Daniel Teixeira/Estadão
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Setor sucroalcooleiro não vê nenhum reflexo de acordo com EUA anunciado por Bolsonaro

Presidente anunciou como sendo novidade a concessão de uma cota adicional sem impostos para a exportação de açúcar aos EUA, mas medida ocorre anualmente desde 1994

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2020 | 19h54

BRASÍLIA – Anunciada no Twitter pelo presidente Jair Bolsonaro como primeiro resultado das negociações entre Brasil e EUA no setor de sucroalcooleiro, a concessão de uma cota adicional para exportação de açúcar aos americanos sem o pagamento de impostos já ocorre anualmente desde 1994.

Em nota, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Única), que representa o setor, declarou que a medida tem sido praxe e não representa “qualquer avanço estrutural para um maior acesso do açúcar brasileiro àquele país”.

Além disso, a cota adicional de 80 mil toneladas manterá a isenção no comércio do produto no mesmo patamar, considerado por fontes do setor como mínimo e insuficiente para compensar os benefícios concedidos pelo Brasil ao etanol norte-americano.

No Twitter, o presidente escreveu que, para o Brasil, a cota adicional representa “o primeiro resultado das recém-abertas negociações Brasil-EUA para o setor de açúcar e álcool”, uma referência à divulgação, há dez dias, de um comunicado conjunto em que os dois países se comprometem a aprofundar as negociações na área. O comunicado foi anunciado no dia em que o Brasil aceitou prorrogar por 90 dias a isenção para o etanol norte-americano até uma cota de 62,5 milhões de litros. 

A concessão de uma cota adicional para exportação de açúcar sem impostos, no entanto, vem sendo feita todos os anos pelos Estados Unidos e alcança também outros exportadores, como a Austrália. O Brasil tem uma cota fixa de 152,6 mil toneladas já isenta de impostos.

Anualmente, porém, como outros países têm menor produção e não conseguem cumprir a cota estabelecida para eles para a exportação do produto, essa sobra é redistribuída e o Brasil acaba recebendo um quinhão. Na safra 2019/2020, o volume total já foi aumentado em cerca de 80 mil toneladas. Esse adicional chegou a mais de 100 mil toneladas na safra 2010/2011.

Insuficiente

A nova cota também não compensará os produtores de cana-de-açúcar pela isenção que o Brasil concede na importação de etanol dos Estados Unidos, que foi prorrogada até o fim deste ano. A cota anual do etanol isento é de 750 milhões de litros e foi postergada em valor proporcional até dezembro. O cálculo dos empresários do setor é que seria necessário uma cota de 1,1 milhão de toneladas para que o açúcar brasileiro tenha a mesma isenção que os EUA têm ao vender etanol  para os brasileiros, o que está longe do valor estabelecido hoje.

Em seu tuíte, o presidente Jair Bolsonaro afirma que o limite de isenção para o açúcar passará a ser de 310 mil toneladas de outubro a setembro de 2021. O comunicado do Departamento de Comércio dos Estados Unidos, porém, só fala na elevação da cota em 80 mil toneladas, o que elevaria o total anual às mesmas 230 mil toneladas da safra 2019/2020. Ou seja, não haveria aumento na prática.

De qualquer forma, o montante é insignificante perto das exportações totais de açúcar – o produto é o 4º mais vendido pelos brasileiros ao exterior. Os 80 mil adicionais representam menos de 0,5% do total de açúcar exportado pelo Brasil de janeiro a agosto, sendo 11% para a China e 2,9% para os EUA, mesmo com o pagamento de tarifas.

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