Sinais do fundo do poço

Dado o baixíssimo índice de aprovação do governo da presidente Dilma Rousseff, era previsível que a possibilidade mais concreta de sua substituição, abreviando em dois anos seu mandato, produzisse expectativas otimistas em relação ao futuro da economia. Mesmo que as pesquisas de opinião não indiquem entusiasmo com a troca de Dilma pelo vice-presidente, Michel Temer, é natural que uma visão mais benigna da evolução da economia tomasse o lugar do ambiente carregado predominante com Dilma.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2016 | 05h00

Essa visão mais benevolente inclui a hipótese de que a execução do forte ajuste fiscal necessário para pelo menos estabilizar a dívida pública, hoje em trajetória explosiva, não encontraria obstáculo para se efetivar em prazo relativamente curto. Basta, porém, lembrar a dificílima tarefa de equacionar a questão das dívidas dos Estados com a União, a primeira pauta-bomba a cair no colo do provável novo governo, para perceber que a realidade se apresenta um pouco mais complicada.

A visão de um especialista do porte do economista Affonso Celso Pastore ajuda a dimensionar o grau dessas dificuldades. “O ajuste requer mudanças nas despesas e receitas recorrentes e, por isso, a passagem dos déficits para superávits primários deverá ser muito lenta, com a relação dívida/PIB ainda crescendo por muitos anos”, escreveu Pastore, em sua coluna deste domingo no Estado. 

Mas ainda que não exista base realista para a crença de numa solução fácil e rápida do problema fiscal - e, em consequência, para o relançamento mais consistente da economia -, há sinais positivos surgindo no horizonte. Antes mesmo de o processo de impeachment de Dilma adquirir os atuais e concretos contornos e, portanto, antes também de surgirem as expectativas mais favoráveis do momento, a trajetória da economia começava a indicar o rumo da estabilidade, depois de cinco anos de resultados negativos, com a descida às profundezas recessivas, nos últimos dois deles. 

Um pouco em razão da correção de erros anteriores, caso do represamento dos preços administrados e da excessiva valorização cambial, outro tanto simplesmente por gravidade, a partir de março deste ano, a inflação começou a recuar e a atividade econômica, com a ajuda dos superávits no comércio exterior, passou a oferecer indícios de que poderia ter batido no fundo do poço. Se isso for verdade e se a instalação do novo governo de fato colaborar para a redução das incertezas, é razoável acreditar na perspectiva de uma recuperação cíclica da economia antes mesmo de uma retomada mais estrutural.

Levantamento do economista Igor Velecico, do Departamento de Estudos e Pesquisas Econômicas (Depec), do Bradesco, mostra que tem havido uma ampliação moderada do número de indicadores que aponta tendência de estabilização, depois de um longo período de sucessivas contrações. 

“Inicialmente, esses indicadores refletiam em grande parte melhora de preços de ativos, caso da curva de juros, do risco país e da taxa de câmbio, mas agora já são mais correlacionados com a economia real”, constata Velecico. As quantidades importadas de bens de capital, por exemplo, não caem desde outubro e as de bens intermediários crescem há dois meses, assim como o índice de utilização de capacidade instalada, que chegou ao seu mínimo em fevereiro, revertendo a trajetória em março e abril. Idem para o emplacamento de veículos, que abre espaço à redução de estoques, e para a medida mensal que aponta a tendência dos investimentos, ambos estáveis desde janeiro.

São sinais iniciais de reversão, ainda carentes de confirmação e sustentação, que só devem ser visíveis na evolução do PIB a partir do segundo semestre (a previsão do Bradesco é de contração de 0,8% e 0,5%, respectivamente, nos dois primeiros trimestres do ano). Embora não impeçam retração econômica de 3,5% em 2016, ajudam a projetar crescimento de 1,5%, em 2017, e de 3%, em 2018. 

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