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Será diferente! É pouco provável

A economia brasileira acompanhou a espetacular queda de atividade das economias mundiais no último trimestre de 2008. Entre o terceiro e o quarto trimestres de 2008, o PIB do Brasil caiu 3,6%, uma queda anualizada de mais de 13%. A título de comparação, o PIB dos EUA caiu 6,3% anualizados no mesmo período. A expectativa de muitos analistas era de que a recuperação seria forte já no primeiro trimestre de 2009, garantindo crescimento positivo para o ano. Mas os dados sobre o desempenho do primeiro trimestre não são nada animadores.A produção industrial cresceu 2,1% em janeiro, em relação a dezembro; 1,9% em fevereiro, em relação a janeiro; e 0,7% em março, em relação a fevereiro. Não apenas são taxas muito baixas, assim como mostram uma trajetória decrescente ao longo do trimestre.Como a produção industrial não mostra sinal de dinamismo, o grau de utilização da capacidade produtiva da indústria continua extremamente baixo, mostrando poucos sinais de melhora. Na verdade, em algumas estatísticas, como as da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), o grau de utilização da capacidade produtiva mostrou leve recuo em março. Não é por outra razão que existem sinais claros de que os investimentos estão em queda, tendo o setor produtor de bens de capital reduzido sua produção em março, em relação a fevereiro. Afinal, as empresas somente investem quando a utilização da capacidade já existente é alta e há expectativa de crescimento da demanda no futuro. Nenhuma dessas duas condições parece estar presente no momento na economia brasileira.Diante da anêmica recuperação da produção no início do ano e da forte queda no final do ano passado, o número de trabalhadores empregados continua a diminuir ou a aumentar muito lentamente. Como o custo para demitir e admitir trabalhadores é elevado (não apenas por causa da legislação trabalhista, mas também da perda de capital humano específico do trabalhador), esse processo ocorre ao longo de algum período e com alguma defasagem - e, no caso da crise atual, essa defasagem foi encolhida em razão da forte contração do crédito. Mas ele continua em andamento. Isso fica bastante claro na evolução do número de empregos formais criados no Brasil nos últimos meses e da taxa de desemprego.Pelos dados do Ministério do Trabalho, ao longo do primeiro trimestre foram destruídos aproximadamente 60 mil empregos formais na economia brasileira. Essa baixa geração de empregos formais é preocupante. Historicamente, existe uma forte correlação entre a geração de empregos formais, a de empregos informais e por conta própria e, portanto, a taxa de desemprego. E a se manter a trajetória atual, o sinal vindo do mercado de trabalho não é animador.Se compararmos os dados de geração de empregos formais com a evolução da taxa de desemprego desde 2002, podemos verificar que, para manter a taxa de desemprego próxima a 10% da força de trabalho, em média, ao longo do ano, é necessário gerar 1,3 milhão de empregos formais no ano. Até março foram destruídos quase 60 mil empregos formais e, no mês de dezembro, mesmo nos anos mais promissores, como 2007, são destruídos mais de 300 mil empregos formais na economia brasileira. Portanto, para gerar 1,3 milhão de empregos em 2009 será necessário que seja criado 1,66 milhão de empregos formais entre abril e novembro (1,3 milhão, mais 300 mil, mais 60 mil), ou seja, 207 mil empregos por mês. Um número comparável ao que ocorreu em 2007, quando a economia estava crescendo aceleradamente, com forte geração de empregos. Não vai ser uma tarefa fácil manter, ao longo de 2009, a taxa de desemprego neste nível, que é 2,5 pontos de porcentagem maior que a média de 2008.Um objetivo mais plausível é uma taxa de desemprego mais próxima de 12% da força de trabalho, o que significaria gerar 800 mil postos de trabalho formais ao longo do ano, ou 150 mil por mês.Maiores taxas de desemprego significam menores ganhos de salários. Se a taxa de desemprego se comportar como tem se comportado historicamente, e se nosso cenário mais provável se materializar (taxa média próxima a 11% ao ano), os salários nominais devem crescer entre 2% e 4% no ano, o que significa, na melhor das hipóteses, estabilidade dos salários reais. Redução do nível de emprego e salário real constante indicam redução da massa salarial real no ano, com efeitos sobre a demanda por bens de consumo no futuro.A combinação de baixos níveis de investimentos e redução do consumo e das exportações indica uma queda do PIB em 2009. As desonerações de impostos sobre alguns bens de consumo duráveis, como automóveis e produtos da linha branca, ajudam a manter a demanda no presente, mas podem diminuir a demanda futura. Por outro lado, a maior oferta de crédito tende a fazer com que a demanda aumente. Porém, o aumento do desemprego faz aumentar a inadimplência e o spread e diminuir a oferta de crédito. Diante desse cenário, nossa projeção é de queda do PIB brasileiro no primeiro trimestre de 2009, em relação ao quarto trimestre de 2008, de 2,5%, e queda de 1,5% em 2009.Não é um cenário muito otimista, mas parece o mais realista, se o comportamento passado da economia for um bom indicador de seu comportamento futuro. A menos que ocorra uma mudança não esperada no comportamento da economia. Pode ser diferente. Mas parece pouco provável. *José Márcio Camargo, professor do Departamento de Economia da PUC-Rio, é economista da Opus Gestão de Recursos

José Márcio Camargo*, O Estadao de S.Paulo

11 de maio de 2009 | 00h00

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