Alex Silva/Estadão - 24/4/2021
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Serviços recuam 0,6% em setembro após cinco meses de crescimento

Resultado ficou abaixo da expectativa; segmento que inclui restaurantes foi o único com taxa positiva no mês, segundo o IBGE

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2021 | 09h22
Atualizado 12 de novembro de 2021 | 13h05

RIO  - Assim como a indústria e o varejo, o setor de serviços também amargou perdas em setembro. O volume de serviços prestados no País encolheu 0,6% em relação a agosto, segundo os dados da Pesquisa Mensal de Serviços, divulgada nesta sexta-feira, 12, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O resultado surpreendeu até as estimativas mais pessimistas de analistas do mercado financeiro ouvidos pelo Projeções Broadcast, que previam um avanço mediano de 0,5%. A retração é reflexo da desaceleração da atividade econômica, o que acende sinal de alerta para os próximos resultados, avaliou o economista Lucas Rocca, da LCA Consultores.

“Quando olhamos para frente, vemos outros setores com desaceleração mais acentuada e piora do cenário como todo. Nós sabemos que os serviços estão muito relacionados ao cenário, então deixa pelo menos alguns pontos de interrogação de como vai performar”, apontou Rocca.

O fraco resultado do setor de serviços em setembro fez crescer a chance de o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central repetir uma dose de alta de 1,5 ponto porcentual na taxa básica de juros, a Selic, na reunião de dezembro, conforme sinalizado pela própria autoridade monetária, disse o estrategista-chefe do Banco Mizuho do Brasil, Luciano Rostagno. A inflação elevada e resiliente tinha aumentado as apostas de economistas em uma possível elevação de 2 pontos porcentuais.

"O dado de serviços reduz o apelo por uma nova aceleração da alta de juros, pois 150 p.b (pontos-base) já é um ritmo forte tendo em vista que a economia tem dado sinais de fraqueza", justificou Rostagno.

Na passagem de agosto para setembro, houve quedas em quatro das cinco atividades de serviços pesquisadas pelo IBGE: transportes (-1,9%), outros serviços (-4,7%), informação e comunicação (-0,9%) e serviços profissionais, administrativos e complementares (-1,1%).

O único crescimento ocorreu nos serviços prestados às famílias (1,3%). Num cenário de avanço da imunização da população contra a covid-19 e de aumento na mobilidade das pessoas entre as cidades brasileiras, as famílias de classe média e alta permanecem priorizando o consumo de serviços em detrimento da aquisição de bens no comércio, especialmente nos últimos seis meses, afirmou Rodrigo Lobo, gerente da pesquisa do IBGE. Os serviços prestados às famílias tiveram uma expansão pelo sexto mês seguido, período em que acumularam um crescimento de 52,5%.

“Esse movimento acontece mais entre famílias de renda média e alta. As famílias mais pobres destinam mais renda para consumo de itens essenciais”, frisou Lobo.

Apesar da melhora nos últimos meses, os serviços prestados às famílias ainda operam em patamar 16,2% inferior ao de fevereiro de 2020, no pré-pandemia. “Nos serviços prestados às famílias, há uma ociosidade importante ainda”, disse o pesquisador.

Por ora, ainda não há impacto perceptível da inflação sobre o desempenho da prestação de serviços no País, com exceção do transporte aéreo de passageiros, que sofreu com o aumento nas passagens aéreas em setembro, garantiu Rodrigo Lobo.

“A pressão de inflação que a gente observa sobre os consumidores, ela não se reflete de maneira mais incisiva sobre os serviços aqui investigados”, explicou. “Não dá para confundir o efeito preço sobre a renda das famílias, que é obvio, é dado, com o efeito preço sobre os serviços prestados. Não estou dizendo que a escalada de preços não tenha impacto sobre a renda das famílias, ela não tem impacto sobre a pesquisa de serviços como um todo. A inflação de serviços está mais moderada. O efeito preço sobre a Pesquisa Mensal de Serviços se dá de forma que não rebate tanto no volume (de serviços prestados) quanto rebate no comércio.”

O pesquisador do IBGE lembra que, embora o setor de serviços venha mostrando recuperação desde junho do ano passado, os últimos meses trouxeram perda de força no ritmo de crescimento. Segundo ele, alguns segmentos mostram “cansaço” no processo de recuperação, mas a base de comparação elevada também influencia nessa perda de força nos serviços.

“O processo de recuperação tem se dado nesses serviços de caráter presencial de forma mais paulatina, gradual, operando ainda abaixo do patamar de fevereiro de 2020. A recuperação do setor de serviços tem sido sustentada por serviços prestados a empresas, onde o aspecto da inflação não tem tanta relevância. A gente percebe uma escalada de receita onde preços não têm influência”, afirmou.

Para ele, é natural que a vacinação e a reabertura de estabelecimentos deixem as pessoas mais confiantes para o consumo de serviços presenciais. No entanto, o desemprego ainda elevado, a dificuldade de avanço na renda e a inflação podem limitar o crescimento futuro dos serviços prestados às famílias, alertou o pesquisador.

“(As famílias) Podem encontrar cenários em que nem haja consumo de bens nem de serviços. As pessoas pode ter que organizar o orçamento para gastar em itens prioritários. O consumo de serviços é menos prioritário que consumo de bens essenciais”, lembrou. / COLABORARAM LUCIANA XAVIER E MARIANNA GUALATER

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