Fabian Bimmer/Reuters
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Será que o acordo repentino entre a UE e a China prejudicará as relações com Biden?

Realizado pela chanceler alemã Angela Merkel perto do fim de seu mandato, o acordo comercial pode complicar a negociação sobre uma política transatlântica eficaz em relação à China

Steven Erlanger, The New York Times

08 de janeiro de 2021 | 12h00

BRUXELAS - A União Europeia embarcou em negociação comercial com a China por acreditar que o comprometimento com Pequim era a melhor forma de alterar seu comportamento e torná-la uma parte interessada comprometida no sistema internacional. Mas isso foi há sete anos.

O acordo foi fechado discretamente nas últimas semanas do ano passado. Nessa altura, a China havia mudado e o mundo também. A relação transatlântica foi prejudicada pelo presidente Donald Trump, com novas dúvidas na Europa em relação à constância americana e nos EUA sobre as ambições da Europa.

O momento em que aconteceu - com uma China novamente agressiva vista como rival estratégica dos EUA e poucas semanas antes de Joe Biden se tornar presidente – levou a União Europeia a receber questionamentos e críticas, de analistas e, em particular, de funcionários dos EUA, de que talvez o acordo tenha sido um erro diplomático e político.

Foi concluído em meio a medidas severas da China em Hong Kong e Xinjiang e aceita vagas promessas chinesas de interromper o uso de trabalho forçado. Isso cria dúvidas a respeito da vontade da Europa de atender ao apelo de Biden para trabalhar com ele em uma estratégia conjunta quanto a Pequim. E proporcionou uma importante vitória à China, onde o acordo foi saudado como um grande sucesso para o presidente Xi Jinping antes do 100º aniversário do Partido Comunista Chinês e da confirmação de seu poder no novo mundo.

“Para o relacionamento transatlântico, é um tapa na cara”, disse Philippe Le Corre, um acadêmico da China afiliado à Escola Kennedy de Harvard e ao Carnegie Endowment - especialmente depois que os europeus em meados de novembro pediram ao governo Biden para trabalhar com a Europa numa abordagem conjunta em relação à China.

“Isso já prejudicou as relações transatlânticas”, disse Le Corre, antes mesmo de Biden assumir o cargo e quer seja ou não ratificado pelo Parlamento Europeu.

Autoridades europeias dizem que o timing não foi deliberado, mas veio repentinamente por causa de concessões de última hora autorizadas por Xi.

Mas não há dúvida de que o acordo há muito é uma prioridade para a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, em parte por causa da enorme aposta alemã no mercado chinês e em parte porque ela acreditava fortemente que o compromisso, e não o confronto, era a melhor política para um declínio do Ocidente em face a uma China em rápido crescimento.

Para Angela Merkel, foi o arremate de sua longa conversa com Pequim e concluiu uma agitada presidência alemã da União Europeia, com um sucesso inesperado pouco antes de os portugueses assumirem o poder em 1º de janeiro.

O acordo beneficiará principalmente as empresas alemãs, ao mesmo tempo que estabelecerá um marco para os interesses europeus, que não são idênticos aos americanos - ainda mais agora, depois do que todos esperam ser uma amargura e desconfiança duradouras geradas pelo mandato de Trump.

“Os últimos quatro anos de Trump deixaram uma mancha, principalmente na Alemanha e para Angela Merkel”, disse Le Corre. “Há uma grande decepção e algumas incógnitas a respeito de Biden, e os 74 milhões que votaram em Trump mostram que a situação nos EUA está longe de ser resolvida. Então os chineses disseram: 'Agarre-o se puder' no final de seu mandato. ”

Janka Oertel, diretora do programa para a Ásia no Conselho Europeu de Relações Exteriores em Berlim, disse que o acordo foi modesto, mas "menos importante do que o timing e a política". Quer seja ratificado ou não, “para a política e a ótica, o estrago já foi feito”.

Houve apenas críticas modestas na Alemanha, certamente em comparação com o acirrado debate em relação ao manejo do novo coronavírus e das vacinas, disse ela. Mas há questões persistentes sobre se a política de Angela Merkel na China de engajamento silencioso é mais válida ou deve ser o modelo para o futuro. A postura da Alemanha em relação à Huawei também foi mais branda do que a de muitos de seus vizinhos europeus.

A reação dividida na Alemanha "mostra que algo mudou em nossa percepção da China, que nossa avaliação de risco está muito mais sóbria e as esperanças sobre a transformação chinesa não são mais as mesmas de quando Angela Merkel começou", disse Daniela Schwarzer, diretora do Conselho Alemão de Relações Exteriores.

Ao mesmo tempo, disse ela, a pressão persistente da Alemanha por esse acordo, apesar das tensões com Washington e com outros europeus que se ressentiam da pressa, mostra uma espécie de realismo.

“Tudo isso mostra até que ponto a política externa deve levar em conta a forma como nossa economia é construída”, disse ela. A economia alemã baseada na exportação e sua necessidade de cadeias de suprimentos confiáveis "limitam o escopo das opções de política externa para a China".

Por lei, os nomeados por Biden não estão autorizados a negociar com colegas estrangeiros antes da posse. Mas Jake Sullivan, que será conselheiro de segurança nacional, alertou os europeus para não se apressarem, em uma mensagem publicada no Twitter em 22 de dezembro, dizendo que a nova equipe "acolheria consultas antecipadas com nossos parceiros europeus sobre nossas preocupações comuns quanto às práticas econômicas da China".

Esse aviso gentil foi ignorado. Mas no domingo, Sullivan foi conciliador em uma entrevista à CNN. Ele disse que o objetivo de Biden era uma discussão antecipada com os aliados europeus "por respeito mútuo" para elaborar uma agenda comum em relação às práticas comerciais chinesas.

“Nosso objetivo é nos encontrarmos imediatamente e conversar - não apenas sobre a questão da China, mas para resolver as diferenças econômicas que temos para que possamos encerrar a guerra comercial de múltiplas frentes”, disse ele.

Mas Thomas Wright, do Brookings Institution, disse que os danos foram causados por funcionários europeus que descrevem o acordo como parte de sua busca por "autonomia estratégica", uma política promovida pelo presidente Emmanuel Macron da França que irrita muitos legisladores dos EUA.

O paradoxo da eleição de Biden, disse François Heisbourg, analista de segurança francês, é que o debate europeu a respeito da autonomia estratégica “não gira mais em torno da loucura de Trump, mas em torno das incertezas de para onde os EUA estão indo e da certeza quanto à China . ”

Mas a forma como este acordo foi fechado, disse ele, "no silêncio do final de dezembro e com um mínimo de discussão, parece que foi feito às escondidas, de forma dissimulada, e isso não cheira bem."

O acordo vai alimentar aqueles na base de Biden que acreditam que os europeus têm interesses próprios e não podem ser parceiros verdadeiramente confiáveis, disse Wright.

“Alguns estão céticos de que a Europa e especialmente a Alemanha farão isso”, disse ele, “enquanto outros pensam:‘ Vamos apostar tudo neles e há uma boa chance de que eles façam’. Mas isso enviesa aquele argumento”.

Autoridades alemãs explicam que a Europa estava simplesmente fechando uma longa negociação quando a China finalmente tratou de questões antigas, disse Daniela.

"Isso é verdade. Mas também foi uma escolha fazer isso agora, antes de Biden começar a governar, e é intrigante por que isso foi visto como estrategicamente inteligente", disse ela." O ângulo transatlântico não foi honestamente debatido e, para as relações transatlânticas, isso ficará como um sabor amargo para Biden.”/ TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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