Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Shoppings devem precisar de 4 anos para ocupar 12 mil lojas que estão vazias

Segundo dados do levantamento feito pelo Ibope Inteligência, número de lojas desocupadas até recuou um pouco este ano, mas ainda é preocupante, especialmente nos shoppings abertos depois de 2013, nos quais a vacância gira em torno de 41%

Márcia de Chiara, O Estado de S. Paulo

06 Maio 2018 | 05h00

Apesar de a economia brasileira ter voltado ao azul, a crise deixou marcas profundas no setor de shoppings. Há hoje cerca de 1 milhão de metros quadrados vagos nos 522 shoppings espalhados pelo País. São 12,5 mil lojas desocupadas. Se nenhum novo empreendimento fosse construído ou ampliado, seriam necessários pelo menos quatro anos para que todo o espaço vazio fosse ocupado.

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Isso é o que revela um estudo do Ibope Inteligência sobre a vacância do setor. No último ano, houve uma melhora na ocupação, sobretudo nos shoppings consolidados, construídos antes de 2012. Nesse grupo, 8,5% das lojas estavam vagas em 2017. Neste ano, essa marca caiu para 7,9%. Nos shoppings novos, abertos a partir de 2013, a vacância em número de lojas, que atingiu o pico de 46% em 2017, recuou para 41% este ano.

Mas a situação ainda é bem crítica nos shoppings novos, afirma Marcia Sola, diretora executiva de Shopping, Varejo e Mercado Imobiliário do Ibope. “Nos shoppings novos, a torneira está aberta em cima do ralo: entra contrato novo de locação, mas eles perdem varejistas.”

Foi exatamente esse movimento que se viu nos últimos três anos no comércio em geral. De 2015 a 2017, entre abertura e encerramento, o saldo de lojas foi negativo em 226 mil, aponta a Confederação Nacional do Comércio (CNC). Para este ano, o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, projeta um saldo positivo de 20,7 mil lojas. Com o ritmo lento de recuperação, ele confirma a projeção do Ibope. “Não será possível repor antes de 2022 todos os pontos de venda fechados por causa da crise.”

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Além da retração da atividade, a imprudência dos investidores em novos projetos, que superestimaram o mercado, foi outro fator que contribuiu para grande ociosidade nos shoppings hoje, observa Marcia. Nos inaugurados em 2017 e localizados no Sudeste, por exemplo, a situação é mais crítica: quase metade (49%) das lojas está vaga, uma marca muito acima da média nacional (41%).

De fato, houve um boom de shoppings. Entre 2012 a 2016, foram abertos 128 empreendimentos, lembra o presidente da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), Glauco Humai. “Com a crise, ocorreu uma tempestade perfeita que fez com que os shoppings novos tivessem maior dificuldade de amadurecimento. Mas isso não aconteceu com todos.”

A Abrasce não monitora a vacância dos shoppings novos separadamente dos consolidados. Nas contas da entidade, a taxa média de vacância do setor como um todo gira em torno de 5,7% em número de lojas. “A taxa tem flutuado mês a mês e é administrável”, afirma Humai. Ele diz que não conhece a metodologia e a base de dados dos indicadores apurados pelo Ibope e, por isso, não pode comparar os resultados. 

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Márcia de Chiara, O Estado de S. Paulo

06 Maio 2018 | 05h00

O enorme espaço vazio nos shoppings e a dificuldade de encontrar e reter lojistas tornaram as negociações com os administradores mais flexíveis. “Se no começo da crise os shoppings eram rígidos e perderam muitos inquilinos, hoje perceberam que essa rigidez foi ruim para os dois lados”, observa Luís Augusto Ildefonso, diretor de Relações Institucionais da Associação de Lojistas de Shoppings (Alshop). 

Nos shoppings novos, o executivo explica que, além do desconto, existe a possibilidade de a loja começar a funcionar sem pagar aluguel por um período curto. Já nos consolidados, as negociações são mais tranquilas para as lojas que o shopping tem interesse que fiquem.

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Outra saída para atenuar os prejuízos provocados pela vacância elevada tem sido adiar a construção dos novos empreendimentos. Em março de 2015, por exemplo, o Carrefour, em associação com a Saphyr, empresa especializada em shoppings, e a HSI, gestora brasileira de fundos de private equity, anunciou, a construção do Cosmopolitano Shopping, no bairro do Cambuci, na cidade de São Paulo. A previsão inicial era inaugurar o shopping de 44 mil m² em 2017. O empreendimento, no entanto, está parado. 

O Carrefour informou que o Cosmopolitano Shopping teve a sua primeira etapa concluída com a inauguração do hipermercado. “Agora os empreendedores avaliam o momento adequado do mercado para retomar a próxima fase do projeto”, diz a empresa. A próxima fase do projeto é a construção do shopping.

Além do Cosmopolitano, outros shoppings foram adiados em razão da conjuntura desfavorável. No ano passado, a previsão inicial do setor era abrir 23 shoppings no País. No entanto, acabaram sendo inaugurados apenas 12. Foi o menor número de shoppings abertos em um ano desde 2012, aponta o levantamento da Alshop. “Para 2018, a projeção é de 25 inaugurações. Destas, 11 são remanescentes de 2017. E, de anos anteriores, deve ter alguns que estão se arrastando”, observa Ildefonso.

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A Associação Brasileira da Shopping Centers (Abrasce) prevê que 23 shoppings serão abertos em 2018. Nesse número há projetos de 2016 e de 2017, diz o presidente da Abrasce, Glauco Humai. “Não é o único fator, mas o momento econômico ruim atrasa a inauguração.”

 

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Márcia de Chiara, O Estado de São Paulo

06 Maio 2018 | 05h00

 

No templo do consumo também há espaço para oração. Desde agosto de 2017, o Monte Carmo Shopping, de Betim (MG), abriga a Igreja Batista da Lagoinha. Os cultos são realizados no salão com capacidade para 400 pessoas. A iniciativa inédita faz parte da estratégia dos shoppings novos para ocupar os espaços vazios e aumentar o fluxo de pessoas.

Inaugurado em abril de 2014, no auge da crise, o shopping abriu as portas com 12 lojas, numa área total de vendas de 34 mil metros quadrados. Na época, era um dos shoppings com maior espaço vago no País. Em dezembro de 2016, quando o empreendimento, do Grupo Saphyr, foi vendido para o fundo de investimento Sodepar, a vacância era de 52%. Hoje está em 15%. 

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A nova administração procurou uma saída viável para virar o jogo e concluiu que só o comércio não seria suficiente para ampliar a ocupação. A inspiração, segundo o gerente do shopping, Cesar Miranda, foi o modelo dos EUA, que equilibra comércio, entretenimento e serviço. 

A igreja faz parte dos serviços, ao lado da Faculdade Pitágoras, inaugurada este mês, da agência dos Correios, da Receita Federal e outras operações. “A igreja é um ‘case’ de sucesso, que se converteu em aumento de receita para inúmeras operações do shopping”, diz Miranda. 

Para a diretora executiva do Ibope Inteligência, Marcia Sola, os shoppings novos estão “esquizofrênicos”. “Trouxeram outras coisas, a fim de minimizar a sensação de tapumes.”

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Enquanto há shoppings que abriram as portas mesmo com baixa ocupação, outros nem isso conseguiram. É o caso do Praça Uberlândia Shopping (MG). Com 30 mil m² e pronto há três anos, ele nunca foi inaugurado. Na tentativa de conseguir lojistas, o antigo proprietário, o Grupo 5R, até mudou o foco do empreendimento para outlet, mas não teve sucesso. No fim de 2017, o shopping foi vendido para a Legatus Asset. Felipe Rodrigues, sócio da Legatus, conta que o shopping será relançado no segundo semestre. O novo modelo prevê que a maior parte do empreendimento será para operações de lazer, serviços, alimentação, gastronomia, tecnologia e entretenimento. As lojas tradicionais ficarão com 30%. A previsão é que o shopping remodelado comece a funcionar no início de 2020.

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