Agustin Marcarian / Reuters
Agustin Marcarian / Reuters

Setores da Argentina se dividem sobre Mercosul-UE, mas Macri tenta capitalizar acordo

Presidente argentino deve usar a novidade como trunfo em uma corrida pela reeleição neste ano que se desenha como bastante acirrada, enquanto a oposição faz ressalvas

Gabriel Bueno da Costa, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2019 | 11h00

Representantes de alguns setores da economia da Argentina elogiaram o acordo comercial fechado entre o Mercosul e a União Europeia, mas outros demonstraram temer problemas à frente. Enquanto isso, na frente política, o presidente Mauricio Macri deve usar a novidade como trunfo em uma corrida pela reeleição neste ano que se desenha como bastante acirrada, enquanto a oposição faz ressalvas. 

A Câmara Argentina de Comércio e Serviços (CAC) divulgou comunicado na última sexta-feira, 28, para celebrar o acordo, por ajudar na promoção da "liberdade econômica e na integração da Argentina no mundo". A entidade previu a duplicação do comércio dentro do Mercosul, a partir da entrada em vigor da iniciativa com a UE, e lembra que o bloco europeu é a maior fonte de investimento estrangeiro direto em solo argentino.

Já na União Industrial Argentina (UIA), a imprensa local fala em divisões entre lideranças, com algumas questionando riscos para o setor. Porta-voz da UIA, Jorge Urtubey comentou à CNN que "a maior assimetria é a falta de competitividade da indústria argentina" e pediu reformas, como a tributária e a trabalhista, e que o sistema financeiro seja mais orientado ao setor produtivo.

Diretor do centro de estudos Unión para la Nueva Mayoría, Rosendo Fraga comentou ao Estadão/Broadcast que o setor agropecuário em geral é o mais favorável ao acordo, com a exceção dos vinicultores. "A indústria mostra mais reservas e dúvidas", resume. Fraga avalia o acordo como "um passo positivo em uma direção correta", embora lembre que haverá um trâmite difícil para aprová-lo entre os vários países europeus. De qualquer modo, para o analista isso pode representar uma mudança de atitude do grupo regional e incentivar pactos com outras nações, como Canadá, Coreia do Sul, Cingapura e Japão. "São acordos mais fáceis e rápidos, embora tenham dimensão econômica menor."

O JPMorgan vê o acordo como "um marco histórico para os países envolvidos, diante do tamanho dos parceiros comerciais e da mudança drástica que isso implica nas políticas comerciais, especialmente para o Mercosul". Mas o banco americano lembra que o acordo precisa passar por avaliações legais e que o tratado precisa ser aprovado pelo Parlamento Europeu e pelos Estados-membros no Conselho Europeu, antes de sua assinatura final.

Para a Eurasia, haverá dificuldades para a ratificação. A consultoria prevê um processo lento e que pode fracassar, "num contexto em que a política na Europa caminha para mais protecionismo". Há risco de revezes na Europa e também dentro do Mercosul, "particularmente na Argentina", diz a Eurasia, "onde a dinâmica eleitoral impedirá a ratificação antes da eleição de outubro". Mesmo em caso de reeleição de Macri, as negociações com o Congresso "continuam a ser um desafio", adverte.

Política 

O analista Rosendo Fraga vê Macri decidido a usar o acordo na campanha, mas acha que o assunto perderá fôlego. O presidente busca a reeleição, no processo que terá o primeiro turno em 27 de outubro. As pesquisas mostram que o principal rival é Alberto Fernández, que tem como vice em sua chapa a ex-presidente Cristina Kirchner, ainda popular no país, mas acossada por vários processos judiciais.

Macri busca mostrar o pacto com a UE como um grande trunfo, que pode ajudar o país a sair de uma grave recessão, num quadro de alto desemprego e inflação que chegou a superar os 50% ao ano e, embora desacelere, continua acima de 40%. Já Alberto Fernández foi reticente, dizendo que não ficava claro o benefício para o país, mas sim os prejuízos para a indústria e os trabalhadores. "Um acordo como esse não traz nada para festejar, mas sim muitos motivos para nos preocuparmos", afirmou. Analistas não garantem que o candidato oposicionista vá desistir do pacto, mas pode querer rever alguns pontos para dar mais garantias a alguns setores. Fernández inclusive já deixou isso claro: "Se tivermos que revisar os acordos que Macri está firmando pelo mundo, vamos revisar", adiantou.

Deputados da oposição formalizaram um pedido nesta quarta-feira para convocar dois ministros para explicar ao Congresso o acordo. Os líderes oposicionistas pedem clareza ao governo sobre como seriam afetadas as indústrias e o emprego no país, caso a iniciativa seja confirmada. 

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