Serviço duplo

A inflação perto de zero deu uma trégua em julho e, provavelmente, correrá agora, mês a mês, abaixo do teto da meta, pelo menos até o fim do ano. Embora as projeções para as taxas mensais indiquem elevação gradual a cada mês, numa escalada que iria de algo como 0,3%, em agosto, até 0,6%, em dezembro, a variação acumulada em 12 meses, nesse passo, mostraria recuo, também gradual, até fechar 2013 próximo de 5,5%.

JOSÉ PAULO KUPFER, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2013 | 02h13

Haveria, caso esse cenário mais provável realmente se confirme, inflação ao gosto de todos. O governo poderia comemorar o recuo dos índices acumulados em 12 meses, mas seus críticos teriam munição para insistir na divergência em relação à política econômica, apontando crescentes variações mensais de preços.

O recuo em 12 meses se daria por uma razão meramente circunstancial: a base alta de comparação do segundo semestre de 2012. A trajetória da inflação, no segundo semestre de 2013, obedeceria, segundo as projeções, ao mesmo vetor de elevação gradual ocorrido no mesmo período do ano passado, mas em níveis mais baixos do que os verificados naquele ano. Assim, para cálculo do acumulado em 12 meses, um índice menor substituiria um maior, a cada mês, resultando em recuos, também graduais, na variação acumulada.

Contar com uma base de comparação favorável não resolve, evidentemente, desconfortos diante da dinâmica de alta de preços. As variações dos índices de inflação podem não superar tão cedo o teto da meta, mas é fato, praticamente inevitável, que se manterão altas, convergindo quando muito para algum valor pouco abaixo dos 5,84% do ano de 2012, como quer, sem dizer de modo explícito, o Banco Central.

Essa convicção se apoia nas repercussões previsíveis dos repasses aos preços das altas do dólar. A contaminação pode demorar um pouco, mas é considerada inevitável, numa base de meio ponto porcentual a mais no índice de preços a cada 10% de desvalorização cambial.

As desvalorizações do real decorrem da fuga de recursos para os Estados Unidos. Mas não só por isso. O voo dos gafanhotos financeiros para o mercado americano tem provocado impacto em todas as economias emergentes e seus mercados de câmbio. O Brasil, porém, é um dos mais atingidos porque, além disso, as quedas nas cotações internacionais de commodities e a falta de competitividade das exportações de manufaturas, que contribuem para a deterioração das contas externas, também concorrem para pressionar a taxa cambial.

Nas fases de pressão sobre o dólar, desde que o País adotou o sistema de câmbio flutuante, o BC luta para evitar a volatilidade excessiva e experimenta manter tetos informais flexíveis para as cotações. Seu instrumento para isso são os leilões de dólares no mercado futuro. Com esse objetivo, em julho, por exemplo, injetou cerca de US$ 30 bilhões para segurar a cotação da moeda americana na faixa de R$ 2,30.

As intervenções devem prosseguir porque a pressão sobre as cotações do dólar não dá mostras de arrefecer tão cedo. Um dos sinais dessa tendência pode ser localizado na taxa de juros dos títulos de 10 anos do Tesouro americano. A possibilidade de reversão das injeções de liquidez promovidas pelo Fed a partir da crise de 2008 elevou a taxa dos "treasuries" a quase 3%, mas ainda há espaço para a taxa galgar seu patamar histórico de 4%.

Batalhas cambiais, para conter elevações da inflação, pelo que se pode captar nos discursos cifrados de diretores do BC, devem recrudescer, nos próximos meses. Não custa lembrar que, para conter as cotações do dólar e aliviar seu peso na formação dos índices de inflação, além da oferta de dólares, o Banco Central tem à disposição a ferramenta da alta das taxas básicas de juros, que faz o serviço duplamente anti-inflacionário de atrair dólares e esfriar a economia.

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