Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Serviços crescem 1,8% em setembro, na quarta alta seguida, mas não retomam nível pré-pandemia

Resultado confirma a retomada mais lenta do setor do que a recuperação do varejo e da indústria, que já eliminaram as perdas com a crise causada pela covid-19

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2020 | 09h18
Atualizado 12 de novembro de 2020 | 12h40

RIO - A alta de 1,8% no volume de serviços prestados em setembro ante agosto, informada nesta quinta-feira, 12, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), confirmou a retomada do setor mais lenta do que a recuperação do varejo e da indústria, que já eliminaram as perdas com a crise da covid-19. Por causa do caráter eminentemente presencial das atividades, mesmo após quatro meses de avanços, o setor não recuperou o nível de fevereiro. A alta de 8,6% no terceiro trimestre ante o segundo ficou longe do tombo de 15,5% no segundo trimestre ante os três primeiros meses do ano.

Mesmo assim, como essa lentidão já era esperada, o dado do IBGE confirma a retomada da economia como um todo no terceiro trimestre, segundo economistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast. “Os serviços mostraram uma discreta desaceleração entre agosto e setembro, com redução do crescimento de 2,90% para 1,80%, mas ainda assim foram quatro meses seguidos de crescimento e um resultado acumulado positivo no trimestre”, afirmou o economista sênior do Banco ABC Brasil Daniel Xavier.

Com o desempenho dos serviços, o economista-chefe do ASA Investments, Gustavo Ribeiro, elevou a projeção de alta do Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre ante o segundo trimestre, de 8,5% para 8,7%. A economista Natalie Victal, da gestora Garde Asset, viu um “viés de alta” nas expectativas em relação ao desempenho da economia como um todo no terceiro trimestre. No auge da recessão causada pela covid-19, o PIB tombou 9,7% no segundo trimestre, na comparação com os três primeiros meses do ano.

A lentidão na retomada dos serviços faz parte das peculiaridades da crise causada pela pandemia. Com as restrições ao contato pessoal, atividades de caráter presencial - como os serviços de manicure e cabeleireiro prestados pelos salões e beleza, ou os segmentos associados ao lazer, como bares, restaurantes, cinemas e turismo - praticamente pararam no início da pandemia. A reabertura dos últimos meses ainda se dá com demanda tímida, seja por receio dos consumidores seja por restrições ainda impostas, como capacidade reduzida e limite ao horário de funcionamento dos restaurantes.

“O caráter presencial é um limitador”, afirmou o gerente da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) do IBGE, Rodrigo Lobo, citando os serviços de transportes de passageiros e os serviços prestados às famílias como os mais afetados por essa característica.

Os serviços prestados às famílias cresceram 49,9% entre junho e setembro, mas o avanço não basta para recuperar o tombo de 57,2% entre março e maio. Os serviços de transporte aéreo avançaram 159,5% de junho a setembro, também insuficiente para eliminar o tombo de março a maio.

Em setembro, a alta de 1,8% no volume de serviços prestados ante agosto foi verificada em quatro das cinco atividades investigadas na PMS. O destaque foram os serviços de informação e comunicação, com alta de 2%. Essa atividade engloba tanto os serviços de telecomunicações quanto de suporte e consultoria em tecnologia da informação. Segundo Lobo, o segundo segmento, com alta de 3,2% em setembro, é o responsável pelo bom desempenho. Alheios à pandemia, os serviços de tecnologia da informação estão com o nível de atividade 256,5% acima do registrado em fevereiro.

Se, no curto prazo, a recuperação parcial do setor de serviços, o maior da economia, contribui para a retomada da economia, no médio prazo, seu desempenho poderá segurar o ritmo do crescimento econômico. Lobo, do IBGE, lembrou que a renda adicional do auxílio emergencial pago pelo governo para os trabalhadores informais de baixa renda teve menos efeito sobre o desempenho do setor, já que foi mais direcionado para a compra de alimentos. Além disso, mesmo com a retirada de boa parte das medidas de restrição ao contato social, a retomada do setor poderá enfrentar dificuldades por causa do cenário de desemprego elevado e renda em queda em 2021.

"A massa salarial caiu fortemente, e a taxa de desemprego só não está mais elevada por conta do auxílio emergencial. Agora, o conjunto de auxílios vai rareando, e muitos dos incentivos que foram dados antes foram antecipação do 13º salário, o que pode fazer com que falte grana na mão no consumidor no final do ano”, afirmou o economista-chefe da Necton Investimentos, André Perfeito. / COLABORARAM CÍCERO COTRIM, THAÍS BARCELLOS E GREGORY PRUDENCIANO

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