Arquivo pessoal/Divulgação
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Sete em cada dez pequenas indústrias paulistas preveem demissões

Segundo sindicato do setor, em abril, 20% das empresas já haviam dispensado no mês anterior, como resultado do aumento nos custos de produção e da queda nas vendas com a piora da pandemia

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2021 | 15h13

RIO - Sete em cada dez pequenas indústrias paulistas preveem demitir funcionários nos próximos meses, segundo levantamento do Sindicato das Micro e Pequenas Indústrias do Estado de São Paulo (Simpi). Em abril, 20% das empresas relataram já terem dispensado trabalhadores no mês anterior, de acordo com o Indicador de Atividade da Micro e Pequena Indústria, encomendado pelo Simpi ao Datafolha.

A pequena indústria vem demitindo mais do que contratando desde o início da crise sanitária, mostra o índice de contratações, que, numa escala de 0 a 200, recuou de 95 pontos em março para 90 pontos em abril. Resultados abaixo de 100 pontos significam redução no pessoal ocupado.

“De um modo geral, são empresas com mais dificuldade de acesso a financiamentos e ao comércio internacional”, apontou Rafael Cagnin, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). “Elas são mais dependentes de uma recuperação do mercado doméstico e são mais vulneráveis à evolução da pandemia, seja pelo lado das restrições (para conter a disseminação da covid) seja pelo lado do acesso às medidas de socorro.”

O índice de satisfação das micro e pequenas indústrias do Estado de São Paulo desceu a 83 pontos em abril, na zona de pessimismo, o pior patamar dos últimos quatro anos. O fenômeno é resultado do aumento nos custos de produção e da queda nas vendas, em meio a um cenário de piora da pandemia e atraso na reedição de programas de ajuda do governo, como os de concessão de crédito e manutenção do emprego, justifica o Simpi.

“Existe uma série de condições competitivas desfavoráveis neste momento”, justificou Joseph Couri, presidente do Simpi. “Em abril, 40% das empresas disseram que perderam fornecedores por recuperação judicial ou falência desde o início da pandemia, e 45% perderam clientes por recuperação judicial ou falência”, acrescentou.

O engenheiro Vagner Luis Gianini, proprietário das empresas World Connections, que presta serviços de cabeamento, e World Project, de serviços de engenharia, relata que tem enfrentado dificuldades na compra de produtos de seus fornecedores de longa data, pequenas indústrias que enfrentam os desafios da desorganização do processo produtivo decorrente da pandemia.

“Nós temos pequenas indústrias fornecedoras que faliram totalmente, como uma que fabricava caixas de piso elevados e acessórios metálicos, e outras que tiveram que cortar muito emprego, então quando a gente pede material a gente não consegue. Temos uma empresa fornecedora de dutos de ar-condicionado que perdeu um fornecedor, uma empresa que fabricava as chapas metálicas para que ela fizesse os dutos. Estamos com esse efeito bola de neve, que está piorando. Isso está atrapalhando demais o nosso trabalho de prestação de serviços”, relatou Gianini.

No mês de abril, apenas um terço das empresas relatou estar funcionando normalmente, enquanto as demais tinham pelo menos parte das operações paradas. Uma em cada dez indústrias informou estar completamente paralisada. Entre os industriais entrevistados, 68% relataram que as vendas estavam abaixo do esperado.

“Temos cada vez menos pessoas com recursos para comprar bens e serviços, que é a base do sistema que vivemos”, justificou Joseph Couri.

O recrudescimento da pandemia neste início de 2021 atrapalhou os planos de crescimento da MMP, que fabrica materiais pedagógicos para o ensino de matemática. No ano passado, o fechamento de escolas em decorrência do coronavírus fez a pequena indústria diversificar seu público-alvo, que se expandiu de editoras e instituições de ensino para alcançar também o usuário final, que são os professores e alunos.

“Embora eu não estivesse fechado, meus clientes fecharam”, contou Cezar Guimarães, diretor da MMP. “Tivemos que nos reinventar”, relatou.

A estratégia de alcançar diretamente o público-alvo e a reorganização de todo o processo produtivo fez o faturamento da MMP recuar apenas 5% em 2020 em relação a 2019. A projeção para este ano, porém, era de expansão acelerada logo no início do ano letivo, abalado pelas novas medidas restritivas de combate à covid-19.

“Estamos esperando uma alta de 30% nas vendas ao fim de 2021 em relação ao que foi em 2020, mas a nossa previsão no início do ano era dobrar o faturamento”, disse Guimarães.

O estado de São Paulo concentra 42% das micro e pequenas indústrias do País, segundo o Simpi. Rafael Cagnin, do Iedi, lembra que as pequenas empresas industriais também têm mais dificuldade de elevar a produtividade, o que deveria ser objeto de políticas públicas, para assegurar a manutenção de empregos e do bom funcionamento da cadeia produtiva.

“Me parece ser muito mais eficaz do que deixar essas empresas falirem”, defendeu o economista do Iedi.

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