Setor elétrico sofre ‘apagão’ na Bolsa

Mudanças regulatórias promovidas pelo governo deixam investidor perdido em um setor tradicionalmente conhecido pela segurança

Yolanda Fordelone, do Economia & Negócios,

25 de novembro de 2012 | 22h05

 

SÃO PAULO - Em 2012, o desempenho do setor de energia da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) fugiu à regra. Ao contrário de outros momentos, em que o segmento ia melhor do que a média do mercado, neste ano o Ibovespa sobe 1,4% contra uma queda de 17,8% do Índice de Energia Elétrica.

A Medida Provisória 579, que regula a renovação das concessões dessas empresas, trouxe uma incerteza ao setor em razão da menor tarifa que as companhias poderão cobrar, de acordo com a proposta. Com isso, os analistas afirmam que o setor perdeu, momentaneamente, a característica de ser mais defensivo. Ou seja, mais seguro e menos volátil. Para garantir bons dividendos, portanto, o investidor deverá ser mais seletivo na carteira de ações.

"O setor não é mais uma opção para quem quer preservar capital", disse a analista da Empiricus Research, parceira da rede social para investidores Investmania, Beatriz Nantes. Uma série de concessões que vencem entre 2015 e 2017 será regulamentada pela MP 579, apresentada ao mercado em setembro deste ano.

"Existiam duas possibilidades: o governo renovar a concessão ou editar um novo leilão. O mercado esperava a renovação, a preços menores, mas esses vieram menores do que o imaginado. Houve uma queda no preço de energia de 20% em média", explicou.

A MP ainda será votada na Câmara dos Deputados e nem todas as empresas assinaram a proposta de renovação feita pelo governo, mas o consenso é de que haverá diminuição no fluxo de caixa das companhias. "Além da questão dos novos preços, pesam as indenizações pagas pelo governo para amortizar os investimentos que as empresas haviam feito. A Transmissão Paulista, por exemplo, esperava um reembolso de R$ 1 bilhão e o governo já informou que não será pago nada", comentou Beatriz.

"A medida chegou ao mercado de forma abrupta e criou-se um sentimento bastante negativo no setor, que afetou todas as ações. Os papéis caíram de forma aguda, sem distinção entre as empresas", afirmou o analista de gestão de renda variável da Rio Bravo, Jorge Augusto Saab.

Perda. Em um dos casos mais graves, da Eletrobrás, a queda na Bolsa já ultrapassa os 50% no ano. Isso porque a empresa tem forte inferência do governo e tende a aceitar todas as reduções de tarifa. O investidor que já aplicou nesses papéis terá de assumir o prejuízo ou ter paciência e aguardar uma recuperação.

O gestor de projetos Victor Sardinha, por exemplo, já calcula uma perda de 30% no valor de sua carteira. "No ano passado, por causa da incerteza na Europa, aumentei a minha posição para 70% em empresas boas pagadoras de dividendos. Metade dessas é dos setores de energia e saneamento", conta Sardinha.

Ele lembra que antes as boas pagadoras representavam apenas 10% de sua carteira. "No caso da Eletrobrás, acho que já é tarde para vender. Vou esperar atingir o fundo do poço para comprar mais um pouco. Estou avaliando se mantenho ou não Eletropaulo", disse.

Quem procura empresas com menor volatilidade ainda pode continuar dentro do setor elétrico, mas de maneira seletiva. As empresas mais impactadas, de acordo com Beatriz, são Eletrobrás, Cemig, Cesp e Transmissão Paulista. Para Coelce e Taesa, por exemplo, que não estão incluídas na renovação, as perspectivas continuam boas. "Há casos que não precisam ser tão punidos", disse Saab, ao comentar sobre AES Tietê e Tractebel.

No entanto, mesmo para as empresas menos afetadas, um retorno com dividendos (conhecido como dividend yield) de 20% ao ano, como já foi visto no passado, será difícil. Analistas esperam retorno entre 12% e 13% este ano, um valor ainda alto se considerada a taxa de juros básica da economia, de 7,25% ao ano.

"A sugestão é o investidor balancear a carteira não somente com setores regulados pelo governo, que têm tido muita inferência atualmente", aconselha Saad.

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