Setor de serviços ignora crise e cresce dois dígitos

Baixa exposição internacional fez segmento ter, em 2008, expansão em salários, lucro, número de empresas e de trabalhadores, segundo dados do IBGE

Glauber Gonçalves, Alessandra Saraiva RIO, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2010 | 00h00

O setor de serviços não financeiros ignorou a crise global desencadeada no fim de 2008 e fechou aquele ano com um crescimento de dois dígitos em salários, lucro, número de empresas e de pessoas empregadas. O retrato é resultado da Pesquisa Anual de Serviços, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para analistas, o setor foi pouco afetado pela crise em razão de sua baixa exposição ao mercado externo.

"Como um todo, os dados não mostram os sinais negativos originados da crise", comentou a analista do IBGE Ana Carla Magni. A técnica lembrou que, até a crise, a economia mostrava um bom momento em 2008. O setor fechou aquele ano com cerca de 880 mil empresas, número 10,8% superior ao de 2007. Esse crescimento foi puxado pelos serviços prestados às famílias, segmento em que foram criadas cerca de 37 mil novas empresas.

O administrador de empresa Fabio Battistella, de 33 anos, foi um dos empreendedores que começou um negócio nesse período. Com quatro sócios, o ex-executivo da indústria automobilística abriu o restaurante Meza Bar, no Rio. O investimento fora definido antes das turbulências na economia. "Não dava para ficar pensando na crise. Tínhamos de fazer funcionar." A empresa mantém, ainda hoje, os 25 funcionários contratados na abertura.

Para o professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Robson Gonçalves, o setor de serviços não esteve tão exposto à crise quanto a indústria. "A indústria brasileira já resistiu bem. O setor de serviços com certeza resistiu melhor ainda", afirmou. O baixo impacto da crise, na avaliação de Gonçalves, se deve também ao crescimento das classes C e D, que passaram a ter acesso a determinados serviços.

"À medida que o nível de renda sobe, as famílias compram mais serviços. Pessoas de baixa renda que entram na classe média baixa passam a assinar TV a cabo, ter acesso a opções de lazer e comer fora. Nesse momento em que o País se encontra, existem segmentos que começam a crescer à frente da média da economia", explica. "Tudo isso está refletido em 2008 e vai continuar aparecendo nas próximas pesquisas."

O setor também registrou números positivos no nível de emprego em 2008, quando houve acréscimo de 860,1 mil postos de trabalho, crescimento de 10,3% ante 2007. Entre os destaques está o segmento de "transportes, serviços auxiliares aos transportes e correio", onde houve um crescimento de 14,7% no número de pessoas trabalhando. Só a atividade de transporte rodoviário de cargas avançou 30,7% no pessoal ocupado no período.

Em 2008, as empresas de serviços de informação e comunicação originaram a maior parte (29,9%) do lucro do setor de serviços, que teve receita de R$ 680,1 bilhões. Para a analista Rosângela Ribeiro, da SLW, o segmento de telecomunicações passou ao largo da crise porque é pouco influenciada pelo mercado externo.

Resistência à crise

ROBSON GONÇALVES

PROFESSOR DA FGV

"A indústria brasileira já resistiu bem. O setor de serviços com certeza resistiu melhor ainda."

FABIO BATTISTELLA

ADMINISTRADOR DE EMPRESAS

"Não dava para ficar pensando na crise. Tínhamos de fazer funcionar (o restaurante)."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.