WERTHER SANTANA/ESTADÃO
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Será que o Brasil escolherá o rumo certo?

Dúvidas sobre as perspectivas de longo prazo do País começam a se acumular

Albert Fishlow, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2021 | 05h00

Faz tempo que o Brasil é um país central para o mundo. Mas dúvidas quanto às suas perspectivas de prazo mais longo começam a se acumular. Isso é visível interna e externamente, cultural e economicamente.


Quem teria imaginado, oito anos atrás, que em 2022, no bicentenário de sua independência em relação a Portugal, a renda per capita não seria o dobro da registrada em 2010, como previu Dilma na época, e sim estaria abaixo do patamar daquela época? Ou que o sistema democrático se veria ameaçado por perigos imediatos à continuidade? Ou que o problema da desigualdade de renda jamais apresentaria um avanço sustentável?

Será que o Brasil está simplesmente fadado a ser eternamente o país do futuro, sem jamais alcançar o status de utopia, como apontou Stefan Zweig tantos anos atrás? Os gregos formulam a questão de outra maneira, com o contínuo fracasso de Sísifo de conduzir a rocha até o alto da montanha. E temos, é claro, a maravilhosa adaptação brasileira de Orfeu e Eurídice.

A crise da pandemia já se estende por mais de um ano e, nesse período, agravou-se muito. A questão chegou a um ponto em que o Senado abrirá uma investigação especial da reação do governo à covid-19 em todos os níveis – federal, mas também estadual e municipal. Os brasileiros estão procurando responsáveis pelo fracasso em proteger a saúde e o bem-estar de tantos.

A Câmara finalmente respondeu – tão tardiamente a ponto de cometer virtual ilegalidade – apresentando um orçamento para o ano atual. Esse esforço produziu um resultado inaceitável. O orçamento contém emendas contemplando muitos dos deputados da base aliada do Centrão, extrapolando muito qualquer estimativa realista da provável receita do governo. Essas concessões foram feitas a deputados individuais para que gastem da maneira tradicional: aumentando suas chances de reeleição.

Parte do problema foi o fato de Paulo Guedes ter aceitado a legislação inicial. Agora ele busca revisar o orçamento por meio de vetos presidenciais. Mas os membros da Câmara não querem saber de conversa. 

Finalmente, a condenação de Lula, um dos principais resultados da investigação da Lava Jato comandada por Sergio Moro a partir de 2014, foi anulada pelo STF. Agora o caso pode retornar a instâncias inferiores no tribunal federal de Brasília. Além disso, o próprio Moro pode ser investigado por seus erros judiciais.

Isso trouxe três importantes consequências.

Primeiro, Lula tornou-se novamente elegível para a presidência. Ele se valeu disso viajando ao Nordeste, na tentativa de ampliar o apoio ao PT. Por outro lado, Bolsonaro se vê diante da probabilidade de uma vigorosa campanha contra ele. As primeiras pesquisas de intenção de voto mostram os dois candidatos quase empatados em um primeiro turno. O certo é que a campanha presidencial de 2022 já começou.

Segundo, é cada vez maior a pressão sobre outros potenciais candidatos centristas para que desenvolvam uma cooperação bem antes do primeiro turno das eleições, em outubro de 2022. O centro só precisa de um candidato para atrair uma ampla base de eleitores insatisfeitos. Se as opções forem muitas, voltamos à virtual certeza de um segundo turno como o de 2018.

Terceiro, a probabilidade de investigações da Lava Jato prosseguirem diminui ainda mais com uma vitória de Lula. Isso beneficiaria muitos congressistas atualmente envolvidos. É preciso garantir que o judiciário não perca todo o brilho. Bolsonaro tem parentes a defender, e uma forte crença na proliferação do uso de armas. Esses objetivos não podem enfraquecer o papel positivo do judiciário.

O Brasil ainda não saiu do jogo. Existe uma oportunidade de lidar com as atuais dificuldades econômicas de maneira inteligente. A pressão fiscal deve relaxar bastante em 2022, por causa da alta inflação atual. Se o crescimento internacional seguir o rumo esperado, existe uma chance de ampliar a renda com exportações. Esse benefício teria de ser investido, em vez de consumido.

Um melhor desempenho econômico não se traduz em uma vitória de Bolsonaro, ainda que ele acredite nisso. O Facebook vai melhorar sua capacidade de limitar as mentiras. O que o centro precisa urgentemente é de uma dinâmica política melhor. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 

ECONOMISTA E CIENTISTA POLÍTICO. PROFESSOR EMÉRITO NAS UNIVERSIDADES DE COLUMBIA E DA CALIFÓRNIA EM BERKELEY 

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