Alex Silva/Estadão - 16/11/2021
Movimento no shopping Iguatemi de São Paulo; rede tem expectativa de atingir ocupação de 93% no fim do ano. Alex Silva/Estadão - 16/11/2021

Shoppings têm, em outubro, vendas acima do nível pré-pandemia pela primeira vez

Com o avanço da vacinação e o fim das restrições de circulação, os centros de compras registraram crescimento nas vendas e na ocupação das lojas

Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2021 | 10h40

Pela primeira vez em um ano e meio, as maiores operadoras de shoppings do Brasil conseguiram vender  mais do que antes da pandemia. Aliansce Sonae, BRMalls, Iguatemi e Multiplan vinham registrando quedas nas vendas dos lojistas desde que a crise sanitária fechou o comércio e, posteriormente, permitiu a abertura aos poucos.

Com o avanço da vacinação e o fim das restrições para os centros de compras, o quadro se inverteu. Em outubro, essas empresas viram crescimento nas vendas em relação ao mesmo mês de 2019, em termos nominais - ou seja, sem considerar a inflação do período. Iguatemi e Multiplan tiveram altas de 15% e 10%, respectivamente. Aliansce e BRMalls confirmaram que houve aumento, mas sem divulgar os números. 

"As vendas nos shoppings em outubro já ficaram acima do nível pré-pandemia", afirmou o presidente da Aliansce Sonae, Rafael Sales, em reunião com investidores e analistas. "Em novembro, as primeiras semanas de vendas foram boas também."

A virada já era mais ou menos esperada, uma vez que o crescimento das vendas vinha ocorrendo nos últimos meses de modo proporcional à liberação dos shoppings. Paralelamente, a inadimplência dos lojistas e os espaços vagos dos shoppings foram diminuindo pouco a pouco.

Perspectivas para as vendas 

A pergunta que fica agora é se os negócios vão permanecer saudáveis, em meio à piora da economia brasileira, com juros e inflação em alta. Na visão dos empresários, a expectativa é de desempenho muito forte nas vendas neste fim de ano, com Black Friday e Natal. Para o próximo ano, pairam dúvidas.

Sales, da Aliansce Sonae, afirmou que estimar o desempenho das vendas para 2022 é um "exercício mais complexo" devido às incertezas. "Não sabemos como estará a economia brasileira no ano que vem", afirmou. De modo geral, entretanto, ele se diz otimista, porque o pior da pandemia ficou para trás, e a sua rede de shoppings tem boa ocupação, além de novos canais para vendas online.

Na mesma linha, o presidente da BRMalls, Ruy Kameyama, mostrou visão positiva. Segundo ele, a recuperação nas vendas foi vista em todas as regiões onde está presente, especialmente nos empreendimentos do Centro-Oeste e do Paraná, regiões puxadas pelo agronegócio.

"Estamos saindo do período de covid com taxa de ocupação bastante alta. Temos percebido que existe demanda e interesse forte dos lojistas para entrar nos shoppings", disse, em teleconferência. A expectativa, segundo ele, é cortar descontos nos aluguéis e reajustar contratos para recuperar as receitas de locação.

Na rede Iguatemi, com shoppings repletos de grifes e marcas de luxo, a expectativa é que as vendas sigam fortes até, pelo menos, a metade do ano que vem. Isso porque os consumidores das classes A e B ainda estão limitados para viajar e devem direcionar boa parte dos gastos com lazer e compras no exterior para o mercado local, de acordo com a vice-presidente de finanças do grupo, Cristina Betts. "Estamos com uma expectativa bem interessante para os próximos meses", disse. "A demanda continua cativa."

Para ela, a melhora nas vendas deve reforçar a procura dos lojistas e ajudar a preencher os espaços vagos que cresceram na rede Iguatemi durante a pandemia. A executiva espera que a ocupação suba de 90,7% no terceiro trimestre para algo em torno de 93% no fim do ano. "Estamos vendo demanda dos lojistas e encaixando todo mundo", afirmou. "É questão de tempo para a ocupação aumentar."

Para analistas, o movimento de recuperação deve continuar, embora em ritmo diferente. Empresas como Iguatemi e Multiplan, voltadas para consumidores de alta renda, devem seguir registrando avanços mais robustos das vendas.

"Os shoppings de baixa renda devem se recuperar mais lentamente do que aqueles de alta renda, já que o crescimento da inflação está concentrada em alimentos e mercadorias, mais representativos na cesta de consumo das pessoas mais pobres", afirmou o analista do Citi André Mazini, em relatório. 

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Dona do Morumbi Shopping inaugura no Rio seu 20º shopping center

Multiplan, do empresário José Isaac Peres, abre esta semana o Park Jacarepaguá, que recebeu R$ 800 milhões em investimentos

Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2021 | 10h40

O empresário carioca José Isaac Peres não se cansa de repetir que "quem esperar a crise passar para investir no Brasil nunca vai fazer nada". O mantra é entoado em quase todas as reuniões trimestrais da Multiplan com investidores e analistas, seja em épocas de alta ou de baixa da economia.

Embora a fala possa soar como papo de coach, não falta lastro na realidade. A Multiplan, fundada e controlada por Peres, vai inaugurar nesta semana seu vigésimo shopping - o Park Jacarepaguá, na zona oeste do Rio. O negócio recebeu R$ 800 milhões em investimentos, a despeito da pandemia.

A crise sanitária espantou as pessoas dos centros de compras e gerou incertezas sobre o futuro desse mercado. Tanto que 2021 será o pior ano da história do setor em mais de uma década, com no máximo cinco inaugurações em todo o País. O ano passado já foi fraco, com sete, enquanto no retrasado foram 11.

Mas Peres não perdeu a fé no setor ao qual dedicou quase 50 anos da sua vida profissional. Além do Park Jacarepaguá, a Multiplan também está investindo outros R$ 318 milhões para expandir os shoppings Park Barigui, em Curitiba, e Diamond Mall, em Belo Horizonte.

Agora que a pandemia arrefeceu, sua crença está na volta dos frequentadores. "Vejo uma onda de demanda reprimida", disse Peres, em entrevista exclusiva para o Estadão/Broadcast. "Quem ficou muito tempo em casa tem vontade de sair, passear e conviver. E o shopping é o local que funciona como um grande ponto de encontro. O shopping é o maior antidepressivo urbano."

De fato, a recuperação do setor já está acontecendo. As vendas evoluíram no mesmo ritmo em que o comércio reabriu as portas, confirmando o poder dos rolezinhos. Com todas as unidades em funcionamento na Multiplan, as vendas em outubro fecharam 10% acima do mesmo mês de 2019 (período pré-pandemia).

Nem mesmo a explosão do comércio eletrônico abalou a confiança de Peres em seu negócio. "Os maiores tomadores de espaços em nossos shoppings são aquelas varejistas que também têm operações digitais", afirmou. "Elas viram que os shoppings comportam toneladas de mercadorias e servem como centro de distribuição para entregas rápidas."

Adaptação ao mundo novo

O Park Jacarepaguá abrigará 230 lojas em uma área de 39 mil m², sendo 95% já locada. O empreendimento foi concebido muito antes de a covid-19 surgir, mas incorporou conceitos ligados à demanda crescente dos consumidores por espaços ao ar livre e capazes de dar ao ambiente uma cara menos artificial.

O novo shopping terá dois parques externos de 6 mil m² com playground infantil, espaço para animais de estimação e um deck com vista para o Parque Nacional da Tijuca. Haverá também um anfiteatro e seis salas de cinema (aposta de que esse mercado não vai morrer por causa dos streamings de filmes) e uma pista permanente de patinação.

"Demos mais destaque às áreas verdes e mais integradas à natureza", afirmou Peres. "É um shopping muito lúdico, com uma pista de patinação bem no meio". Outra aposta forte foi na atração do público interessado em gastronomia - são 10 restaurantes e 27 fast foods (16% do número total de lojas).

Na roda de empresários, Peres é visto como um pioneiro, e tudo que faz repercute bastante no setor. Foi um dos primeiros no Brasil a levar os cinemas de rua para dentro dos empreendimentos,  no Shopping Ibirapuera, em 1976. "Os americanos colocavam os cinemas no estacionamento. Eles diziam que quem vai ao cinema não entra no shopping. A meu ver, um absurdo! Os shoppings de lá não são agradáveis. É só loja e fast food. Aqui é diferente", disse.

Para ele, o hábito de visitar o shopping para compras, lazer, gastronomia e serviços vai perdurar até mesmo entre as gerações mais jovens, nativas do comércio eletrônico. "Vou te contar meu pensamento: a gente não vive no mundo digital, mas sim no mundo das coisas e das pessoas. O meio digital é ótimo. Só que precisamos da convivência. Essa é uma necessidade tão forte quanto se alimentar."

Críticas ao fechamento do comércio durante a pandemia

Até por isso, Peres se ressente das determinações de autoridades para fechar o comércio durante a pandemia - o que ele classifica como radicalismo. "Certamente algumas medidas foram um pouco radicais. Se houvesse diálogo, teríamos sofrido menos", diz, referindo-se às lojas que fecharam por não suportar a queda das vendas. "Nem a sociedade nem as autoridades estavam preparadas para lidar com uma coisa inédita assim no mundo."

Ele afirmou que as pessoas ficaram "paralisadas pelo 'pânico' causado pelos meios de comunicação, enquanto outras foram 'impedidas' de trabalhar por autoridades em meio à 'politização' na condução da crise", segundo suas palavras. "Nada na vida tem valor sem liberdade", disse.

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