André Borges/Estadão
André Borges/Estadão

'Seu Cazuza', o pedreiro da Belém-Brasília

Quando José Gonçalves da Rocha Filho chegou em Uruaçu, a Belém-Brasília, projeto do ex-presidente Juscelino Kubitscheck, ainda era um estirão de terra batida.

André Borges, enviado especial a Uruaçu (GO), O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2017 | 16h51

José Gonçalves da Rocha Filho tinha 22 anos quando saiu de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, subiu em um “pau-de-arara” e viajou por muitos dias, até chegar em Uruaçu, em Goiás. “Vim para trabalhar na construção de Brasília. Cheguei por aqui no dia 17 de setembro de 1957 (há exatamente 60 anos)”, conta o “Seu Cazuza”, como é chamado pelos amigos e a família. Perguntado se o apelido tem relação com o poeta e ex-líder do Barão Vermelho, ele diz que não sabe.

Seu Cazuza conta que, quando chegou em Uruaçu, a Belém-Brasília, projeto do ex-presidente Juscelino Kubitscheck, era um estirão de terra batida. O jovem baiano que procurava emprego na futura capital federal trabalhou na construção da estrada e logo partiu para Brasília, a 270 quilômetros do município goiano. Assentou tijolos do Congresso Nacional e de alguns ministérios da Esplanada.

“Lembro dessa estrada de terra. Era uma ‘costela de vaca’ sem fim nesse chão. A gente tremia o dia inteiro passando por ela”, conta Seu Cazuza, hoje com 81 anos. Em Uruaçu, o pedreiro da Belém-Brasília se casou em teve cinco filhos. “Conheci uma baiana logo que cheguei. Estamos juntos até hoje. Fiz a minha vida em cima desse chão.”

Em 1960, quando Brasília foi inaugurada, uma “caravana da integração” formada por políticos e jornalistas partiu de carros e ônibus de Belém, no Pará, até a nova capital federal, para acompanhar a cerimônia de sua inauguração. A BR-153, que também é conhecida pelo nome de Rodovia Transbrasiliana em seu eixo sul, já recebeu o nome de Rodovia Bernardo Sayão, uma homenagem ao agrônomo e engenheiro por vocação responsável pela construção da estrada. Sayão não chegaria a ver a inauguração da rodovia, ao morrer em um acidente de trabalho em janeiro de 1959, esmagado por uma árvore que caiu em cima de sua barraca.

A rodovia da “unidade nacional” é a quarta maior do Brasil, com 4.355 quilômetros de extensão. Em seu traçado, corta os Estados do Pará, Tocantins, Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

“Vi essa estrada mudar nesses 60 anos, muita coisa melhorou. Só que hoje tem carro, ônibus e caminhão demais nela”, diz Seu Cazuza. “Acontece muita coisa feia aqui. É preciso dar um jeito”, diz ele, que teve contato com a reportagem ao pedir uma carona, entre Campinorte (GO) e Uruaçu.

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