Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Shoppings pretendem cobrar aluguel mesmo com lojas fechadas

Segundo as empresas, haverá descontos pontuais após avaliação individual de comerciantes que atuam em setores cujas vendas não se recuperaram

Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2021 | 10h00

Mesmo com as restrições para o funcionamento do comércio em grande parte do Brasil, as maiores redes de shoppings decidiram manter a cobrança do aluguel dos lojistas. Haverá apenas descontos pontuais, após avaliação individual de comerciantes que atuam em setores cujas vendas ainda não se recuperaram bem, como vestuário, calçados, cosméticos e acessórios.

Aliansce Sonae, BRMalls e Iguatemi, que comandam juntas mais de 60 estabelecimentos, já comunicaram a manutenção da cobrança do aluguel, mas outras redes nacionais devem seguir os mesmos passos, apurou a reportagem.

"Prevalece o espírito de parceria, com negociações feitas caso a caso para que toda a cadeia se mantenha sustentável", disse o presidente da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), Glauco Humai.

A postura é diferente da adotada nos primeiros meses da pandemia, quando foram concedidas descontos ou até mesmo isenções de uma forma ampla. Ao todo, o setor abriu mão de R$ 5 bilhões em aluguéis, fundos de promoção e condomínio no ano passado, segundo estimativa da Abrasce.

O País chegou a ter todos os seus 601 shoppings fechados entre março e abril de 2020. As reaberturas foram graduais nos meses seguintes, à medida em que o funcionamento do comércio foi flexibilizado. Mas, com o novo pico de contaminações e óbitos por covid-19, a circulação de pessoas voltou a ser limitada.

Atualmente, o setor contabiliza 407 shoppings fechados e 194 abertos com horários e fluxo reduzidos. Nenhum empreendimento opera sem algum tipo de restrição neste momento, de acordo com a Abrasce.

Negociações

Apesar da gravidade da nova onda do coronavírus e das incertezas sobre a extensão dos seus impactos para a economia, os donos de shoppings argumentam que toda a cadeia do varejo está mais preparada para lidar com a situação.

Desde o começo da pandemia, houve uma corrida para colocar de pé canais digitais de vendas para os lojistas, especialmente aqueles de pequeno e médio portes, que não têm sites próprios para o comércio eletrônico.

Boa parte dos shoppings das grandes redes já oferece opções de comércio eletrônico, como marketplace, vendas por Whatsapp, centrais de entregas, sistema de drive thru para retirada, coleta de compras em armários, entre outras medidas.

"O aprendizado do ano passado nos deu recursos para aprender melhor a lidar com o fechamento do comércio", explicou o presidente da Aliansce Sonae, Rafael Sales. "Vamos continuar apoiando os lojistas, mas de uma forma mais cirúrgica. Tem setores que estão vendendo muito bem de forma online."

"A situação atual é bem diferente do que aconteceu no começo da pandemia, em que ninguém sabia de nada, nem quanto tempo ia levar o fechamento", ressaltou o presidente da Iguatemi, Carlos Jereissati, durante reunião com investidores e analistas.

Os donos de shoppings também levaram em consideração que os lojistas podem contar com o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe), que concedeu R$ 37 bilhões em crédito a pequenos negócios na crise no ano passado. O ministro da Economia, Paulo Guedes, já falou em renovar a oferta de recursos, e o Congresso busca espaço no Orçamento para abastecer o programa.

"Tivemos de ajudar mais os lojistas lá trás porque eles não tinham opções de capital. O governo demorou a editar medidas de ajuda, como o Pronampe", disse o presidente da BRMalls, Ruy Kameyama. "Por isso, a política de descontos deste ano será diferente. Ano passado foi um desconto mais automático, por causa do rápido fechamento do comércio. Agora, será mais cirúrgico, porque há maior disponibilidade de funding."

Os lojistas, porém, já disseram que, com a nova fase de restrições, será muito difícil continuar pagando os aluguéis. O presidente da Associação Brasileira dos Lojistas Satélites (Ablos) e dono da rede de moda TNG, Tito Bessa Júnior, disse no início do mês que as empresas tendem a ficar inadimplentes, especialmente aquelas cujas vendas ainda não haviam se recuperado plenamente, casos dos setores de roupas, acessórios, cosméticos, entre outros.

Frente a isso, ele argumentou que não restam opções a não ser deixar de pagar certas despesas, como aluguéis. “Se mal dava para pagar o aluguel antes, agora que não dá mesmo. Isso vai ter de ser isentado. É mais um sacrifício que todos teremos de fazer.”

Sobreviventes

Apesar das dificuldades enfrentadas pelo varejo, as redes de shoppings entraram em 2021 com a inadimplência dos aluguéis dos lojistas em baixa na comparação com o começo da pandemia, além de um nível de ocupação considerado saudável.

A BrMalls tem ocupação de 96,4% e inadimplência de 5,5%. Na Aliansce, esses indicadores estão em 95,8% e 5,2%, e na Iguatemi, em 91,0% e 9,3%.

Além disso, a perspectiva é de que há lojistas capitalizados e interessados em ocupar o espaço daqueles que estão endividados e devolvendo os pontos comerciais.

A Aliansce assinou cerca de 150 contratos no quarto trimestre e outros 70 entre janeiro e fevereiro deste ano. "A demanda por áreas está alta. Alguns lojistas não vão aguentar a crise, mas tem demanda de outros", observou Sales.

Por sua vez, a Iguatemi tem contratos equivalentes a 2,7% da sua área bruta locável já assinados ou em fase de assinatura, com entrada dos lojistas previstas para este semestre. A perspectiva é de que há uma recuperação em andamento nova varejo, segundo Jereissati. Mas ele pondera que esse cronograma pode ser revisto se o fechamento dos shoppings for muito prolongado.

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