Dida Sampaio/Estadão
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Laura Karpuska
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Ser anticorrupção é tornar políticos e servidores responsáveis pelos próprios atos

Corrupção deve ser combatida, e isso deve acontecer em todas as camadas do governo e da sociedade, mas seria o discurso anticorrupção um projeto de governo?

Laura Karpuska*, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2021 | 04h00

A corrupção cria transferências indesejáveis de recursos de cidadãos para políticos e distorce alocações econômicas, o que nos leva à ineficiência. Ambientes corruptos criam distorções multidimensionais: empresas alteram seus processos decisórios, o governo reduz a quantidade e a qualidade da entrega de bens e serviços públicos e sua capacidade de servir como regulador de imperfeições de mercado fica comprometida. 

Principalmente no caso de países em desenvolvimento, a corrupção, com a baixa qualidade de serviços públicos, pode levar à falta de confiança e de legitimidade das instituições. A corrupção deve ser combatida, e isso deve acontecer em todas as camadas do governo e da sociedade. Mas seria o discurso anticorrupção um projeto de governo?

Depois do evento de filiação do ex-ministro da Justiça Sérgio Moro ao Podemos, esta pergunta surge naturalmente. Em um discurso anticorrupção e de presidenciável, Moro tentou destacar seu trabalho na Lava Jato de forma humanizada. Chega de “mensalão” e de “rachadinhas”. A análise textual do discurso, feita por Bruno Carazza, colunista do Valor, revela que a corrupção foi uma das palavras mais usadas pelo ex-ministro durante seu discurso. 

O evento não passou despercebido por outros colegas. O economista Claudio Ferraz escreveu para O Globo coluna em que destaca um debate comum na economia política: corrupção é sintoma, não a doença em si. O sociólogo Celso Rocha de Barros escreveu para a Folha que vê a campanha de Moro focando na falsa premissa de que o que precisamos no Brasil é um líder incorruptível. 

Concordo. A corrupção acontece porque existem distorções na distribuição de poder de um país que propiciam atividades ilícitas. Instituições accountable, inclusivas e transparentes são mais importantes do que o combate demagógico à corrupção. Mas esta é apenas parte do equilíbrio político.

Na última pesquisa do instituto Latinobarômetro, a corrupção apareceu como principal problema no Brasil, segundo brasileiros entrevistados. É um resultado curioso. Saúde, educação e segurança costumam ser as principais demandas dos brasileiros. 

Não são apenas os estrategistas políticos que não podem ignorar essa aparente novidade. Os intelectuais do ramo, também. Qualquer projeto de governo democrático precisa instigar o cidadão, angariar votos. Cabe aos debatedores públicos lembrar a todos que ser anticorrupção é tornar políticos e servidores responsáveis pelos próprios atos. Poderemos, assim, aprofundar o debate. 

* PROFESSORA DO INSPER, PH.D. EM ECONOMIA PELA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK EM STONY BROOK

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