Werther Santana/ Estadão
José Júlio Senna, economista do Ibre/FGV e ex-diretor do Banco Central Werther Santana/ Estadão

‘Sinais são de juros reais ainda baixos nos EUA’

José Julio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Ibre/FGV, explica que os mercados futuros de juros reais, nos Estados Unidos, não sinalizam para uma política monetária em território contracionista (com juros reais mais elevados) nos próximos dez anos

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2021 | 05h00

O Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, anunciou a retirada de estímulos na economia do país. O chefe do Centro de Estudos Monetários do Ibre/FGV, José Julio Senna, explica os motivos. 

Por que o Fed vai iniciar a retirada dos estímulos?

Está muito claro que a inflação nos Estados Unidos começou concentrada. É a história da inflação da pandemia. Começa como uma inflação de bens, especialmente duráveis, que, por mais de duas décadas, foi negativa, por conta da combinação da demografia favorável que beneficiou a produção chinesa com a globalização. Agora, esses preços foram muito para cima na pandemia. Há gargalos de oferta (na indústria) e desvio de demanda (dos serviços para bens). Mas essa inflação foi se disseminando muito rapidamente. O índice de difusão ficou em 85% em setembro, no PCE, o índice oficial de inflação dos Estados Unidos.

Por que a mudança na política monetária começa nos estímulos via compra de títulos?

O Fomc (o comitê de política monetária do Fed) começou o “tapering” (a moderação gradual dos estímulos) como previsto. Fizeram algo muito coerente com o que o (Jerome) Powell (presidente do Fed) tinha dito na reunião anterior. Ele tinha falado que não fazia sentido misturar “tapering” com alta de juro. A compra de títulos é expansionista. Não é para fazer simultaneamente com alta de juros. E o Powell disse, em outras palavras: se a chapa ficar quente debaixo dos pés, aceleraremos o “tapering”, para terminar logo com ele e abrir espaço para subir as taxas de juros. Eles anunciaram uma redução de US$ 15 bilhões ao mês em novembro e dezembro e deixaram em aberto para frente. A possibilidade de acelerar o “tapering” está na mesa.

Isso é ruim para os emergentes, o Brasil incluído?

Não espero um arrasa-quarteirão. Nada muito drástico. O caminho dos juros é inexoravelmente para cima, mas nada com força excepcional. Isso é menos ruim. A direção não é boa, mas a intensidade talvez não seja assustadora. Os mercados futuros de juros reais, nos Estados Unidos, não sinalizam para uma política monetária em território contracionista (com juros reais mais elevados) nos próximos dez anos. Os sinais são de juros reais ainda baixos, próximos ao “juro neutro” ou “de equilíbrio” (como é chamado o nível da taxa de juros que permite uma economia crescer sem desequilíbrios, como a elevação da inflação). 

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Mais aperto à vista para países emergentes

Estados Unidos despejaram cerca de US$ 4,3 trilhões na economia durante a pandemia

Vinicius Neder, Iander Porcella e Bárbara Nascimento, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2021 | 05h05

Depois de despejar em torno de US$ 4,3 trilhões na economia desde o início da pandemia, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) confirmou na quarta-feira que começará a fechar as torneiras. Esse estímulo monetário – que é feito via compra de títulos que estão em poder do mercado –, adotado por alguns países ricos, ajudou a tirar as economias do buraco criado pela covid-19. Tanto que o Produto Interno Bruto (PIB) americano deverá crescer 6% este ano, depois de uma queda de 3,4% no ano passado, segundo as projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI).

O movimento anunciado agora pelos americanos vai afetar toda a economia global, com destaque para os países emergentes, incluindo, claro, o Brasil. Segundo economistas, quando o Fed começar a reduzir a compra de títulos, a tendência é de a taxa de juros da economia começar a subir. Com isso, as taxas dos títulos do Tesouro americano ficam mais atrativas, e o fluxo de dinheiro internacional para os EUA aumenta, reduzindo o dinheiro externo para os emergentes.

“Quando os EUA apertam a política monetária (sobem o juro), fica naturalmente mais difícil para os outros países atraírem esse capital”, diz o economista-chefe da gestora de recursos Quantitas, Ivo Chermont. Isso praticamente “obriga” os demais investimentos do mundo a passarem a oferecer taxas mais altas também. 

Em outras palavras, nenhum investidor aplicará seus recursos em títulos da dívida do Brasil se eles oferecerem taxa de retorno igual ou abaixo da do título americano, já que o País é percebido como mais arriscado. 

As cotações do câmbio andam junto. As maiores taxas de retorno nos títulos de dívida dos países mais seguros levam os investidores a sacarem recursos de mercados emergentes, para aplicar nos desenvolvidos. Para fazer isso, precisam trocar a moeda local por dólar. A maior demanda pela divisa americana pressiona a taxa de câmbio para cima – antes mesmo de haver essa demanda nas negociações no mercado de câmbio, as cotações começam a subir no mercado futuro, também por causa da elevação do risco.

Aperto

Os efeitos não ficam apenas na ciranda financeira. A piora no quadro se traduz em aperto nas “condições financeiras” para empresas e famílias. Para os emergentes, alta do dólar significa mais inflação, já que o câmbio impacta nos preços de produtos e insumos importados. A inflação mais elevada atrapalha consumo e investimentos. Para enfrentar o problema, os bancos centrais acabam elevando suas taxas de juros, também numa tentativa de evitar a fuga dos recursos de investimentos financeiros. Isso encarece empréstimos para empresas e famílias, tirando impulso do crescimento econômico.

Para o Brasil, os efeitos desse movimento poderão ganhar uma dimensão ainda maior por conta dos problemas adicionais que o País enfrenta, como a inflação mais elevada do que nos outros países, ultrapassando a casa dos dois dígitos no acumulado em 12 meses, a crise política e a desconfiança em relação ao desequilíbrio das contas do governo. Esse quadro mais conturbado já aparece nas estimativas cada vez menores de crescimento da economia brasileira em 2022. O Itaú Unibanco, por exemplo, fala até em queda de 0,5% no PIB no ano que vem.

Segundo José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), esse quadro se agrava com a crise energética global. Em parte por causa da elevação das cotações do petróleo, em parte por causa da transição para a energia mais limpa, os preços estão em disparada – no Brasil também, mas por causa da estiagem, que afeta a geração hidrelétrica. 

Sem choque

Apesar das perspectivas ruins, o quadro poderia ser pior se o Fed anunciasse uma redução mais rápida nos estímulos ou apontasse logo para uma alta nos juros. Diferentemente de 2013, quando o BC americano anunciou de forma abrupta a redução da compra de títulos iniciada para enfrentar a crise financeira de 2008, desta vez o Fed “preparou” o mercado para esse anúncio, o que tende a evitar um “choque” na economia global.

O economista-chefe do banco suíço Julius Baer, David Kohl, acredita não haver motivo para “temer enormes saídas de capital do Brasil”. Em parte, porque os fluxos de capital para emergentes já têm sido “fracos” recentemente, o que reduz o potencial para uma grande reversão. Para o estrategista-chefe da corretora Modalmais, Felipe Sichel, apesar das consequências negativas para a economia brasileira, talvez o impacto “seja sentido de forma menos abrupta e mais diluída no tempo”.

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