Sinais contraditórios
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Sinais contraditórios

Como sempre, tudo vem muito misturado, tanto na percepção das pessoas quanto no jogo do dia a dia

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2017 | 05h00

Fechado o segundo mês de 2017, espalha-se a sensação de que as coisas melhoraram mais na cabeça das pessoas do que na economia real.

Como sempre, tudo vem muito misturado, tanto na percepção das pessoas quanto no jogo do dia a dia.

Há uma enorme torcida de que a atividade econômica saia do torpor em que está metida há mais de três anos, o que é, por si só, algo positivo porque favorece o ambiente de recuperação.

O que mantém o País prostrado não pode ser subavaliado. O desemprego alcançou em janeiro 12,9 milhões de brasileiros, como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios mostrou sexta-feira. Ainda não apareceram indícios seguros de recuperação da maior parte do setor produtivo, a indústria continua prostrada por uma capacidade ociosa que ronda os 40%, os investimentos não reagem, o alto endividamento das empresas e das famílias ainda não encoraja novas compras, o estoque do crédito continua recuando e a inadimplência é alta.

Mas isso não é o principal. Há coisas andando para melhor. A inflação, por exemplo, em recuo sustentado, poderá fechar abaixo da meta ainda neste ano (veja o gráfico). Na cola desse recuo, os juros básicos (Selic), também em queda, deverão encerrar dezembro abaixo dos 10% ao ano, o que acumularia um corte de mais de 4 pontos porcentuais. Mas o dado mais relevante na área monetária tem sido a capacidade demonstrada pelo Banco Central, presidido por Ilan Goldfajn, de conduzir as expectativas do mercado e, mais particularmente, dos formadores de preços.

  As contas externas mostram robustez. Os Investimentos Estrangeiros no País devem alcançar este ano os US$ 90 bilhões. E o saldo da balança comercial aponta para US$ 50 bilhões. 

O estado das contas públicas emite sinais contraditórios. Há um punhado de Estados e centenas de municípios em situação pré-falimentar. E a dívida pública bruta, em quase 70% do PIB, tende a chegar rapidamente aos 80%. Mas os primeiros indícios positivos já estão aí. Na última sexta-feira, por exemplo, o Banco Central apontou superávit primário em janeiro (receitas menos despesas, exceto juros) de R$ 36,7 bilhões, cerca de 30% acima do esperado. Aparentemente, as despesas vêm sendo contidas e a arrecadação deixou de cair. A maior vitória política do governo Temer foi a aprovação relativamente rápida da PEC do Teto. E começa o encaminhamento da reforma da Previdência, sem a qual não há futuro para o equilíbrio das contas públicas.

Na atividade produtiva, o maior sucesso é o agronegócio que aponta produção 20% maior neste ano, um total de 220 milhões de toneladas de grãos, que deverão gerar faturamento bruto de pelo menos R$ 455 milhões.

Na área do petróleo há pelo menos dois avanços institucionais. A Petrobrás não tem mais a obrigação de operar os campos do pré-sal com participação de pelo menos 30% dos investimentos. O governo também reduziu em cerca de 50% as exigências de conteúdo local que oneravam excessivamente seus custos e atrasavam os cronogramas de produção. Sob as novas condições, dois leilões de áreas estão previstos para o fim deste ano. Ou seja, um setor altamente promissor voltará a aumentar a produção, a contratar mais pessoal e, naturalmente, a gerar mais riquezas – e mais royalties.

A política é outra coisa. Ainda prevalece o estilão antigo, do presidencialismo de coalizão e colisão, com todos os seus vícios. A diferença é a de que o governo agora consegue articular maioria no Congresso. E há esse impressionante fator novo, chamado Operação Lava Jato, que está sacudindo as bases sobre as quais se produz política no Brasil.

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