André Borges/Estadão
André Borges/Estadão

Sete usinas bebem a água do reservatório

São mais de 2.400 quilômetros de travessia até desembocar no Golfo Amazônico

André Borges, enviado especial, O Estado de S.Paulo

09 Setembro 2017 | 05h00

URUAÇU (GO) - Uma cascata de sete hidrelétricas se alimenta diretamente do fluxo que sai do reservatório de Serra da Mesa. A viagem das águas que começa no Alto do Rio Tocantins, em Goiás, avança rumo ano norte do Brasil, cortando os Estados de Tocantins, Maranhão e Pará. São mais de 2.400 quilômetros de travessia até desembocar no Golfo Amazônico, entre Belém e a Ilha de Marajó, no Atlântico.

Serra da Mesa, Cana Brava, São Salvador, Peixe Angical, Luiz Eduardo Magalhães, Estreito, Tucuruí. São 12.780 megawatts de potência instalada à espera das águas do reservatório-mãe, energia equivalente à das usinas de Belo Monte e Teles Pires juntas. No mapa energético, portanto, a barragem do cerrado tem papel central. E aqui está a confusão.

A situação alarmante de Serra da Mesa levou a Agência Nacional de Águas (ANA) a defender que a prioridade máxima na administração das águas do Tocantins seja a segurança hídrica, a garantia do consumo humano e da irrigação, em vez da geração de energia elétrica. Da mesma forma que já faz com gestão do Rio São Francisco, que também agoniza com a seca, a ANA defende uma ação permanente de controle da água no gigante do cerrado, e não apenas em fases mais críticas atravessadas pela bacia.

“O aprendizado do sistema Cantareira, do Rio Paraíba do Sul e do São Francisco demonstra que a geração de energia, não necessariamente, precisa de água. Ela pode vir de outras fontes. A questão que se coloca é se essa energia será mais cara ou mais barata. Com relação à água, no entanto, não temos essa opção”, diz o diretor-presidente da ANA, Vicente Andreu. “Hoje, em função da intensidade das crises hídricas, é preciso decidir se queremos energia ou segurança hídrica. A questão energética deve ser derivada do contingente da segurança hídrica. Temos de operar sobre essa égide, permanentemente.”

Para o Operador Nacional de Energia Elétrica (ONS), responsável pela fiscalização do setor elétrico e administração diária da geração de energia, não há conflito sobre o tema. “Estamos alinhados com essa visão. O uso da água para gestão elétrica é apenas um de seus usos. Isso pode ter sido diferente em gestões passadas, mas na nossa gestão não é. Não temos nenhum tipo de discordância em relação a isso”, diz Luiz Eduardo Barata, que assumiu a diretoria-geral do ONS em maio de 2016.

Segundo Barata, Serra da Mesa já tem mantido a liberação mínima de água, conforme determinação da ANA, mesmo durante o período chuvoso na região, entre dezembro e março. “Estamos absolutamente comprometidos com essa gestão. Entendemos que, quando há crise hídrica e climática, a operação do setor se alinha com isso e respeita as restrições fornecidas pela usina e pelo regulador da água, como já fazemos no Rio São Francisco.” A estatal Furnas afirmou que, por conta do nível do reservatório estar com 9,21% de sua capacidade, a usina de Serra da Mesa opera com apenas uma turbina, conforme determinação do ONS, e praticando vazões um pouco acima da vazão mínima de 300 metros cúbicos por segundo, de acordo com as exigências da ANA.

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