Maquigeral/Divulgação
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Setor de máquinas e equipamentos já contabiliza 11 mil demissões desde o início da crise

Cortes foram a opção encontrada para tentar manter o capital de giro até o fim do ano; quadro deve piorar com volta dos funcionários de férias individuais

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2020 | 07h00

Sem acesso a financiamento com custo de mercado, o empresário Paulo Braga, dono da Maquigeral, demitiu metade dos seus 170 funcionários em março, logo após a crise provocada pela pandemia do coronavírus se intensificar. Nos próximos dias deve fechar mais 20 a 30 vagas, e manter no máximo 70 pessoas na equipe que trabalha na produção de geradores de energia em Embu das Artes, na região metropolitana de São Paulo.

Os cortes foram a opção para manter capital de giro pelo menos até o fim do ano, mas o que a empresa tem em caixa hoje dá para manter as operações até junho. A empresa fatura cerca de R$ 70 milhões ao ano mas o empresário afirma que, até março, a carteira de recebíveis tinha R$ 5 mil em atraso. A média em todo o ano passado foi de R$ 10 mil. “Hoje são R$ 2,5 milhões.” Como as vendas caíram 50%, ele calcula que será possível operar com a equipe reduzida e, se precisar, ampliará o prazo para entregas.

A empresa tinha programado investimentos de R$ 30 milhões neste ano e mais R$ 30 milhões em 2021, mas os projetos foram congelados por 12 meses, informa Braga.

As dificuldades da Maquigeral se estendem para grande parte da cadeia produtiva do setor de máquinas e equipamentos que, no mês passado, eliminou 11 mil vagas, segundo relataram as empresas em pesquisa realizada entre os dias 30 de março e 3 de abril pela Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).

“Na passagem de fevereiro para março foram demitidos 3,5% do total de funcionários do setor”, afirma José Velloso, presidente executivo da Abimaq. O quadro deve piorar a partir da próxima semana, quando começa o retorno às fábricas de funcionários que estão em férias individuais – medida adotada por 78,6% das empresas que responderam a pesquisa –, ou em banco de horas, opção informada por 46,2% delas.

Segundo Velloso, praticamente todas as empresas da mostra informaram que pretendem promover demissões nos próximos meses. “Ninguém pode dizer exatamente os números, mas estimamos que pode chegar a 15% do nível de emprego da nossa indústria, o que significaria 50 mil pessoas.” O setor tinha no início do ano 315 mil trabalhadores.

Ele ressalta que a Abimaq negocia com cerca de 80 sindicatos de trabalhadores em todo o País a redução de jornada e salários e suspensão temporária de contratos, medidas previstas na MP 936, mas, segundo ele, os cortes devem ocorrer antes dos acordos serem fechados. Das 1,6 mil indústrias filiadas à Abimaq, 320 responderam ao questionário. O setor todo é formado por 8 mil empresas.

Empréstimo caro

Do total que participou da pesquisa, quase metade está com as atividades paradas e 42% tiveram cancelamento de contratos. Entre o grupo, 79% disseram que pretendiam fazer uso de capital de giro adquirido de instituições financeiras, a maioria para bancar a folha salarial, porém, até o início deste mês apenas 11,4% tiveram acesso a créditos com taxa média de 14,3% ao ano. “Só pegou com essa taxa quem está desesperado”, diz Velloso.

O presidente da Abimaq cita ainda a burocracia para obter crédito, como a exigência de Certidão Negativa de Débitos (CND), que muitas empresas não têm pois várias delas ainda não conseguiram sequer se recuperar da crise de 2014.

Braga, da Maquigeral, conta que tentou empréstimo no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para reforçar o capital de giro da empresa, mas não conseguiu. “Não tenho qualquer tipo de restrição cadastral, tenho todas as certidões, não devo nada para ninguém e pago os impostos em dia, mas não consigo chegar ao BNDES para pegar um empréstimo”, diz.

Bancos privados como Itaú e Bradesco estão com as portas abertas, mas cobram spread na faixa de 8%. Com isso, o juro anual chega perto de 15%, afirma Braga “e isso mataria meu capital de giro”. A média cobrada no mercado antes da pandemia era de 12,5%, mas o empresariado esperava taxas emergenciais para enfrentar a crise. “O governo fala em socorrer as empresas mas as medidas adotadas até agora são restritivas.”

Velloso informa que a Abimaq - assim como entidades de outros setores industriais -, tem mantido reuniões constantes com membros da equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, e com o BNDES, mas ainda não conseguiu linhas que atendam suas necessidades. Só as indústrias de bens de capital, informa ele, precisa de R$ 7 bilhões para giro. “Até agora as ações que o BNDES tomou não foram apetitosas.”

Quebra de empresas

Outra pesquisa feita nos dias 8 e 9 de abril pela Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) com 60 empresas indica que 34% delas relataram que as medidas adotadas pelo Banco Central com o objetivo de aumentar a liquidez do Sistema Financeiro Nacional não facilitaram efetivamente a adoção do crédito.

De acordo com elas, os recursos do compulsório que foram reduzidos pelo BC não estão sendo repassados pelos bancos. Também afirmaram que o crédito está muito seletivo, os bancos exigem muitas garantias e oferecem juros elevados, o que torna o financiamento inviável para boa parte das empresas, principalmente para aquelas que já estão endividadas.

“Vejo que o mercado vai ter uma incidência de quebra de empresas muito grande se o governo não mudar a forma de atuação e se o BNDES não for sensível para alterar sua grade de pontos”, afirma o presidente da Maquigeral.

Por exemplo, diz ele, “pouquíssimas” empresas que faturam até R$ 10 milhões, alvo de um dos programas do governo, tem CND. “Quantos técnicos do governo foram à uma indústria para ver in loco a dificuldade das empresas? Nenhum. Se quiserem visitar a minha estou à disposição a qualquer momento”, afirma Braga.

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