PAULO PINTO/ESTADÃO
PAULO PINTO/ESTADÃO

Volume de serviços prestados cai 0,2% em fevereiro ante janeiro

Serviços chegaram a fevereiro de 2022 operando 5,4% acima do nível pré-pandemia, de fevereiro de 2020

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2022 | 09h13
Atualizado 12 de abril de 2022 | 12h54

RIO - A inflação elevada ajudou a prejudicar o desempenho do setor de serviços neste início de 2022. O volume de serviços prestados caiu 0,2% em fevereiro ante janeiro, depois de já ter encolhido 1,8% no mês anterior, segundo os dados da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), divulgados nesta terça-feira, 12, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

O resultado de fevereiro decepcionou os analistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast, que previam uma alta entre 0,3% 

Na passagem de janeiro para fevereiro, duas das cinco atividades de serviços registraram perdas: informação e comunicação (-1,2%) e outros serviços (-0,9%). Na direção oposta, houve avanços em transportes (2,0%), serviços profissionais, administrativos e complementares (1,4%) e serviços prestados às famílias (0,1%).

Os serviços chegaram a fevereiro de 2022 operando 5,4% acima do nível pré-pandemia, de fevereiro de 2020, mas ainda 7,0% abaixo do pico registrado em novembro de 2014.

FGTS e 13º salário

A antecipação do 13º salário para aposentados e pensionistas e a liberação de saque de até R$ 1 mil do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) devem impulsionar a renda e ampliar o consumo no curto prazo, beneficiando também os serviços, estimou o economista-chefe da Greenbay Investimentos, Flávio Serrano. Como o impacto é temporário, porém, o movimento pode comprometer o desempenho do segundo semestre.

“O consumo do terceiro trimestre está sendo antecipado para o segundo. Então, provavelmente teremos um terceiro trimestre muito fraco”, disse o economista. “Soma-se a isso a inflação alta e, mais importante, a taxa de juros real em nível altamente restritivo. Temos uma desaceleração contratada por esses elementos de política defasada. Podemos ter algum suspiro de crescimento, mas a percepção é de atividade que vai perder força”, completou.

A inflação pressionada está afetando o volume de serviços prestados no País de forma direta e indireta, apontou Rodrigo Lobo, gerente da pesquisa do IBGE. Há impacto por meio do deflator aplicado sobre a receita bruta das empresas, o que reduz o volume de serviços prestados, mas também através da perda de poder aquisitivo da população, que prejudica a atividade de serviços prestados às famílias.

“Os preços dos serviços no IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, também do IBGE) estão acelerando, isso traz um impacto negativo sobre a receita das empresas de serviços. Tem pressão inflacionária reduzindo o montante de receitas”, explicou Rodrigo Lobo.

Quando os preços dos serviços sobem, o desconto da inflação sobre a receita nominal obtida pelas empresas do setor é maior, reduzindo o volume obtido.

“Passagem aérea teve deflação em fevereiro, mas não necessariamente teve aumento no volume. O transporte aéreo caiu 9,1% em fevereiro ante janeiro. Ou seja, a despeito da queda nos preços das passagens aéreas observada em fevereiro de 2022, a gente teve queda no volume”, notou o gerente do IBGE.

Além disso, a inflação também aumenta o custo de itens essenciais na cesta de consumo das famílias, reduzindo o orçamento disponível para o consumo de serviços.

“Se os preços dos combustíveis estão aumentando, mas pra mim o uso do carro é importante, eu deixo de consumir algum tipo de serviços que não é essencial, e isso também afeta o setor de serviços”, exemplificou Lobo. “Supermercado é muito mais essencial no orçamento das pessoas. Há uma reorganização na cesta de consumo das famílias. Tem dois tipos de efeitos inflacionários operando todos os meses no consumo de serviços”, frisou.

O resultado dos serviços em janeiro ante dezembro trouxe um cenário de perda de fôlego mais intensa para o segmento, após ter sido revisto de um recuo de 0,1% para uma queda de 1,8%. A divulgação da PMS de fevereiro trouxe uma atualização no modelo de ajuste sazonal, com reflexos sobre a série histórica da pesquisa. Segundo o IBGE, a revisão na taxa de janeiro foi decorrente do próprio modelo de ajuste sazonal, e não de mudanças nos dados fornecidos por empresas informantes.

“Não se sabe se é por conta de troca de modelo (de ajuste sazonal) ou se a própria entrada de informações de fevereiro é que provocou essa mudança no resultado divulgado em janeiro. Descontinuamos a modelagem (de ajuste sazonal) anterior”, disse Lobo. “Nenhum informante alterou a sua informação de maneira significativa que alterasse significativamente os dados”, afirmou.

Para o gerente do IBGE, o setor de serviços mostrou perda de ritmo nos dois primeiros meses de 2022. Ele vê falta de fôlego justamente nos segmentos que vinham puxando recuperação dos serviços após choque da pandemia, como informação e comunicação. O segmento tem sido afetado por decisões de empresas de investirem menos em tecnologia da informação. O menor ritmo da atividade econômica como um todo também estaria influenciando essa demanda das empresas por serviços prestados por outras empresas.

Ele lembra que a queda na renda da população afeta de maneira mais evidente os serviços voltados às famílias, embora não sejam os de maior peso na Pesquisa Mensal de Serviços. As duas atividades de maior peso são informação e comunicação e transportes.

“Serviços seguem crescendo a ritmo acelerado na parte de transporte de cargas e de serviços profissionais e administrativos, que também seguem recuperando”, apontou Lobo. “Serviços prestados às famílias estacionam processo de recuperação”.

(Colaborou Guilherme Bianchini)

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