GENEBRA - As agências de classificação de risco Standard & Poor’s e Fitch rebaixaram o rating do Reino Unido depois de a população decidir em referendo, na semana passada, deixar a União Europeia. Além disso, com o resultado, o mercado de ações perdeu só na sexta-feira US$ 2 trilhões (R$ 6,7 trilhões) – o equivalente a 3% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial.

Apenas na sexta-feira, a queda nos valores de ações em Londres, Paris, Frankfurt e na Ásia somou valor superior a todo o PIB brasileiro de 2015 ou R$ 5,9 trilhões. Ainda segundo a S&P, as perdas superaram as causados no dia seguinte à quebra do Lehman Brothers em 2008 e à Segunda Negra de 1987.

A Standard & Poor’s de rebaixou a classificação de risco da segunda maior economia da Europa, passando de AAA para AA. A agência ainda manteve a perspectiva negativa, o que pode elevar os custos para que o Tesouro britânico ou as empresas do país tenham acesso a créditos externos. 

Na avaliação dos analistas, o Brexit “vai enfraquecer a previsibilidade, a estabilidade e a efetividade do cenário político no país, afetar a economia e o crescimento do PIB, bem como seu equilíbrio fiscal e externo”. A saída da União Europeia pode ainda levar a uma “deterioração do desempenho econômico, incluindo de uma grande parte do setor de serviços financeiros”. Para a S&P, a opção pela saída da UE deve ainda desencadear uma crise constitucional, com Escócia e Irlanda do Norte fazendo um plebiscito sobre sua independência.

A Fitch também rebaixou o rating de probabilidade de inadimplência do emissor de longo prazo em moedas estrangeira e local do Reino Unido de AA+ para AA. A perspectiva é negativa. 

Em comunicado, a agência afirma que a decisão do país de deixar a UE terá impacto negativo sobre sua economia, finanças públicas e política. “A Fitch acredita que a incerteza após o resultado do referendo vai induzir a uma abrupta desaceleração no crescimento do PIB no curto prazo, com as empresas adiando investimentos e considerando mudanças no ambiente legal e regulatório.”

Mercados. As bolsas voltaram a fechar em forte baixa nesta segunda-feira, 27, e, para analistas, o pânico inicial ainda não foi totalmente absorvido. A moeda britânica atingiu seu menor valor em 31 anos, num patamar de US$ 1,3151. Já os papéis do Tesouro de Londres atingiram um baixa recorde. As ações de empresas aéreas, empresas de construção e bancos foram os mais afetados. O Royal Bank of Scotland chegou a perder 22%, ante uma queda de 21% nas ações da Easyjet. O FTSE 250 Index, em Londres, chegou a perder 6%, após queda de 7% na sexta-feira. 

Agora, analistas começam a avaliar o impacto que a saída pode ter no médio e longo prazos. “Houve uma primeira onda de impacto que foi imediato”, disse ao Estado o estrategista-chefe do banco suíço Julius Baer, Christian Gattiker, que aposta em uma intervenção mais ampla dos bancos centrais se o colapso das bolsas continuarem a ser registrados. Em sua visão, os mercados ainda não superaram essa primeira etapa.

Uma segunda onda, para ele, pode ser a avaliação do “risco de um contágio” mais generalizado no mercado de ações da Europa. “A pergunta que se faz é se o Brexit é o primeiro sinal do fim da UE no longo prazo”, apontou o representando do maior private bank independente da Suíça com ativos de clientes de 393 bilhões de francos suíços. “Essa não é a nossa visão. Mas pode estar entre os cenários avaliados”, esclareceu. 

Uma terceira onda de reações estaria baseada na resposta que a comunidade internacional dará à saída do Reino Unido da UE. “Veremos qual será a resposta política da UE, do G-7 e também dos bancos centrais.”

Incertezas. Nem mesmo a tentativa do ministro de Finanças do Reino Unido, George Osborne, de tranquilizar os mercados acalmou os investidores. Seu recado era de que a economia britânica era sólida e que, nos últimos meses, “planos robustos de contingência foram criados”. Segundo ele, Londres poderia enfrentar o futuro “com uma posição de força”. Mas admitiu que “ajustes” ainda ocorreriam. 

Ao Parlamento, o premie David Cameron admitiu que negociar a saída da UE e novos acordos financeiros e comerciais com o resto do mundo promete ser “o maior desafio da administração pública por décadas”. 

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