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Será um Deus nos acuda se bancos centrais no mundo errarem e a inflação aumentar mais

Mercado teme a possibilidade de dirigentes dos maiores bancos centrais estarem atrasados em combater a aceleração de preços na economia

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2021 | 04h00

A palavra mais repetida pelos principais banqueiros centrais do mundo nas últimas semanas é “transitório” – ou o seu sinônimo “temporário” – para descrever o forte repique da inflação em vários países, numa tentativa de tranquilizar os investidores de que a retirada dos estímulos monetários adotados durante a pandemia de covid não será feita de forma açodada.

Mas com os índices de preços ao consumidor e no atacado surpreendendo para cima há alguns meses, é cada vez maior o nervosismo do mercado sobre o quão temporário é esse processo de alta mais forte da inflação e se os dirigentes dos maiores bancos centrais não estariam atrasados em combater a aceleração de preços na economia.

Nos Estados Unidos, o índice de preços ao consumidor subiu 0,6% em maio ante abril, enquanto as previsões de analistas apontavam para alta de 0,4%. Com isso, a taxa anual da inflação americana ao consumidor saltou para 5,0% em maio, maior avanço desde agosto de 2008.

Já na zona do euro, a inflação subiu 2,0% em maio ante igual mês do ano passado, em comparação com o avanço anual de 1,6% em abril. E, na China, o índice de preços ao produtor registrou salto anual de 9,0% em maio, ante a previsão de analistas de alta de 8,6%.

Em meados do ano passado, diante da paralisação súbita da economia mundial para conter o avanço do coronavírus, os preços recuaram significativamente na maioria dos países. Agora, basicamente, está havendo uma volta sincronizada global da inflação. Muitos analistas acreditam até que o pico das altas nas taxas anualizadas dos índices de preços, registradas em vários países, aconteceu em maio ou, provavelmente, ocorrerá em junho.

Por enquanto, os analistas concordam com os argumentos das autoridades monetárias mundiais de que esse fenômeno é, de fato, temporário. O primeiro deles é que a disparada nos preços está ligada a restrições de oferta de muitos produtos, reflexo da redução dos estoques no ano passado em meio às incertezas sobre o impacto na atividade econômica da pandemia.

Acontece que as economias mundiais, no geral, registraram uma retomada bem mais rápida do que se esperava no auge da pandemia, reaquecendo a demanda de consumidores e de empresas. Além disso, na segunda onda de contaminação de covid em boa parte do mundo, os efeitos negativos sobre a atividade econômica foram bem menores do que em 2020. Todavia, os estoques de vários produtos não foram normalizados na mesma velocidade da retomada da demanda. Consumidores e fabricantes de produtos foram pegos no contrapé e tiveram de pagar mais caro.

Mas quando os preços sobem, como vem acontecendo, a oferta de produtos acaba por se ajustar e expandir, resolvendo a questão dos estoques. Isso reforça o argumento de um fenômeno temporário.

Outro ponto é que a aceleração da inflação global vem sendo causada pela disparada recente nos preços das commodities, como minério de ferro e soja. Isso aconteceu em razão da retomada mais forte das economias, impulsionando a demanda por matérias-primas, sem que a oferta delas tenha acompanhado no mesmo ritmo.

Ainda assim, a maioria dos analistas diz que esse repique inflacionário não está sendo causado por um excesso de demanda, mas por um choque na oferta. Ou seja, não seria o caso de os bancos centrais terem de subir os juros básicos imediatamente para conter um superaquecimento da demanda, em razão de um mercado de trabalho apertado e um aumento demasiado da renda.

As autoridades monetárias só precisariam reagir mais energicamente se o choque de oferta se disseminar por outros preços na economia. Mas os banqueiros centrais precisariam evitar que esse choque primário nos preços tenha efeitos secundários, propagando-se na economia. O papel das expectativas inflacionárias do mercado nessa propagação é crucial.

O risco é de os bancos centrais errarem na avaliação sobre quão temporário será o repique inflacionário e se o choque de oferta observado agora não terá se propagado para o resto da economia.

Nos países onde as expectativas inflacionárias estão ancoradas, como nos EUA, os bancos centrais estão mantendo o sangue-frio e sinalizando que vão retirar os estímulos com calma, preferindo gerar o máximo de empregos e crescimento, correndo o risco de uma inflação mais alta. Se esse diagnóstico se mostrar errado mais adiante, será um Deus nos acuda. 

*COLUNISTA DO BROADCAST

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