Setor externo justifica corte maior do juro, diz Copom

Para comitê, setor pode aumentar contribuição para cenário benigno de inflação

Agencia Estado

14 de junho de 2007 | 16h50

O contínuo crescimento das importações, favorecidas pela valorização do real, tem limitado os efeitos inflacionários do aumento do nível de atividade da economia brasileira, o que garantiu um corte maior da taxa básica de juro em junho. De acordo com os integrantes do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, essa contribuição do setor externo poderá ser maior do que o inicialmente esperado, o que permite, portanto, uma flexibilização mais forte da política de juro no país. "Tal contribuição estaria ampliando o escopo para que as taxas de crescimento da demanda agregada e da oferta doméstica voltem a se equilibrar em um prazo relevante para as decisões de política monetária, sem comprometer a convergência para a trajetória das metas de inflação", afirmaram os membros do Copom, de acordo com a ata de sua última reunião, divulgada nesta quinta-feira. No encontro da semana passada, o Copom reduziu em 0,50 ponto percentual a meta da taxa Selic, para 12 por cento ao ano. A decisão foi apoiada por cinco integrantes. Outros dois votaram por um corte menor, de 0,25 ponto. Os dissidentes insistiram que os cortes já implementados na taxa básica, somados ao crescimento da renda e ao fortalecimento da atividade justificariam a manutenção do ritmo mais gradual de corte da Selic. Mas a visão mais otimista sobre os efeitos do setor externo, defendida pelos demais integrantes do grupo, acabou prevalecendo. Impacto limitadoA ata divulgada nesta quinta afirma também que as decisões de política monetária terão efeitos limitados sobre 2007 e "passarão a ter impactos predominantemente sobre 2008". O documento do encontro anterior, de abril, destacava que as decisões sobre os juros teriam impactos concentrados nos últimos meses deste ano e "crescentemente em 2008".Outra mudança nessa análise da ata foi a retirada das menções à inflação no curto prazo. No capítulo 20 da ata, a diretoria do Banco Central (BC) destaca que a expansão do nível de emprego, da renda e do crédito continuarão impulsionando a atividade econômica, bem como os efeitos de avanço das transferências comportamentais e outros impulsos fiscais ocorridos em 2006 e esperados para os próximos trimestres."Dessa forma, os efeitos defasados dos cortes de juros sobre uma demanda agregada que já cresce a taxas robustas se somarão a outros fatores que continuarão contribuindo de maneira importante para a sua expansão", pondera o documento."Essas considerações se tornam ainda mais relevantes quando se leva em conta os nítidos sinais de demanda aquecida e o fato de que as decisões de política monetária terão efeitos limitados sobre 2007 e passarão a ter impacto predominantemente em 2008", observa o documento. A diretoria do BC lembra que parte importante do corte de 0,25 ponto porcentual implementado desde setembro de 2005 ainda não se refletiu no nível de atividade e na inflação, já que "parcela substancial para a redução (dos juros) ocorreu nos últimos nove meses".ProduçãoO documento afirma que a produção industrial apesar da "acomodação" registrada em abril continua mostrando "tendência de crescimento robusto". A diretoria do BC avalia que os indicadores antecedentes e coincidentes da produção industrial em maio mostram continuidade do avanço. "Os diversos fatores de estímulo à atividade econômica, inclusive a flexibilização monetária já realizada, sugerem que a tendência da expansão da indústria deverá continuar nos próximos meses", observa o texto.A ata pondera que a trajetória da inflação está estreitamente relacionada à evolução e às perspectivas de ampliação dos investimentos, ou seja, na "oferta de bens e serviços para adequar o atendimento à demanda"."Tendo em vista o comportamento recente das taxas de utilização da capacidade, a continuidade da expansão do investimento será fundamental para evitar descompasso relevantes no que se refere à evolução da oferta à demanda agregada", avalia o Copom.Novo corte As argumentações apresentadas na ata reforçaram no mercado as apostas de manutenção do corte de 0,50 ponto na próxima reunião do comitê. "A leitura que se faz dos cinco membros é que dificilmente eles mudariam o pensamento no período de um mês, até a próxima reunião", afirmou Sandra Utsumi, economista-chefe do BES Investimentos, em referência ao próximo encontro do Copom, agendado para os dias 17 e 18 de julho. Apesar dessa visão otimista, a tradicional cautela do BC não desapareceu por completo. Os diretores afirmaram que o aparecimento de pressões inflacionárias no mundo ainda não representa riscos para a trajetória de inflação do país no curto prazo, mas o aquecimento da demanda poderia contribuir para um aumento do repasse de pressões sobre preços no atacado para os preços ao consumidor. Por isso, o Copom reafirmou que a redução do juro deve continuar sendo conduzida com "parcimônia" e que a política adotada será adequada de acordo com as circunstâncias. "Nesse ambiente, cabe à política monetária manter-se especialmente vigilante para evitar que a maior incerteza detectada em horizontes mais curtos se propague para horizontes mais longos", repetiram os integrantes do comitê.Matéria atualizada às 12h08

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