Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Volume de serviços prestados sobe 1,7% em março ante fevereiro

Serviços acumulam alta de 13,6% em 12 meses, mostram dados do IBGE

Daniela Amorim e Guilherme Bianchini, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2022 | 09h12
Atualizado 12 de maio de 2022 | 12h42

RIO e SÃO PAULO - Passado o efeito do pico de infecções pela variante Ômicron do novo coronavírus, o setor de serviços encerrou o primeiro trimestre no azul. O volume de serviços prestados no País cresceu 1,7% em março ante fevereiro, melhor desempenho para este período do ano dentro da série histórica da Pesquisa Mensal de Serviços, iniciada em 2011 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O setor cresceu mais que o dobro do avanço mediano de 0,8% esperado por analistas do mercado financeiro ouvidos pelo Projeções Broadcast. O resultado do mês anterior foi revisto de uma queda de 0,2% para alta de 0,4%, o que significa que houve plena recuperação da perda de 1,8% registrada em janeiro, quando houve pico de infecções de covid-19.

“Os motivos por trás dessa expansão não são diferentes do que se imaginava, mas a intensidade foi mais forte. Notamos claramente a reabertura da economia, já que os serviços prestados às famílias foram os que mais sofreram com a pandemia e agora estão se recuperando”, afirmou o economista-chefe do Banco Alfa, Luís Otávio de Souza Leal. “E ainda tem mais por vir. Como todas as outras atividades já ultrapassaram o pré-pandemia, os serviços às famílias ainda têm um espaço para melhorar nos próximos trimestres.”

O volume de serviços prestados subiu 1,8% no primeiro trimestre de 2022 ante o quarto trimestre de 2021, na série com ajuste sazonal. O comércio varejista também mostrou expansão no período (1,9%), assim como a produção industrial (0,3%).

O Banco Alfa elevou suas projeções para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no primeiro trimestre, de 0,6% para 0,7%, e em 2022, de 0,9% para 1,0%. No Banco Original as previsões de crescimento de 0,5% no PIB do primeiro trimestre e de 1,0% em 2022 têm viés de alta, podendo alcançar até 1,0% e 1,5%, respectivamente, contou o economista do banco Eduardo Vilarim.

“Estávamos otimistas porque tínhamos expectativas muito fortes para os transportes terrestre e aéreo, tanto de passageiros quanto de cargas. Essa alta em cargas tem uma relação com a indústria extrativa, que também está forte”, disse Vilarim.

O transporte de passageiros cresceu 3,5% em março ante fevereiro, enquanto o de cargas avançou 1,8%, alcançando patamar recorde.

“Os transportes têm disseminação de crescimento entre modais e entre os tipos de uso”, observou Rodrigo Lobo, gerente da pesquisa do IBGE, para quem o setor de transportes como um todo tem sido beneficiado pela explosão do comércio eletrônico e pelo escoamento da produção do agronegócio.

Na passagem de fevereiro para março, o setor de serviços teve como destaques os desempenhos dos transportes (2,7%) e dos serviços de informação e comunicação (1,7%), mas as demais atividades investigadas também registraram expansão: serviços profissionais, administrativos e complementares (1,5%), serviços prestados às famílias (2,4%) e outros serviços (1,6%).

Os serviços já operam em patamar 7,2% superior ao de fevereiro de 2020, antes do agravamento da crise sanitária no País. Em março, os transportes funcionavam 18,0% acima do nível pré-pandemia de covid-19, enquanto os serviços prestados às famílias ainda estavam 12,0% abaixo. Os serviços de informação e comunicação estavam 10,5% acima do pré-pandemia; o segmento de outros serviços, 1,2%; e os serviços profissionais e administrativos, 5,2%.

“O consumo de serviços das famílias ainda não recupera o nível pré-pandemia, ainda que diminua a lacuna ante fevereiro de 2020”, frisou Rodrigo Lobo. “Esse bom momento no setor de serviços é atribuído ao setor de serviços prestados às empresas, não aos serviços prestados às famílias”, resumiu.

A inflação elevada está prejudicando uma recuperação mais contundente do volume de serviços prestados às famílias no País, tanto de forma direta quanto indireta, afirmou Lobo. Há impacto através do deflator aplicado sobre a receita bruta das empresas que prestam serviços às famílias, o que reduz o volume obtido, mas também através da perda de poder aquisitivo da população, o que obriga os consumidores a redirecionar gastos para itens essenciais, reduzindo o consumo de serviços supérfluos.

“Essa recuperação mais devagar dos serviços prestados às famílias à medida que reduz a lacuna em relação ao pré-pandemia se dá em função de algum tipo de pressão inflacionária”, disse Lobo. “Eventualmente a elevação de algum outro item que não pertence à atividade de serviços faz com que as famílias realoquem a sua cesta de consumo. Elas deixam de consumir em hotel e restaurante para direcionar essa renda para o consumo de atividades mais essenciais”, explicou o pesquisador, lembrando que houve, por exemplo, encarecimento dos combustíveis.

O gerente da pesquisa também ressaltou que ainda há um deslocamento do consumo presencial em restaurante para compras em supermercados e pedidos de comida em serviços de delivery.

“Pode ser que uma parcela da população não tenha ainda retornado ao trabalho presencial e continua remoto, então prefira consumir ainda em supermercados em vez de consumir em restaurantes, como estava acostumada antes”, mencionou. “Todos esses fatores operam como uma forma de limitador, que impede um avanço mais acelerado no consumo das famílias”, completou.

Segundo ele, os serviços prestados às famílias têm como alvo principal as famílias de renda média e alta. “As famílias de menor renda alocam seus recursos em itens mais essenciais. Por isso que variáveis como nível de emprego e de renda acabam não afetando de maneira tão contundente a atividade de serviços”, afirmou Lobo.

Na avaliação de Eduardo Vilarim, do Banco Original, a expansão em março tanto nos serviços quanto no varejo mostra que as famílias não estão fazendo uma troca de bens de consumo por serviços, ao contrário do que era esperado.

“Uma parte vem do Auxílio Brasil e outra vem da poupança que as famílias com mais renda fizeram durante a pandemia. E o segundo trimestre também pode ser positivo para os dois, devido ao saque do FGTS e à antecipação do 13º”, previu Vilarim.

Nos 12 meses encerrados em março, os serviços acumularam uma expansão recorde de 13,6%.

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