Tiago Queiroz/Estadão - 6/7/2020
Serviços ligados as atividades presenciais, que mais sentiram o impacto das medidas isolamento, puxaram resultado negativo em 2020. Tiago Queiroz/Estadão - 6/7/2020

Serviços têm queda de 7,8% em 2020, no pior resultado desde 2012

Apesar de ter avançado 18,9% em seis meses de alta, o volume de serviços prestados ainda está 3,8% abaixo do patamar pré-pandemia; resultado confirma que o setor foi o mais afetado pela covid-19

Vinicius Neder, Gregory Prudenciano e Eduardo Laguna, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2021 | 09h22
Atualizado 11 de fevereiro de 2021 | 20h52

RIO e SÃO PAULO - A queda de 0,2% no volume de serviços prestados em dezembro ante novembro de 2020 quebrou uma sequência de seis meses de retomada, após o pior momento da crise causada pela covid-19, informou nesta quinta-feira, 11, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado veio dentro do esperado por economistas, confirmando que o setor de serviços, dado seu caráter eminentemente presencial, foi o mais afetado pela pandemia. Em 2020, o setor teve um tombo de 7,8% ante 2019, o pior resultado anual da série histórica do IBGE, iniciada em 2012.

Além disso, os seis meses de alta não foram suficientes para recuperar tudo que o setor de serviços perdeu entre março e maio, auge da pandemia. Diferentemente do que ocorreu com a indústria e o comércio varejista, o nível da atividade de serviços ainda estava em dezembro 3,8% abaixo do patamar registrado em fevereiro de 2020, antes da covid-19 se abater sobre a economia.

Segundo Rodrigo Lobo, gerente da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) do IBGE, por causa do caráter presencial da maioria dos serviços, não dá para dissociar a plena recuperação do setor de uma solução para a crise sanitária causada pela pandemia. Apenas a vacinação em massa da população daria a segurança para o pleno funcionamento dos serviços.

“Para além de qualquer medida que governo ou empresas possam adotar, nada vai ser mais importante do que a vacinação em massa da população, para que as pessoas percam o receio de viajar e caiam restrições ao funcionamento dos serviços presenciais”, afirmou Lobo.

Por isso, o recrudescimento da pandemia no fim de 2020, com aumento do número de casos e mortes por covid-19, poderá ser mais um “limitador” da retomada do setor, disse o pesquisador. Segundo Lobo, ainda não é possível relacionar o recuo de 0,2% no volume de serviços prestados em dezembro ante novembro com esse recrudescimento. Será preciso observar os dados de janeiro e fevereiro para verificar esse efeito.

As atividades de serviços mais dependentes do contato pessoal são as que estão mais longe de recuperar tudo o que perderam no auge da pandemia e também as que registraram os piores desempenhos em 2020. Os serviços prestados às famílias - incluem restaurantes, hotéis, salões de beleza, lazer etc. - fecharam o ano passado com tombo de 35,6%, o maior da história. Com a queda de 3,6% em dezembro ante novembro, ainda estão 28,2% abaixo do nível de atividade de fevereiro de 2020, antes da pandemia.

Outra atividade que sofreu em 2020 foram os transportes, com destaque para o transporte de passageiros - também atingidos diretamente pelas restrições aos contatos sociais. Os serviços de transporte, como um todo, encolheram 7,7% em 2020. O transporte aéreo tombou 36,9% ante 2019. Em dezembro ante novembro, houve uma queda de 0,7% e o nível dessa atividade ainda está 6,8% abaixo do que estava antes da covid-19.

“A queda de serviços já era esperada. Os números da pandemia estavam aumentando em dezembro, o que alimentou a discussão sobre maiores restrições à circulação, lockdown, afetando um setor que depende muito da circulação e da presença das pessoas no consumo”, afirmou o economista-chefe da agência de classificação de risco Austin Rating, Alex Agostini.

Como em torno de 70% do Produto Interno Bruto (PIB) são gerados pelo setor de serviços, as dificuldades com a retomada dessas atividades mostra como a pandemia ainda afeta a recuperação plena da economia. Segundo economistas, o ritmo lento dos serviços acaba prevalecendo sobre a rápida recuperação, entre maio e outubro, ainda em meio à pandemia, da indústria e do varejo. Ao lado do baque nas vendas do varejo em dezembro, confirma a desaceleração da economia como um todo na virada de 2020 para 2021. 

“Os dados relativos a dezembro mostraram que todo mundo desacelerou já no fim do ano. O PIB do primeiro trimestre certamente vai ter contração pelo fim do auxílio emergencial, pelo cenário fiscal contracionista e pela pandemia impondo novas restrições”, disse o economista-chefe da corretora Nova Futura, Pedro Paulo Silveira.

Nas contas de Agostini, da Austin Rating, o desempenho do setor de serviços em 2020 condiz com um recuo de 4,2% no PIB do ano passado. Na LCA Consultores, o movimento de desaceleração da economia no fim de 2020, sob impacto do recrudescimento da pandemia e do fim dos auxílios, deverá levar a revisões para baixo nas projeções de crescimento para 2021, disse Lucas Rocca, economista da consultoria.

“A dinâmica para o setor de serviços que observamos desde a segunda metade do ano passado permanece a mesma, com heterogeneidade da recuperação dentro do segmento e uma figura geral de forte queda no ano. Serviços agora se consolida como setor mais afetado pela pandemia”, afirmou Rocca.

A heterogeneidade na recuperação das diferentes atividades investigadas pela PMS do IBGE é uma das marcas da desorganização que a pandemia levou à economia. Apesar da crise, algumas atividades saíram ganhando.

Os serviços de informação e comunicação fecharam 2020 com recuo de apenas 1,6% ante 2019. Integrante dessa atividade, os serviços de tecnologia da informação fecharam na contramão, com alta de 8,3% ano passado. Com a demanda impulsionada pelo aumento do trabalho remoto e com as pessoas ficando mais em casa em meio à pandemia, os serviços de TI não só se recuperaram da queda verifica em março e abril como atingiram o nível mais alto de atividade da história.

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Atividades turísticas caem 36,7% em 2020, aponta IBGE; CNC estima perdas de R$ 274 bi em 11 meses

Sob efeito da pandemia, o turismo fechou 397,1 mil postos formais de emprego no passado e ainda está 30% abaixo do nível pré-covid

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2021 | 14h28

RIO - A pandemia de covid-19 fez as atividades turísticas perderem 36,7% em volume de serviços prestados em 2020 ante 2019, informou nesta quinta-feira, 11, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ao divulgar a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS). Com isso, o setor do turismo deixou de faturar R$ 261 bilhões em 2020, conforme cálculos da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Incluindo janeiro na conta, as perdas somam R$ 274 bilhões em 11 meses.

Os cálculos da CNC têm como base as informações do IBGE e dados sobre o fluxo de passageiros e aeronaves nos 16 principais aeroportos do País. Como consequência da crise, o setor do turismo fechou 397,1 mil postos formais de emprego ano passado, ainda segundo o estudo da CNC.

Em dezembro ante novembro de 2020, o índice de atividades turísticas, calculado pelo IBGE, apontou estabilidade, com variação nula. A estabilidade veio após sete meses seguidos de altas, período em que o índice de atividades turísticas acumulou ganho de 120,8%. Só que isso foi insuficiente para apagar as fortes perdas no auge da pandemia. As atividades turísticas ainda estão 30% abaixo do nível de atividade de fevereiro de 2020, antes da covid-19.

Segundo Rodrigo Lobo, gerente da PMS, os serviços de alimentação, como restaurantes, de hotelaria e de transporte de passageiros foram os mais afetados no setor do turismo. Em 2020, os 12 Estados investigados na PMS registraram queda no índice de atividades turísticas, com destaque para São Paulo (-40,0%) e Rio (-30,9%).

O estudo da CNC também aponta São Paulo e Rio como os mais prejudicados em termos de faturamento perdido. No acumulado até janeiro deste ano, a maior parte das perdas ficou com os Estados de São Paulo (R$ 99,18 bilhões) e Rio (R$ 42,04 bilhões).

No caso dos impactos no mercado de trabalho, as contas da CNC foram feitas com base no Caged, o cadastro de demissões e admissões de empregados formais do Ministério da Economia. As atividades que mais fecharam vagas foram bares e restaurantes (-211,1 mil), transporte rodoviário (-90,7 mil) e hotéis e similares (-56,5 mil).

“O turismo tem sido o conjunto de atividades econômicas mais atingido pela pandemia. Ao contrário do comércio e da indústria que já acusam níveis de atividade já acima daquele observado antes no início de 2020, o setor amarga perda de quase 30% em relação à geração média do volume de receitas do primeiro bimestre do ano passado”, diz o relatório do estudo da CNC, elaborado pelo economista Fábio Bentes.

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Análise: Com estagnação do setor de serviços, dezembro de 2020 alerta para 2021

Nenhuma medida será mais importante neste momento do que concentrar esforços na obtenção do maior número possível de doses de vacina contra o novo coronavírus

Fábio Bentes*, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2021 | 15h37

Os indicadores conjunturais mais recentes acenderam a “luz amarela” no setor produtivo. Depois do tombo nas vendas do varejo no último mês do ano passado - foi o pior mês de dezembro dos últimos 20 anos - as demais pesquisas divulgadas pelo IBGE atestaram a tendência de desaceleração econômica na virada de 2020 para 2021.

Na indústria, houve crescimento (0,9% em relação a novembro), menor taxa desde que o setor deixou o “fundo do poço” em abril. O setor de serviços - maior empregador da economia - acusou queda de 0,2% no último mês do ano. Assim como a indústria, o setor vinha crescendo desde maio. O setor de turismo, por sua vez, segue seu calvário ainda sem perspectiva de retomada do nível de atividade pré-pandemia. Em dezembro, o volume de receitas desse setor ainda estava 30% abaixo da média do primeiro bimestre do ano passado. 

No caso das atividades de serviços (turismo incluído), a recuperação deve ser muito mais árdua. Com o real desvalorizado e algumas regiões do planeta vislumbrando a saída da crise antes do Brasil, pelo menos parte da indústria brasileira poderá recuperar o terreno perdido para a crise global no médio prazo via exportações. No comércio, o consumo online - que cresceu 50% na segunda metade de 2020 - segue como uma alternativa ao comportamento ainda anormal das vendas presenciais.

Os serviços, além de não contarem com essa opção, ainda sofrem com a impossibilidade de alocar o consumo de forma intertemporal. Os consumidores que adiaram a compra do automóvel ou do eletrodoméstico, por conta do aumento da incerteza, poderão fazer esse movimento no momento em que a confiança na recuperação de sua capacidade de geração de renda e a segurança no emprego permitirem. Nos serviços, esse “efeito compensação” é difícil de acontecer.

A safra de indicadores do final do ano passado sugere um início de 2021 difícil no lado real da economia. Além da crise sanitária, temos outros problemas para lidar, como a inflação acima do centro da meta, desemprego em alta, investimentos represados, etc. Claramente, a sequência de indicadores mensais positivos registrados no ano passado deriva muito mais da base comparativa deprimida do que da capacidade de recuperação autônoma da economia brasileira. As medidas que foram adotadas ao longo de 2020 deverão ser retomadas para que, ainda que de forma paliativa, a economia sofra menos.

Nenhuma medida será mais importante neste momento do que concentrar esforços na obtenção do maior número possível de doses de vacina contra o novo coronavírus. Do ponto de vista sanitário, ela irá prevenir a incidência da doença na maioria da população e, do ponto vista econômico, irá nos curar do grave quadro atual.

*Economista da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) 

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