Thilo Schmuelgen/ Reuters
Thilo Schmuelgen/ Reuters

Shell entra no mercado de energia renovável nos EUA

Anúncio evidencia disparidade cada vez maior entre as estratégias das petrolíferas europeias e americanas

Clifford Krauss e Ivan Penn, The New York Times

09 de junho de 2022 | 10h00

HOUSTON – A Shell disse na terça-feira, 7, que começaria a vender eletricidade gerada a partir de fontes renováveis para os moradores e as empresas no Texas, uma medida que conduz a petrolífera europeia em direção a energia mais limpa no mercado americano.

O anúncio evidencia uma disparidade cada vez maior entre as estratégias das petrolíferas europeias e americanas, conforme os líderes eleitos e os consumidores exigem que o setor de energia faça mais para lutar contra as mudanças climáticas. Empresas europeias, entre elas Shell, BP e TotalEnergies, estão buscando se expandir para os setores de energia renovável, carregamento de veículos elétricos e outras atividades comerciais de rápido crescimento, enquanto as empresas americanas, como a Exxon Mobil e a Chevron, em sua maioria mantêm o foco no petróleo e no gás ao mesmo tempo em que investem na captura de carbono de plantas industriais e biocombustíveis.

A Shell, que já comercializa eletricidade em nove países, planeja dobrar a quantidade de eletricidade que vende até 2030. Com sede em Londres, ela é a maior empresa de petróleo e gás da Europa em receita e tem operações em mais de 70 países, incluindo postos de gasolina, refinarias e campos de petróleo e gás.

A empresa disse que pretende zerar as emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2050. Embora muitas empresas tenham o mesmo objetivo, a Exxon e a Chevron não estabeleceram metas climáticas ambiciosas semelhantes.

Executivos da Shell disseram que sua nova atividade com energia no Texas ofereceria aos consumidores maior acesso à energia eólica e solar que é cada vez mais abundante no estado. E também dará aos motoristas de veículos elétricos carregamento gratuito à noite, quando a demanda por eletricidade for baixa, e nos finais de semana.

“Nosso objetivo é diminuir nossa intensidade de carbono”, disse Glenn Wright, vice-presidente de energia renováveis e soluções energéticas para a Shell nas Américas. “Temos que adotar medidas concretas, sobretudo nessa área, onde podemos atrair consumidores com soluções de energia renovável e mais limpa.”

A Shell disse que mais cedo ou mais tarde expandiria suas atividades de comercialização de energia no varejo para outras partes dos EUA, inclusive em estados do leste e do sul, que fazem parte do mercado de energia conhecido como PJM (sigla para os estados da Pensilvânia, de Nova Jersey e de Maryland), o maior sistema de transmissão regional do país. A empresa disse que começar no Texas faz sentido porque mais de 26 milhões dos quase 29 milhões de moradores do estado são atendidos por uma única rede operada pelo Conselho de Confiabilidade Elétrica do Texas (Ercot).

Cerca de uma dúzia de estados – muitos deles no nordeste do país – e o Distrito de Columbia têm mercados varejistas competitivos de eletricidade. Embora relativamente poucos indivíduos tenham tirado proveito dos mercados competitivos, o Departamento de Energia dos EUA descobriu que a grande maioria dos consumidores industriais e comerciais mudaram de concessionárias nas regiões deles.

Texas e Nova Jersey foram os que mais se beneficiaram com os preços mais baixos nos competitivos mercados varejistas. O Texas tem o mercado de eletricidade mais competitivo dos EUA, de acordo com o Laboratório Nacional de Energia Renovável (NREL, na sigla em inglês) do país.

Muitas pessoas e empresas que recorrem aos mercados competitivos tendem a escolher concessionárias que ofereçam energia de fontes renováveis, como a energia solar, a eólica e a hidrelétrica. Grandes empresas de tecnologia que operam centros de processamentos de dados, grandes consumidores de energia, têm liderado a pressão por energia verde.

Outras grandes petrolíferas europeias também têm buscado se expandir no setor de energia. A TotalEnergies, da França, disse no mês passado que estava comprando uma participação de 50% da Clearway Energy, empresa de energia eólica e solar americana, por US$ 2,4 bilhões.

“É um passo significativo e importante, mas não chega a ser uma surpresa”, disse Michael Webber, professor de engenharia mecânica da Universidade do Texas, em Austin, em relação aos planos da Shell. “Eles podem ver o futuro tão bem quanto qualquer um, e não estão em negação quanto às mudanças climáticas”.

Os investimentos da Shell em energia limpa são pequenos em comparação aos da operação de petróleo e gás da empresa, mas os executivos disseram que planejam usar parte dos lucros com combustíveis fósseis para criar novos negócios levando em conta as mudanças climáticas.

A Shell espera atrair clientes oferecendo incentivos. Os proprietários de imóveis com painéis solares receberão um crédito pelo excesso de energia enviada à rede, que será descontado na taxa de eletricidade paga às concessionárias pela energia. No Texas, a compensação pela energia que os consumidores enviam para a rede varia. Algumas concessionárias oferecem aos consumidores preços mais baixos, de atacado, enquanto outras propõem valores maiores do que a Shell está prometendo.

“Esta é uma enorme oportunidade de crescimento, e haverá competição entre petrolíferas como a Shell, que estão mudando de direção, e as empresas de tecnologia como Tesla, Google e Apple”, disse Amy Myers Jaffe, diretora administrativa do Laboratório de Políticas Climáticas, da Faculdade de Direito e Diplomacia Fletcher, na Universidade Tufts. “A ironia é que isso deveria vir das concessionárias existentes, mas, de um modo geral, elas têm sido muito resistentes.”

Os consumidores que comprarem eletricidade da Shell receberão preços fixos durante a vigência de seus contratos – com duração mínima de seis meses e máxima de cinco anos. A empresa comprará a energia que vende aos clientes de instalações eólicas e solares nas proximidades do Texas.

A mudança da Shell inclui a expansão dos investimentos em energia renovável, comercialização de energia e estações de carregamento para veículos elétricos. Nos últimos anos, a Shell adquiriu uma empresa de energia na Índia que fornece energia solar e eólica, comprou uma construtora de parques eólicos na Austrália e investiu em uma parceria com uma empresa chinesa na criação de estações de carregamento na Ásia e na Europa. Na Alemanha, adquiriu um fornecedor de baterias que desenvolve suas próprias redes de energia em concorrência com concessionárias existentes. Nos EUA, está construindo postos de abastecimento de hidrogênio, tem parques eólicos e comprou uma empresa de comercialização de energia que vende energia para empresas.

Apesar de seus investimentos em energia renovável, alguns críticos afirmam que a Shell não está se mexendo rápido o suficiente. Em um processo movido por um grupo ambientalista, um tribunal na Holanda ordenou no ano passado que a empresa, antes conhecida como Royal Dutch Shell, reduzisse substancialmente suas emissões para compensar sua participação nas mudanças climáticas.

A Shell disse que vai recorrer da decisão e que leva as mudanças climáticas a sério. A empresa prometeu reduzir sua produção de petróleo e diminuir suas emissões de dióxido de carbono pela metade até 2030.  Ela vendeu seus campos de petróleo na Bacia Permiana, no Texas e no Novo México, no ano passado por US$ 9,5 bilhões, a maioria dos quais pagou aos acionistas em dividendos e recompras de ações.

As emissões de dióxido de carbono da empresa em relação à sua produção de energia, ou sua intensidade de carbono, diminuíram apenas de forma moderada nos últimos anos, de acordo com um relatório anual de sustentabilidade. A intensidade de carbono da Shell aumentou em 2021 depois de uma queda acentuada em 2020, quando a pandemia fez cair a demanda por combustíveis fósseis.

Wright disse que a Shell pretende se tornar uma empresa de energia mais diversificada.

“Somos uma empresa de energia”, disse ele. “Portanto, não estamos abandonando o petróleo e o gás, mas estamos mudando a combinação do portfólio.” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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