O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2012 | 03h05

SZAJMAN

Na onda de greves que abalou o País - não apenas do serviço público, mas também as do setor privado - há um fator menos focado pela mídia e por analistas, mas que, juntamente com a virulência das paralisações, nos remete a uma época anterior ao Plano Real. Trata-se da volta de campanhas salariais baseadas na indexação, resquício do tempo em que os salários estabeleciam uma corrida insana contra os preços, sem que reajustes salariais sucessivos e os chamados gatilhos conseguissem impedir a corrosão da renda do trabalhador.

Esta é uma questão preocupante porque, apesar de desfrutarmos por quase duas décadas de uma estabilidade monetária responsável pela inclusão de milhões de brasileiros nos mercados de trabalho e de consumo, o grau de indexação da economia manteve-se perigosamente elevado. Contratos de aluguel e de prestação de serviços, que poderiam ser ajustados pela livre negociação, com base nas condições de mercado, permaneceram indexados a índices de inflação, o que volta a ocorrer agora com os salários, cujos reajustes, em muitas categorias, deixam de ter relação com a produtividade do segmento.

Veja-se o caso do comércio, cujo aumento do faturamento não se traduz em ganhos concretos de produtividade. A razão é que, se, por um lado, houve forte incremento do número de estabelecimentos e de vagas no setor, por outro, as vendas, quando divididas pelas unidades empresariais, permaneceram estáveis e chegam mesmo a cair, quando a divisão é feita por empregado. Isso porque, se o faturamento avançou 82,6% entre 2002 e 2011, no mesmo período a folha de pagamentos registrou alta superior a 250%, em razão do maior número de empregados e do aumento real dos salários.

Se considerarmos que o consumo das famílias e o desempenho do comércio são indicadores de vitalidade para evitar desacelerações ainda maiores na economia - que após um crescimento de 2,7% em 2011não ultrapassará a medíocre marca de 2% neste ano -, o fator produtividade adquire dimensões que precisam ser mais bem avaliadas. Assim, é inevitável concluir que, quando os salários crescem acima daquilo que os trabalhadores proporcionaram às empresas, os resultados delas serão impactados e farão encurtar, em igual medida, os respectivos investimentos.

É compreensível que os sindicatos dos trabalhadores se preocupem em manter o poder de compra dos salários, mas nem eles, nem o governo, e muito menos os empresários podem perder de vista o fato de que o reajuste indexado de hoje representa mais inflação e menos emprego amanhã. Como a economia requer equilíbrio constante, pesar a balança do salário além do que as empresas podem pagar compromete a própria capacidade de sobrevivência, sobretudo das pequenas e médias empresas. Estas são as que maior dificuldade têm em cumprir acordos coletivos, que não podem se transformar em mais um fator de concentração e oligopolização da economia.

É claro que os ganhos efetivos de produtividade podem ser partilhados com os trabalhadores por meio de instrumentos como a Participação nos Lucros e Resultados (PLR), que não devem ser incorporados aos salários nem repassados aos preços. Esses ganhos dependem hoje, no Brasil, menos da quantidade da mão de obra empregada do que da sua qualificação, que deixa a desejar em razão de nossas graves deficiências educacionais.

Em resumo, da mesma forma que o "pibinho" fez acender a luz vermelha em Brasília e levou o governo a se preocupar ainda mais com os estímulos aos investimentos, no farol da economia existe também o sinal amarelo. Ele nos adverte que a indexação é um entulho do passado que ameaça o futuro e que os aumentos dos salários desvinculados ou acima da produtividade são efêmeros, pois comprometem a renda e o emprego do trabalhador no amanhã.

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