Sete bancos europeus terão de receber capital

Simulação feita para avaliar capacidade de instituições de resistir a novas crises indicou a necessidade de um capital extra de 4 bilhões

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2010 | 00h00

Sete instituições bancárias da Alemanha, Espanha e Grécia foram reprovadas ontem pelo maior teste de estresse do sistema financeiro (simulação de cenários adversos para testar a saúde dos bancos) já realizado pela União Europeia.

O resultado fica dentro dos prognósticos esperados pela maior parte dos analistas, que estimava em cerca de 10% o número de fracassos, pouco acima dos 7,6% registrados pelas autoridades de Bruxelas. Muitos especialistas levantaram dúvidas, porém, sobre o rigor dos testes.

A prova de resistência, aplicada pelo Comitê Europeu dos Controladores Bancários (CEBS), envolveu 91 bancos que representam 65% do mercado do bloco e indica que recapitalizações da ordem de ? 4 bilhões podem vir a ser necessárias.

Bancos dos 16 países da zona euro, além do Reino Unido, da Polônia, da Hungria, da Suécia e da Dinamarca, participaram da avaliação, que teria seguido os critérios das provas realizadas em 2009 nos Estados Unidos, de acordo com o comitê. O resultado do teste foi conhecido às 18 horas em Bruxelas - 13 horas em Brasília -, logo após o fechamento dos mercados financeiros da Europa.

Sem surpresas maiores, a avaliação apontou o banco alemão Hypo Real Estate (HRE), cinco caixas econômicas da Espanha - Cívica, Cajasur, Unnim e Espiga y Diada - e o banco ATEbank, da Grécia, como os mais frágeis do bloco. Essas instituições não foram consideradas aptas a manter uma relação de pelo menos 6% entre o capital e o total de suas ações - o chamado critério Tier 1- em 2011, na eventualidade de crise sistêmica. Na prática, os sete bancos poderão se ver obrigados a realizar recapizalizações no mercado ou a recorrer a injeções de recursos públicos para reforçar os fundos próprios.

Prognósticos preliminares sobre o estado das finanças das sete empresas indicam que elas precisariam reforçar seus caixas entre ? 3,5 bilhões e ? 4 bilhões.

O HRE passou por nacionalização parcial em 2009, em razão de seu envolvimento com ativos tóxicos. A direção do banco alemão já informou que necessita de ? 2 bilhões para reforçar suas contas, além dos ? 7,85 bilhões em fundos e de ? 105,6 bilhões em garantias que já recebeu do governo de Angela Merkel. As instituições espanholas estão em processo de reestruturação e fusões, e precisarão de ? 1,83 bilhão, segundo dados do Banco Central da Espanha. Já o ATEbank, de Atenas, estaria programando sua recapitalização, estimada em ? 250 milhões.

Otimismo. A boa notícia trazida pelo teste é que todos os grandes bancos do continente passaram sem sobressaltos. HSBC, Santander, BNP Paribas, Crédit Agricole, ING, Société Générale e Royal Bank of Scotland não foram ameaçados nem nos cenários mais rigorosos, como o elaborado pelo banco JP Morgan.

Também sem surpresas, as autoridades da União Europeia saudaram as constatações. "Os resultados dos testes confirmam a resiliência do conjunto do sistema bancário da UE aos choques macroeconômicos e financeiros negativos, e são um passo à frente importante para a restauração da confiança dos mercados", afirmou a CEBS, em comunicado.

À espera dos resultados, o mercado de câmbio não sofreu oscilações durante a tarde, com o euro avaliado em US$ 1,28. As principais bolsas de valores da Europa fecharam próximo da estabilidade. Em Londres, o índice FTSE 100 fechou em 0,02%, enquanto em Paris e Frankfurt o CAC 40 e o DAX registraram ligeiras altas: 0,18% e 0,39%. No apanhado da semana, marcado pela expectativa em relação às provas, o balanço foi positivo. Entre a segunda-feira e ontem, a Bolsa de Paris subiu 3,05%.

Resta em aberto qual será a avaliação do mercado financeiro na segunda-feira, quando ocorrerá o primeiro pregão após os testes. Horas antes da revelação dos dados, parte dos analistas, como Pierre-Antoine Dusoulier, presidente do Saxo Banque France, se mostrava cética em relação ao rigor da prova.

"As informações que circulam nos bancos levam a pensar que o teste de estresse privilegia o marketing de um resultado satisfatório em relação a uma real e sólida verificação técnica."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.