Setor de alimentos alivia desemprego em Marília

Cidade do interior de São Paulo foi a 1ª em geração líquida de vagas formais em agosto; indústria de alimentos absorveu parte de ex-metalúrgicos

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2016 | 06h00

Entre o fim do período de aviso prévio e o início no novo emprego, o torneiro mecânico José Augusto do Amaral, de 27 anos, casado e pai de um filho, ficou apenas uma semana parado. “Dei sorte”, disse ele, minutos antes de entrar para o turno da tarde na fábrica de alimentos Dori, em Marília, município que fica no centro-oeste do Estado de São Paulo. Amaral trabalhou durante três anos como torneiro mecânico na Man, fabricando máquinas para produção de tijolos e telhas. Tirava cerca de R$ 1,7 mil. Com a crise, o metalúrgico e outros colegas foram demitidos.

A saída foi procurar trabalho na indústria da alimentação, que reúne 200 empresas na cidade, tida como a capital nacional do alimento. “Não senti tanto a crise porque arrumei outro serviço”, afirmou, ponderando que tem muitos colegas ainda desempregados. Agora como encarregado de manutenção, ele ganha R$ 2,3 mil.

A migração feita por Amaral e outros trabalhadores, da indústria metalúrgica, que vai mal, para uma parcela do setor de alimentação, que começa a contratar, somada à abertura de vagas nos serviços, especialmente de tecnologia da informação (TI), fizeram de Marília o município que mais gerou empregos formais no Estado de São Paulo em agosto, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério do Trabalho. No ano, entre demissões e admissões, foram 993 vagas abertas, a maior parte na indústria de alimentos e nos serviços.

Uma análise feita pela secretaria de Desenvolvimento Econômico do município mostra que, comparado a cidade vizinhas de porte semelhante, Marília é praticamente a única que tem saldo positivo de emprego no ano. A diversificação da economia explica, segundo o secretário Cássio Luiz Pinto Junior, o desempenho positivo. “A diversificação fez com que a fase ruim da metalurgia fosse compensada pelos alimentos e os serviços de TI”, observou.

O resultado favorável da geração de emprego não significa que a cidade seja um oásis. “Há muito desempregado, mas as contratações nas grandes empresas de biscoitos e confeitos estão segurando as pontas”, afirmou o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Alimentação de Marília, Wilson Vidoto Manzon. Hoje, o emprego na indústria de alimentos é cerca de 10% menor em relação ao começo do ano. Mas o quadro poderia ser pior se as grandes empresas não tivessem começado a contratar.

A Marilan, segunda maior fabricante de biscoitos do País, admitiu 300 trabalhadores para ampliar em 40% a capacidade de produção. Com 3 mil funcionários, dos quais 1,8 mil na fábrica, a companhia não revela as cifras investidas.

De acordo com o secretário municipal, a Nestlé vai começar a produzir cookies na cidade e contratou 120 trabalhadores. Procurada, a empresa informou que ampliou a produção e fez admissões, mas não confirmou o número de vagas abertas nem revelou o investimento em novos fornos para os biscoitos.

A maioria das indústrias de alimentos da cidade vem de um período de investimento muito forte em novas linhas de produtos. Eles foram planejados no passado, quando a economia crescia. Ocorre que esses projetos estão sendo concluídos agora. “Isso tem ajudado nos volumes vendidos e segurado o emprego”, explicou Luiz Reinaldo Noda, diretor de Operações Estratégicas do Grupo ZDA, que fabrica cobertura de chocolate e barras de cereais, entre outros confeitos.

Em 2014 e 2015, a sua empresa, por exemplo, investiu perto de R$ 40 milhões em equipamentos e infraestrutura para fabricar novos produtos, como a pipoca pronta, chocolate diet e moedas de chocolate. Este último era importado da China, mas, por causa da oscilação do dólar, passou a ser produzido localmente. Com 250 empregados na fábrica de Marília, Noda contou que as novas linhas ocuparam 50 trabalhadores. “Se não tivéssemos isso, provavelmente teríamos de demitir.”

Há também um aumento de produção de confeitos e biscoitos por causa do período mais favorável de consumo de fim de ano e de insumos para a Páscoa, como cobertura de chocolate, que as indústria começa a produzir agora. Esse é outro fator que tem ampliado o emprego.

Tecnologia. Apesar do peso dos alimentos a ponto de a cidade até cheirar a biscoito, o setor de tecnologia está em franca expansão e é outro pilar que tem garantido o emprego. “Há 200 companhias de TI num raio de 30 quilômetros de Marília e, no 1.º semestre, o emprego no setor cresceu 9%”, disse Elvis Fusco, presidente da associação das empresas de TI. A Tray, especializada em software para comércio eletrônico, ampliou em 5% os quadros. “Tivemos uma contenção de despesa por causa da crise, mas não demitimos. Temos 7 vagas abertas”, contou Daniele Pereira, gerente de RH.

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Sasazaki entra no Minha Casa Minha Vida

Crise sacudiumetalúrgica que, além de demitir, abriu novas áreas de negócios , como a de produtos populares

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2016 | 06h00

A crise que atingiu a construção civil e o setor metalúrgico sacudiu a Sasazaki, maior fabricante de portas e janelas de aço e alumínio do País. A empresa, com sede em Marília (SP), demitiu 150 trabalhadores este ano para ajustar a produção ao ritmo mais fraco do mercado. “O mercado caiu 17% este ano e nós acompanhamos”, afirmou o diretor-presidente, Francisco Verza. Para ele, o pior momento da crise ficou para trás, apesar de o cenário continuar recessivo para o setor.

Verza disse que a companhia está ajustada e batendo recordes de produtividade, com 850 funcionários. Mesmo com os ajustes, cerca de 60% da capacidade de produção da fábrica está sendo usada, índice que está abaixo da média, que é de 80%.

“A crise chacoalhou a empresa e acelerou as mudanças”, disse o presidente. Conhecida por fabricar portas e janelas para um público de maior poder aquisitivo, a marca estreou como fornecedora de janelas para o Minha Casa Minha Vida. Já fechou o fornecimento de portas e janelas para cerca de mil casas erguidas por uma construtora da cidade. O produto popular, que leva a mesma marca do premium, tem preços entre 20% e 25% menores do que as portas e janelas tradicionais fabricadas pela empresa.

“A nossa fórmula para sair da crise foi ajustar a empresa e procurar oportunidades”, disse o diretor. Além da entrada no “puxadinho”, que são as construções populares, Verza conta que investiu cerca de R$ 1 milhão em máquinas e em uma equipe para atender às construtoras, com esquadrias sob medida. Na lista das novidades para sobreviver à crise, a metalúrgica começou a vender até limpador de janela, fabricado por uma indústria terceirizada. O presidente disse que não pretende fazer um novo corte de pessoal.

A informação traz alívio para o setor. Nas contas do Sindicato dos Metalúrgicos de Marília e região, de janeiro a setembro ocorreram 662 demissões, com empresas fechando as portas, enxugando os quadros e usando banco de horas. Luiz Pereira dos Santos, secretário-geral do sindicato, está apreensivo. A data-base da categoria é 1.° de novembro. “Obter aumento real de salário será impossível.”

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'Ninguém deixa de comer com a crise'

Após um ano, ex-metalúrgico vai para o varejo

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2016 | 06h00

Não foi só a indústria de alimentos que contratou metalúrgicos demitidos por casa da crise. O comércio também absorveu esses trabalhadores. Elves Moreira Santos, de 43 anos, trabalhou por dois anos como programador de máquina numa metalúrgica e perdeu o emprego em 2015.

Depois de passar um ano entregando muitos currículos para empresas da área, ele conseguiu uma vaga no comércio. Agora, Santos é assistente do setor de hortifrutigranjeiros no supermercado Confiança, que acaba de abrir a segunda loja em Marília (SP). A rede com sede na cidade vizinha de Bauru (SP) ocupa a mesma loja fechada pelo Walmart no início deste ano. A diferença é que o Walmart empregava 100 pessoas e o Confiança, 400 trabalhadores. 

Apesar de o salário ser bem menor – Santos ganhava R$ 2,8 mil na indústria e R$ 1,5 mil no varejo –, o ex-metalúrgico está animado: começou a cursar a faculdade de tecnologia de alimentos, pois viu mais oportunidades. “Por maior que seja a crise, ninguém deixa de comer.”

Comércio. A geração de vagas e de renda que houve nos últimos meses, impulsionada pela indústria de alimentos e pelos serviços, já teve reflexos no comércio da cidade. Segundo estudo da AC Varejo, com base na arrecadação da secretaria Estadual da Fazenda, a região de Marília foi a única entre as 18 do Estado de São Paulo que teve crescimento real de vendas no varejo restrito (conta que não inclui nem a venda de carros nem a de materiais de construção) no ano até julho (1,1%) e também em 12 meses (0,2%). Nesse mesmo período, as vendas do Estado caíram 7% no acumulado do ano e 65% em 12 meses.

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'Aqui, tudo que a gente faz vende'

Metalúrgico pediu demissão para empreender

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2016 | 06h00

Mesmo com a crise, Onivaldo Aparecido Esbrigue, de 46 anos, teve a coragem de pedir a conta na metalúrgica onde trabalhou por oito anos, em Marília (SP), para empreender junto com o irmão José Carlos Esbrigue na produção de massa italiana caseira. 

Na mesma época que Onivaldo foi admitido na metalúrgica, seu irmão começou a fazer informalmente massas caseiras para vender. Ocorre que hoje José Carlos não dá conta sozinho de atender cerca de 200 clientes espalhados por cidades vizinhas, enquanto a metalúrgica onde Onivaldo trabalhava demite. “A empresa que eu trabalhava está em crise. Aqui, tudo que a gente faz vende”, disse.

Como metalúrgico, Onivaldo ganhava R$ 1,7 mil. “Estou tirando mais na empresa, mesmo com a crise. O pessoal não parou de comer”, observou.

Onivaldo usou conhecimento de ex-metalúrgico para incrementar a produção de massas. Ele adaptou uma máquina de encher linguiça para cortar nhoque, o carro-chefe da empresa. “Antes eu fazia 20 quilos de nhoque por dia. Com a máquina, a produção subiu para 120 quilos”, contou o irmão.

José Carlos disse que as vendas em domicílio cresceram tanto nos últimos meses que ele sentiu a necessidade de ter mais uma pessoa. Como ele acaba de se formalizar como Micro Empreendedor Individual (MEI) e só pode ter um empregado, optou pelo irmão.

Levantamento do governo da cidade mostra que, entre seis municípios da região, Marília foi o único que ampliou o emprego e também o número de abertura de MEIs este ano, sinal de que a atividade está mais aquecida do que nos vizinhos.

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