S&P revê nota do Brasil diante de PIB fraco e gastos elevados

Agência colocou rating do País em perspectiva negativa e disse que pode rebaixá-lo nos próximos dois anos

Adriana Fernandes, Anne Warth e João Villaverde, de O Estado de S.Paulo,

06 de junho de 2013 | 19h29

BRASÍLIA - Cinco anos após ser elevado à categoria de grau de investimento pelas agências de classificação de risco, o Brasil recebeu um duro golpe. Primeira a promover o País, em abril de 2008, a Standard & Poor’s também foi a primeira a reduzir a perspectiva positiva das condições macroeconômicas brasileiras, que saiu de "estável" para "negativa", por conta do baixo crescimento e dos gastos do governo.

É o primeiro passo na direção do rebaixamento da nota de crédito do País, algo que pode ocorrer ao longo dos próximos dois anos, segundo a S&P.

A nota dada pelas agências de rating funciona como um selo de qualidade para o investidor estrangeiro aplicar o seus recursos no País. O movimento da S&P acontece poucos dias depois de o governo mudar a tributação sobre o capital externo para trazer mais recursos para o País. A decisão da S&P foi sustentada, segundo comunicado da agência, pelo baixo ritmo de crescimento do PIB nos últimos anos, aliado a uma política de expansão do gasto público. De acordo com a nota assinada por Sebastian Briozzo, analista de crédito da S&P, essa dinâmica recente do País resulta em "sinais ambíguos" do governo, que reduzem a confiança do investidor estrangeiro.

O mercado reagiu à notícia com pessimismo e um sinal de alerta quanto aos rumos da política econômica brasileira. Ao mesmo tempo, analistas destacaram na noite de ontem que o movimento iniciado pela S&P confirma, de certa forma, a percepção dos investidores diante da falta de dinamismo da atividade econômica brasileira.

A agência não deixou passar despercebido o último resultado do PIB trimestral, divulgado na semana passada. Segundo dados oficiais, a economia cresceu apenas 0,6% entre o quarto trimestre de 2012 e os primeiros três meses de 2013.

A agência destacou o fraco resultado do consumo das famílias neste período - um avanço de apenas 0,1%. Até então, o PIB brasileiro vinha sendo sustentado justamente pela demanda das famílias. Após crescer 2,7% em 2011 e 0,9% em 2012, o próprio governo trabalha, internamente, com um avanço inferior a 3%.

Investimentos. A Standard &Poor’s citou, também, o desempenho modesto das exportações e o investimento declinante do setor privado, apesar das enormes necessidades de melhorias logísticas no País. "Os ratings também incorporam a dívida governamental e as necessidades de refinanciamento relativamente grandes", disse Briozzo em seu relatório.

Além disso, disse o analista, "uma elevação substancial no crédito por parte dos bancos controlados pelo governo para estimular a demanda doméstica poderia apresentar problemas de qualidade de ativos para o sistema financeiro, especialmente em meio a um crescimento do PIB continuamente fraco".

O governo federal, no entanto, minimizou a notícia. Segundo o secretário de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda, Márcio Holland, mudanças na perspectiva da nota acontecem em função dos ciclos da economia. "Aconteceu até com os Estados Unidos", exemplificou. Segundo Holland, o Brasil tem tido um crescimento acima da média dos demais países do mundo no período pós-crise, incluindo os últimos três anos.

Segundo ele, entre 2007 e 2012, a taxa média de crescimento do Brasil foi de 3,7%, enquanto a dos outros países atingiu 3,3%. Em relação à política fiscal, o secretário disse que não houve mudança e que ela continua mesma. "A política fiscal continua como sempre. Não há mudança nem na política fiscal e nem na política econômica."

A possibilidade de rebaixamento de rating do Brasil também atingiu duas das principais empresas do País. As perspectivas de crédito da Petrobrás e da Eletrobrás também foram revistas pela agência para "negativa". No comunicado, a S&P destacou que a probabilidade de ajuda estatal para a Eletrobrás é "quase certa", e "muito alta", no caso da Petrobrás.

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