Sete das dez profissões que mais destruíram vagas são da construção

Estudo mostra que crise do desemprego não deu trégua para o setor e nem poupou as pessoas mais qualificadas, como engenheiros civis, além de tirar o fôlego das profissões ligadas à agropecuária e indústria têxtil que haviam esboçado uma reação

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2018 | 21h24

Profissões ligadas à agropecuária e indústria têxtil foram as que tiveram maior perda de fôlego nos 12 meses encerrados em junho de 2018, após terem esboçado reação nos 12 meses imediatamente anteriores, terminados em junho de 2017. Já entre as dez profissões que mais destruíram postos de trabalho em 2017 e permanecem cavando o fundo poço em 2018, sete estão relacionadas à construção civil.

Os dados são de um levantamento exclusivo, com base nas informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho, pedido pelo Estadão/Broadcast à Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

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Entre os dez piores desempenhos, a profissão que proporcionalmente fechou mais vagas dentro da construção nos 12 meses encerrados em junho foi a de supervisores de construção civil, com demissão de 8.566 trabalhadores e queda de 8,7% no pessoal ocupado com carteira nessa posição, após já ter dispensado 17.282 pessoas nos 12 meses anteriores. O total de trabalhadores formais atuando com montagem de estruturas de madeira, metal e compósitos em obras civis encolheu 5,2% nos 12 meses terminados em junho, 5.996 vagas a menos. A terceira maior queda no pessoal ocupado, de 4,9%, ocorreu na profissão de trabalhadores de estruturas de alvenaria, com 17.496 dispensados nos últimos 12 meses.

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“A construção civil continua apanhando da baixa taxa de investimento, da falta de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Um dos destaque foi a queda nas vagas para engenheiros civis. Ou seja, mesmo os trabalhadores mais qualificados não estão encontrando oportunidade de trabalho”, ressaltou Fabio Bentes, chefe da Divisão Econômica da CNC e responsável pelo estudo.

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Engenheiros. Foram eliminadas 2.110 vagas formais de engenheiros civis no País nos 12 meses encerrados em junho, uma queda de 3,2% no total ocupado nessa profissão em relação aos 12 meses anteriores, terminados em junho de 2017, quando outras 6.189 vagas já tinham sido extintas. Em dois anos, mais de oito mil engenheiros civis perderam o emprego com carteira assinada.

“A construção é de fato o destaque negativo na extinção de vagas. Começamos a ter alguns sinais incipientes de melhora no mercado de trabalho ao final do ano passado, mas as revisões para baixo na expectativa de geração de vagas passa pela decepção com a construção civil. O setor ainda tem dificuldades, tem fragilidades. É difícil prever alguma reação em termos de emprego nesse setor”, avaliou Thiago Xavier, analista da Tendências Consultoria Integrada, que reviu a previsão de geração de vagas do Caged para este ano, de uma expectativa inicial de 600 mil novos postos para 350 mil vagas geradas.

Na semana passada, o Ministério do Trabalho divulgou dados do Caged para o mês de junho que mostraram que o saldo entre geração e fechamento de vagas ficou negativo pela primeira vez no ano, após cinco altas consecutivas. Foram 661 postos de trabalho destruídos.

Trabalhador da construção civil há 25 dos seus 51 anos de vida, Alexino dos Reis Soares confirma a dificuldade de encontrar um trabalho com carteira assinada na área. Tanto ele quanto o filho atuam na informalidade. Quando raramente abre uma vaga, os salários costumam ser tão baixos que afugentam candidatos, testemunha o trabalhador.

“Até tentei uma vaga para trabalhar num condomínio, porque a jornada era boa, dava para sair cedo, mas o salário era muito baixo. Tem muita gente que eu conheço em obra que prefere trabalhar por conta própria por causa disso, porque pagam muito mal”, contou Soares.

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Crise aborta esboço de reação no emprego

Agropecuária e indústria têxtil chegaram até a ensaiar retomada de vagas em 2017

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2018 | 21h37

RIO- Um levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) revela que quatro das 10 profissões que esboçavam maior reação na carteira assinada e tiveram abortado seu processo recuperação estão relacionadas à agropecuária. Outras três estão na indústria têxtil. 

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Nos 12 meses encerrados em junho, 9 mil trabalhadores agrícolas na fruticultura perderam o emprego com carteira assinada. Esse contingente representa uma retração de quase 10% no número trabalhadores ocupados, movimento que acontece após uma geração de 35.569 vagas ao longo dos 12 meses terminados em junho do ano anterior, quando o total de pessoas atuando nessa área teve um salto de 64,6%, de acordo com dados compilados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho. 

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“Vemos que setores que ainda não haviam se recuperado da recessão se depararam com uma conjuntura cada vez menos favorável neste ano, marcado pelo baixo nível de investimentos da economia e por níveis de confiança cada vez mais baixos. Por outro lado, alguns setores que tiveram um 2017 “espetacular” em decorrência da supersafra e do avanço das exportações no ano passado se depararam com um cenário externo menos favorável e com uma capacidade de ampliação da demanda por trabalho um pouco mais limitada, pela dificuldade do País em repetir, pelo menos na agropecuária, o bom desempenho de 2017", justificou Fabio Bentes, chefe da Divisão Econômica da CNC e responsável pelo estudo.

A pesquisa mostra ainda que a segunda maior queda em carteira assinada ocorreu entre os trabalhadores agrícolas no segmento de gramíneas, atividade que inclui o cultivo de produtos importantes como trigo, milho e arroz. 

Foram 9,8 mil vagas a menos no período, o que corresponde a uma retração de 7% no número de ocupados, após um incremento de mais de 13 mil vagas nos 12 meses terminados em junho do ano passado. 

Na terceira posição, a profissão de operadores de máquinas para costura de peças de vestuário foi a que perdeu proporcionalmente mais trabalhadores. O segmento amargou uma queda de 3,1%, 8.743 pessoas a menos, após a abertura de pouco mais de quatro mil vagas nos 12 meses anteriores.

Buraco profundo. A crise do desemprego não para de apresentar resultados negativos. O Caged mostrou em junho o primeiro resultado negativo do ano, um fechamento de 661 vagas considerando todas as profissões. 

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), apurada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que a carteira assinada atingiu em maio o patamar mais baixo da série histórica iniciada em 2012, com apenas 32,8 milhões de trabalhadores formais no setor privado, quase meio milhão a menos que um ano antes.

Entretanto, pelo menos na construção civil a sangria pode estar perto do fim, segundo Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos no Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), responsável pela Sondagem da Construção. 

“Ainda tem entre os empresários (da construção) uma intenção maior de demitir do que de contratar, mas hoje esses porcentuais estão quase iguais”, lembrou Ana Maria. “Em outubro de 2015, a diferença chegou a quase 42 pontos. Havia quase 50% dos empresários dizendo que iam demitir, contra 8% dizendo que iam contratar. Hoje tem 18% dizendo que vão contratar, contra 24,5% dizendo que vão demitir”, completou a pesquisadora.

Vida no campo. Trabalhar na roça, como se diz no campo, já foi um grande negócio para muita gente. Hoje, porém, quem sofreu com o desemprego e teve de deixar a zona rural pensa bem diferente. “Lá na fazenda a gente via aqueles pés de cafés grandes, bonitos, e achava que teria trabalho para sempre”, conta Adailson Régis de Souza, que vinha vivendo da agricultura até se mudar para a cidade no início deste ano. 

Seu último emprego foi na colheita de café em uma propriedade na região de Ribeirão Corrente (SP), onde a mecanização colaborou para a redução de vagas. “Mudou tudo e a máquina ajudou nisso”, diz Souza se referindo a equipamentos que chegam a fazer o trabalho de cem homens na lavoura.

Quem também foi vítima da redução de vagas é Arnaldo Andrade. Ele trabalhava como tratorista na Fazenda São João, na entrada de Franca (SP), e que por estar em área de expansão urbana teve boa parte de sua plantação de café derrubada para dar lugar a loteamentos de casas. 

Mineiro, resolveu ficar na cidade paulista, mas hoje trabalha como motorista em uma empresa de blocos de concreto. “A vida no campo é boa e, para quem gosta do trabalho, melhor ainda. Mas ficou muito difícil”, lamenta. 

A perda de vagas não é exclusividade de São Paulo e também é sentida em outros Estados. Já quem demite culpa o custo com produção, transporte, armazenamento e pessoal. Este último item foi o motivo que levou um agricultor do sul da Bahia a derrubar 450 mil pés de café e demitir 600 funcionários em dezembro passado. Wanderlino Bastos alegou na época que “sofria muita pressão” por causa de encargos, burocracia e exigências da Justiça do Trabalho no que se refere aos direitos dos empregados. 

Levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, através do projeto Campo Futuro, aponta que em 2017 os agricultores tiveram receita suficiente apenas para cobrir as despesas rotineiras da atividade. /COLABOROU RENE MOREIRA, ESPECIAL PARA O ESTADO

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