JF Diório/Estadão
IPCA de setembro foi negativo em 0,04% em setembro ante alta de 0,11% em agosto. JF Diório/Estadão

Deflação de 0,04% em setembro reforça aposta no mercado de novo corte de juros

Ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que País tem condição de reduzir ainda mais os juros; principal impacto no IPCA, o índice oficial de inflação do País, foi do grupo alimentação e bebidas, que teve queda de 0,43%

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2019 | 09h14
Atualizado 10 de outubro de 2019 | 09h35

RIO - A maior oferta de alimentos e promoções de eletrodomésticos feitas pelo comércio varejista derrubaram os preços na economia em setembro, o que deflagrou revisões para baixo nas projeções para a inflação e aumento nas apostas de cortes mais agressivos na taxa básica de juros, a Selic, hoje em 5,5% ao ano. 

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou uma deflação de 0,04%, o menor resultado para o mês desde 1998, segundo IBGE. O desempenho surpreendeu analistas do mercado financeiro ouvidos pelo Projeções Broadcast, que estimavam uma inflação de 0,02% no mês. 

Após o resultado, de 37 instituições consultadas, pelo menos 27 reduziram as expectativas para o IPCA este ano. Para 2019, a mediana ficou em 3,30% – abaixo da taxa de 3,42% registrada pelo último Boletim Focus, do Banco Central. “Como o crescimento permanece fraco e a inflação bem abaixo da meta, aumentam os riscos de que o BC corte a Selic além da nossa previsão de 4,75% para o final do ano”, alertou o Bank of America Merrill Lynch, em relatório. A equipe do UBS Brasil alterou nesta quarta-feira, 9, a previsão. “O cenário de inflação mais baixa nos levou a revisar para baixo a projeção para a Selic no fim de 2019 de 4,75% para 4,5%.”

Em evento em São Paulo, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que viu a deflação de forma positiva. “Inflação baixa mostra que o Brasil tem condições de baixar juros”, disse. “O que está acontecendo é que a economia está começando a crescer com inflação baixa.”

A inflação mais baixa neste ano também deve reter o IPCA de 2020, já que os preços indexados, como os dos remédios, por exemplo, sofrerão reajustes menores. “No ano que vem não vai ter aceleração na inflação. Então existe espaço para redução dos juros e reforça nossa aposta de 4,5% ao fim do ciclo de cortes”, afirma Fábio Romão, economista da LCA Consultores. 

Para Alex Agostini, economista-chefe da agência de classificação de risco Austin Rating, única casa a acertar a projeção para o IPCA de setembro dos 52 consultadas pelo Projeções Broadcast, a deflação de setembro é sintoma de uma economia fraca e deprimida.

“Esse dado confirma que a economia passa por um problema ainda crítico de recuperação econômica, por mais que alguns indicadores em um mês ou outro mostrem uma alta.” 

A taxa acumulada do IPCA em 12 meses desceu a 2,89%, próximo ao piso (2,75%) da meta de 4,25% perseguida pelo BC. 

Na avaliação de Pedro Kislanov, gerente do Sistema Nacional de Índices de Preços do IBGE, o IPCA está em patamar confortável, sem sinais de pressão de demanda, o que inibe eventuais repasses de aumentos de custos. “O setor de serviços, por exemplo, tem ficado em patamar baixo, porque ele responde muito à questão de demanda. A gente nota a economia ainda em recuperação, de forma lenta e gradual, com retomada do emprego.”

Itens

Os preços dos alimentos foram os maiores responsáveis pela deflação de setembro. Os adquiridos em supermercados, para consumo no domicílio, sustentam quedas de preços há cinco meses. Em setembro, o IBGE argumentou que havia oferta elevada, sobretudo, de tubérculos e legumes. O tomate ficou 16,17% mais barato, contribuindo para reduzir a inflação em 0,04 ponto porcentual. “Nos alimentos, você tem um cenário climático bem favorável internamente e mesmo lá fora. A safra está ajudando. E a alimentação fora do domicílio tem o componente serviço, que tem tido pouco espaço para reajuste”, explicou Fábio Romão, da LCA.

A campanha Semana do Brasil, iniciativa para emplacar no calendário varejista um novo período de liquidações, como a Black Friday, também motivou uma redução de preços de bens duráveis no comércio em setembro, especialmente de eletrodomésticos e equipamentos (-2,26%) e aparelhos de TV, som e informática (-0,90%). 

Para outubro, o IPCA deve ser aliviado pela mudança na bandeira tarifária sobre a tarifa de energia elétrica, que passa de vermelha patamar 1 para amarela: a cobrança extra sobre as contas de luz diminuem de R$ 4,00 para R$ 3,50 a cada 100 kW/h consumidos. Por outro lado, deve haver pressão do reajuste na gasolina nas refinarias anunciado pela Petrobrás ao fim de setembro. /COLABOROU CÍCERO COTRIM 

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O que é deflação e por que a queda de preços pode não ser bom sinal

A queda de preços pode representar desaceleração da economia; especialistas divergem sobre causas do fenômeno e alertam para riscos a longo prazo

Ana Luiza de Carvalho, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2019 | 17h12

O mês de setembro registrou deflação de 0,04%, segundo dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado nesta quarta-feira, 9, pelo  Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado foi o menor para o mês de setembro desde 1998, quando o IPCA foi de -0,22%.

 

 

Embora represente uma queda momentânea nos preços, a deflação pode ser um sinal de alerta para problemas estruturais da economia e também pode se tornar um fator para a desaceleração do consumo já existente.

Entenda o que é deflação e por que o fenômeno é perigoso se continuar a se repetir por um prazo mais longo: 

 

O que é deflação e quais as suas causas

De acordo com o mestre em Economia e professor do Insper Otto Nogami, a deflação ocorre quando há uma queda generalizada de preços e se trata de uma ‘tendência recessiva’. O fenômeno não deve ser confundido com a queda da inflação: enquanto em cenários de menor inflação o índice sobe em velocidade mais lenta, durante a deflação a variação é negativa - ou seja, os preços caem de fato. 

A inflação no mês de abril de 2019, por exemplo, foi de 0,57%. Em maio, o índice despencou para 0,13%. Isso não significa que houve queda nos preços: eles apenas subiram em ritmo 0,44 ponto porcentual mais lento. Não é o mesmo cenário observado em setembro, quando o IPCA ficou 0,04% abaixo de zero, indicando retração.

O momento em que é possível cravar uma situação de deflação, porém, gera polêmica entre os especialistas. A situação deste mês de setembro, por exemplo, é um ponto de impasse. Para o economista Alexandre Amorim, sócio da consultoria Par Mais, o recorte temporal é muito curto para determinar uma retração. “Precisa de um índice bem mais consistente, a inflação está baixa, mas nos últimos 12 meses está variando positivamente entre 3% e 4%”, observa.

Amorim defende que, com o avanço da tecnologia e da produtividade, a tendência é de queda nos preços no cenário internacional. “No mundo inteiro os patamares estão mais baixos, o fenômeno não é um privilégio nosso”, afirma. Para o economista, a queda da inflação deve ser sintoma de alerta, mas ainda não é possível traçar um panorama de recessão a nível mundial ou mesmo no Brasil.

Ele sugere ainda que o índice não seja analisado de forma isolada. De acordo com Amorim, a perspectiva de crescimento da economia brasileira deve se manter nos próximos meses. “O crescimento está acontecendo em ritmo lento, mas está acontecendo. O desemprego está caindo e a massa salarial aumentando, são números positivos. Temos bons níveis de consumo, há expectativa de grande volume de compras no Dia das Crianças”, observa.

Essa também é a visão de André Braz, coordenador do IPC do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Ibre). Para ele, o resultado do mês de setembro não significa necessariamente que esteja em curso uma mudança no mercado brasileiro. Braz defende que o índice de -0,04% representa uma retração pouco robusta. "O resultado geral do índice é muito próximo de zero, que indica mais estabilidade do que um número exatamente negativo. Então, não é generalizado, não é preocupante", diz.

O economista explica que o índice foi puxado principalmente pelo setor de alimentação e que a deflação é caracterizada por uma queda expressiva em todos os setores que compõem a cesta de produtos do IPCA. "Por isso usamos núcleos de inflação e várias medidas, porque da mesma forma que a alimentação pode ter influenciado um número negativo, pode influenciar um número positivo. Não indica uma necessidade de mudança na política econômica" , afirma Braz.

Já para Otto Nogami, o resultado reflete uma tendência de retração brasileira que vem sendo notada há meses pelos economistas. O fato de o registro ter ocorrido justamente no mês de setembro, para o especialista, é um indicativo ruim. "É um dado que chama atenção porque naturalmente é uma época em que os preços voltam a subir pela proximidade com o final de ano e o aumento da demanda. Se eventualmente os preços não voltarem a subir nas próximas semanas, realmente denota uma situação extremamente preocupante", afirma.

 

Por que a deflação pode não ser boa

Embora represente um incentivo ao consumo a curtíssimo prazo, a deflação não deve ser vista como um sinal positivo na economia. De acordo com Otto Nogami, o fenômeno é um sintoma de que o mercado enfrenta um período difícil. “Assim como a inflação não é boa, a deflação também denota uma anomalia”, afirma. Nogami explica que, de forma pontual, a deflação pode significar que a população está com um nível de confiança baixo na economia e, por isso, prefere poupar dinheiro do que consumir. 

Outra possibilidade é que o poder de compra dos consumidores tenha caído tanto, seja por perdas salariais ou desemprego, que eles não conseguem mais arcar com os custos de produtos que antes eram rotineiros. Para o professor, esse fator pode explicar a queda dos gastos com alimentação.

“É uma mudança de hábitos do consumidor. A alimentação fora de casa teve nos últimos meses uma queda expressiva, essas pessoas estão dando preferência a levar marmitas ou alguma alimentação de valor agregado mais baixo, o que é um grande problema”, afirma Nogami. Embora os gastos com alimentação fora de casa tenham crescido entre 2017 e 2018, de acordo com dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE, o recorte é diferente para os mais pobres. As famílias com rendimentos mais altos gastaram 15,3 vezes mais do que as famílias mais pobres com alimentação fora de casa.

Além disso, quando a deflação é analisada a médio e longo prazos, ela pode trocar de papel e deixar de ser sintoma para ser fator da recessão econômica. Alexandre Amorim explica que, em meio à queda de preços, a economia pode acabar congelando. "O grande problema de uma deflação é as pessoas optarem por consumir mais para frente porque sabem que os preços vão estar mais baixos, o que diminui a demanda e faz os preços caírem mais ainda. Isso acaba gerando mais um ciclo vicioso", explica.

Com a desaceleração do consumo, Amorim ressalta que os efeitos podem ser devastadores: com menor perspectiva de lucro, as empresas cortam salários e deixam de contratar, agravando o ciclo de recessão e desemprego.

Para os especialistas, o caminho para evitar a recessão é tortuoso mas já é conhecido: retomada dos investimentos públicos para aumentar a confiança na economia. “A política monetária é o único mecanismo para reverter essa situação, e o governo não pode perder o controle dela. É preciso resgatar a confiança do consumidor e do empresário, para que se volte a investir e gerar mais renda”, afirma Otto Nogami.

Essa também é a opinião de Alexandre Amorim, que ressalta a importância do consumo. "O governo tem que estimular crédito e consumo, colocar mais dinheiro no mercado e continuar com a política de juros baixos para manter o dinheiro em circulação", recomenda.

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Despesa das famílias com transporte supera gastos com alimentação

Levantamento do IBGE sobre orçamento doméstico mostra que nos últimos dez anos aumentaram os gastos com habitação, saúde e educação

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2019 | 10h00

RIO - As famílias brasileiras gastaram, em média, R$ 4.649,03 por mês em 2018, segundo os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

As despesas de consumo representaram 81% desse valor, ou seja, o equivalente a R$ 3.764,51 mensais. Na última década, aumentaram os gastos com habitação, saúde e educação. A fatia de recursos destinada a transporte e alimentação encolheu.

As despesas com habitação consumiram a maior proporção da cesta de consumo das famílias, 36,6%, ainda mais do que absorviam de recursos na POF anterior, referente a 2008-2009, quando essa participação era de 35,9%. Também aumentou a destinação de recursos para Assistência à saúde (de uma fatia de 7,2% para 8,0%) e Educação (de 3,0% para 4,7%).

Embora ambos tenham diminuído, os gastos das famílias com transporte superaram os de alimentação pela primeira vez nas pesquisas de orçamentos familiares. A fatia de recursos destinada ao transporte passou de 19,6% em 2008-2009 para 18,1% em 2017-2018. A porcentagem destinada à alimentação saiu de 19,8% para 17,5% no período.

“Na medida em que a renda vai aumentando, a despesa com alimentação vai diminuindo a participação. Se você ganhar o dobro vai gastar o dobro com alimentação? Não. Vai gastar em outras coisas", exemplificou Leonardo Vieira, analista da POF no IBGE.

Para André Martins, gerente da POF no IBGE, as famílias também podem ter substituído itens de maior valor por outros mais baratos, diminuindo esse tipo de despesa.

"Na alimentação você consegue fazer substituição, trocar um alimente por outro. No transporte, não", opinou Martins.

Novo cálculo do IPCA

As mudanças nos hábitos de consumo das famílias brasileiras captadas pela POF servirão de parâmetro para recalcular o peso dos itens pesquisados pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial no País. 

O IBGE divulgará na próxima sexta-feira, dia 11, a nota técnica com as futuras mudanças no cálculo do IPCA. A inflação passará a ser calculada sob a nova metodologia apenas em janeiro do ano que vem, com divulgação prevista para o início de fevereiro.

“Para ponderações para o IPCA, (os pesquisadores) usam um subconjunto de dados, só os gastos monetários, e só de um grupo determinado de faixa de rendimento”, ressaltou André Martins.

O valor médio das despesas de consumo realizadas pelas famílias que moram em área rural foi de R$ 2.158,83 em 2017-2018, o equivalente a 53,7% do gasto médio das famílias habitantes de regiões urbanas, de R$ 4.020,98.

A proporção de gastos com alimentação foi maior entre a população rural (23,8%) do que entre a urbana (16,9%). O mesmo ocorreu também com as despesas de transporte, responsáveis por 20% do total do consumo na em lares da região rural contra uma fatia de 17,9% na área urbana. Os gastos com educação também foram mais expressivos em residências urbanas (4,9%) do que nas rurais (2,3%).

Os gastos com habitação abocanharam uma fatia maior das despesas das famílias urbanas (37,1%) do que das que moram na zona rural (30,9%).

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'Desemprego alto não possibilita repasses instantâneos'

Para economista do Ibre, deflação é pontual, mas inflação continuará baixa nos próximos meses devido à debilidade econômica

Entrevista com

André Braz, economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV)

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2019 | 18h26

A deflação de setembro é pontual e não indica um enfraquecimento mais grave da economia brasileira, segundo o economista André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC), do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV). “Não há expectativa de novas quedas, mas de que a inflação continue baixa.”

Segundo ele, a inflação na casa dos 3%  reflete a economia lenta e com alto nível de desemprego, um cenário que não permite nem o repasse da alta do dólar. “O repasse  fica limitado pela questão da demanda (baixa), desemprego alto não possibilita repasses instantâneos.” A seguir, trechos da entrevista.

A deflação é pontual ou há uma tendência?

É pontual. Os números estão baixos, mas, estatisticamente, nem negativo foi (em setembro). Se a gente considerar esse número (0,04%) com uma casa decimal, seria zero. É um número muito baixo influenciado por alimentos in natura. A deflação está concentrada em produtos cuja oferta é forte. Produtos que não toleram estoque e que, se a quantidade (ofertada) é maior do que a demandada, há uma queda no preço. O perigo da deflação é quando há um processo persistente e generalizado em vários outros produtos importantes, como serviços médicos, bens duráveis e alimentos industrializados. Aí é um processo revelando uma economia muito mais enfraquecida. Agora, não há expectativa de novas quedas, mas de que a inflação continue baixa. Há mecanismos em curso para fazer com que a economia se aqueça. O Banco Central tem reduzindo a Selic (a taxa básica de juros) gradualmente. Tem movimentos na economia que podem fazer com que ela se recupere mais rapidamente, mas é um cenário mais para 2020. Uma parte dessa inflação baixa também está relacionada ao nível de desemprego. Quando a economia está crescendo pouco – a previsão de PIB para este ano é 0,8% –, com um nível de desemprego de 11%, não há chance de alta de preço de outros produtos, como bens duráveis.

Já tivemos casos de deflação no ano passado. Esses episódios não costumavam se repetir...

Tivemos deflação em agosto do ano passado, de 0,09%, e em novembro, de 0,21%. Também foram pontuais. Às vezes a deflação acontece, por exemplo, quando se muda a bandeira vermelha na energia para verde. Como a queda no preço é nacional e em cima de uma despesa importante no orçamento, acaba levando a inflação para um patamar negativo, mas é um efeito transitório, não generalizado. No caso de agora, a causa é uma queda no preço de alimentos in natura. Eles subiram muito no primeiro semestre, com problemas de oferta. Como os últimos meses têm sido de clima mais favorável à oferta desses alimentos, isso tem permitido quedas nos preços. Como já estamos na primavera, o desafio climático é maior para esses produtos, que passarão de mocinhos para bandidos rapidamente.

O dólar tem se desvalorizado e, mesmo assim, temos deflação. O que acontece que os preços não estão sob pressão?

O repasse é gradual. Essa desvalorização aconteceu há pouco tempo. Ela chega primeiro ao consumidor encarecendo derivados de grandes commodities agrícolas, como milho, soja e trigo. O trigo contamina toda a família de pães. A soja é basicamente ração animal, então frango e suíno costumam subir de preço. Assim, quanto mais tempo a taxa de câmbio continuar nesse patamar, maior a probabilidade de contaminar alguns preços. Sem contar a gasolina. A Petrobrás também movimenta o preço da gasolina tanto pela variação cambial como pelo preço do petróleo. Mas existem outras questões que diminuem a possibilidade de repasse cambial. Você pode ter uma desvalorização cambial afetando commodities, mas, por outro lado, safras boas favorecendo a queda do preço desses grãos em bolsas internacionais.

Mas esse é o caso agora?

É o caso para milho e trigo, mas não para a soja, que teve um probleminha de expectativa de safra ruim nos Estados Unidos. O repasse cambial fica também limitado pela questão da demanda, desemprego alto não possibilita repasses instantâneos. Tudo é mais lento. Mas, se a taxa de câmbio continuar nesse patamar por muito tempo, com certeza vai haver algum repasse.

A deflação é pontual, mas, mesmo assim, a inflação está abaixo da meta de 4,25% para 2019. O Banco Central demorou para reduzir a taxa de juros?

Não. Mexeu na hora certa. A inflação não está abaixo do intervalo da meta (2,75% a 5,75%). Ela vai se recuperar a partir de novembro e a taxa de 12 meses vai avançar. Devemos encerrar o ano com uma inflação de 3,3%. Uma inflação baixa, sim, que reflete o PIB de 0,8% aguardado para o ano e uma economia com desemprego ainda elevado. O ideal é que estivéssemos terminando o ano com a inflação mais na meta, o que provavelmente indicaria um nível de desemprego menor e um PIB maior.

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