'Simplesmente não consegui mais segurar', diz presidente da Alcoa no Brasil

Cortes da companhia podem levar o Brasil a ser importador de alumínio, fato que não ocorria desde os anos 80

Entrevista com

/ A.S., O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2013 | 02h43

Apesar de ver a suspensão de parte da produção como uma fase temporária, o presidente da Alcoa no Brasil, Franklin Feder, entende que a atual situação é um alerta para a perda de competitividade do Brasil.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Por que o Brasil entrou na lista de cortes da empresa?

FRANKLIN FEDER - Três fatores definem o custo de produção no nosso setor: o preço do alumínio, que é cotado em Londres, o custo da energia e a taxa de câmbio. O preço baixou, o custo de energia não caiu o suficiente e o efeito do câmbio não aliviou os dois outros fatores. A resposta curta e simples é: o custo de produção é maior do que o preço - e dentro do custo a energia é o componente mais importante. O mercado acompanhou a luta da Alcoa e da presidente Dilma Rousseff. Mas a Lei 1.273 (que antecipou o fim das concessões para dar o desconto da conta de luz) acabou não focando na questão da competitividade. A energia ficou mais barata para o residencial e para a pequena indústria. Para o grande consumidor e para a indústria de base, a redução acarretou uma economia muito pequena. Nós ainda conseguimos, com a ajuda do Planalto, uma redução do nosso contrato com a Eletronorte em cerca de 11%. Mas foi preciso ligar as térmicas e tivemos de pagar um encargo por isso. A redução caiu para 6%. Mesmo com o câmbio favorável, o custo simplesmente ficou maior que o preço.

Quais as consequências para o Brasil?

FRANKLIN FEDER - O que está acontecendo hoje é que o Brasil está voltando a ser exportador de bauxita e de alumínio. A partir desse anúncio, acredito que o Brasil vai passar novamente a ser importador líquido de alumínio primário, situação que não acontece desde o início da década de 80.

Vocês podem fazer novos cortes de produção no Brasil?

FRANKLIN FEDER -Não tem como prever. Eu te confesso que eu e a Alcoa lutamos contra essa redução durante anos. Mas o preço do alumínio caiu significativamente no segundo trimestre e não deu mais segurar. Eu simplesmente não consegui mais segurar. É só olhar o resultado. Estamos no quarto ano seguido de prejuízo. A Alcoa Alumínio publicou em 2012 um prejuízo de R$ 52 milhões. O anúncio diz que foi fechamento temporário. É diferente do anúncio em relação à fábrica ao norte de Nova York, que é um fechamento permanente. Em 2009, depois da crise de Wall Street e do Lehman Brothers, a situação era tal que fechamos a mesma linha de Poços de Caldas. A linha reabriu. Infelizmente, hoje anunciamos seu fechamento outra vez. Mas sou otimista. Vamos reabrir. A indústria do alumínio vive de ciclos, geralmente eles duram de cinco a seis anos. Estamos no sexto ano, mas sem perspectiva de melhora no curto prazo.

O corte reforça que o Brasil esta ficando para trás no que se refere à competitividade global?

FRANKLIN FEDER - A indústria do alumínio é a mais sensível ao preço da energia. Mas atrás dela há outros setores: a siderurgia, a química, a petroquímica, o cimento. Todos eles muito dependentes do preço da energia. O fato de anunciarmos a redução de produção deveria servir como alerta: 'oi, minha gente, eu não vivo só para o governo federal em Brasília'. Para todos nós: o que é que nós estamos fazendo aqui? Não precisamos ter a energia mais cara do mundo. Reunimos as condições de ter uma energia competitiva. Vamos olhar para a competitividade da indústria de base.

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