Jason Lee
Jason Lee

Setor privado chinês moderniza a propaganda

Nos últimos anos, empresas vêm criando trabalhos que produzem o impacto esperado pelo Partido Comunista

The Economist, O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2017 | 04h00

Os profissionais da propaganda do Partido Comunista, embora poderosos e temidos, não são hábeis em conquistar audiências. A publicidade estatal para o cinema e para a TV é com frequência ridicularizada (embora de maneira discreta), considerada inexpressiva, defasada e simplesmente inverossímil. Eles têm procurado melhorar, lançando animações atraentes e vídeos de rap, mas o sucesso é limitado. Seus esforços lembram os de um adulto fora de moda que tenta parecer elegante usando roupas de adolescente. O que é embaraçoso e nada atraente.

No ano passado, o próprio órgão disciplinar do partido acusou os publicitários oficiais de não atenderem às demandas da era digital. 

O setor privado tem tido mais sorte. Nos últimos anos, companhias particulares vêm produzindo trabalhos com o impacto esperado pelo partido. O objetivo dessas empresas é lucrar, não produzir propaganda pela propaganda. Mas para sobreviver precisam manter boas relações com o partido. Assim, encontraram maneiras de produzir um entretenimento favorável ao partido que seja popular. E uma técnica comum é recorrer ao patriotismo juvenil.

Um bom exemplo do gênero é Wolf Warrior 2, filme lançado em julho que relata a história de um soldado chinês na África que salva centenas de compatriotas e pessoas nativas de perversos mercenários americanos. O filme termina com uma mensagem na tela: “Cidadão da República Popular da China, quando estiver em perigo numa terra estrangeira, não se renda. Lembre-se que você tem o suporte de uma pátria forte”. O público aplaudiu o filme de pé, alguns entoaram o hino nacional.

A produção contabilizou uma receita bruta de quase 5,7 bilhões de yuans (US$ 870 milhões), dez vezes mais que o Wolf Warrior anterior, lançado em 2015. Até agora foi a maior bilheteria já registrada no país e por pouco não entrou na lista das 50 maiores de todos os tempos globalmente. O sucesso extraordinário de Wolf Warrior 2 chegou às manchetes na China, embora em 25 de novembro não tenha conquistado nenhum prêmio na cerimônia do Golden Horse do ano, em Taiwan, o equivalente ao Oscar da indústria cinematográfica chinesa. 

O diretor e ator principal de Wolf Warrior, Wu Jing, usou uma fórmula testada e aprovada. Em 2016, Operation Mekong, outro filme sobre soldados chineses combatendo uma gangue de traficantes de drogas asiáticos, rendeu 1,2 bilhão de yuans e foi a sexta maior bilheteria naquele ano. A produção e distribuição do filme estavam em mãos privadas.

A mídia estatal elogiou Wolf Warrior 2 e Operation Mekong, que, segundo ela, deram início a uma nova era no desenvolvimento dos chamados “main melody filmes” promotores da linha do partido, que vem tentando alcançar esse sucesso desde a década de 90, quando começou a incentivar roteiristas e diretores do Estado a imitarem as técnicas de narrativa de seus contrapartes mais comerciais. 

O setor privado também lidera online. Um exemplo é The Chronicle of the Rabbits, série de animação sobre a história moderna da China. Desde que começou a circular online, há dois anos, a série já foi vista mais de 500 milhões de vezes. Os cartoons descrevem o partido como um coelho frágil e pequeno que acaba superando incontáveis obstáculos e se fortalece. Os internautas com frequência usam o termo “nosso coelho” ao se referirem à China. 

O partido tem parte do crédito pelo sucesso desse tipo de entretenimento que fomenta o nacionalismo que o sustenta: por exemplo, promovendo a “educação patriótica” nas escolas. Os censores favorecem essas atividades bloqueando filmes de Hollywood quando estes têm potencial para seduzir o público e afastá-lo das produções locais. E também proíbem qualquer coisa que consideram não patriótica ou envolva críticas ao partido. Não importa o que contribui para o recente sucesso dos chamados “main melody films”, isso não incomoda os responsáveis da propaganda oficial. O setor privado os auxilia a cumprir seu trabalho e também a lucrar muito do ponto de vista financeiro.

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR TEREZINHA MARTINO, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

 



 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.