Nacho Doce/Reuters
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Sindicato deve recusar proposta de redução salarial da Latam, após aprovar acordos de Gol e Azul

Aérea, que já enfrenta recuperação judicial, quer reduzir permanentemente o salário da tripulação; companhia é considerada a mais vulnerável do País

Cristian Favaro, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2020 | 11h00

Enquanto Azul e Gol negociaram com seus comissários e pilotos uma redução de salários e jornada temporária, a Latam quer reduzir permanentemente o salário da sua tripulação. Esse inclusive é um tema que emperra as negociações da empresa com sua equipe. Na contramão, a Latam alegaria aos seus funcionários que paga mais do que as concorrentes porque suas operações são mais internacionais e que precisaria reduzir tal diferença para se manter competitiva.

Segundo o presidente do Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA), comandante Ondino Dutra, a categoria votará até a próxima segunda a proposta encaminhada pela aérea. A estimativa é de que o resultado seja divulgado às 17h do dia 27. O acordo, segundo o sindicalista, deve ser rejeitado. Mesmo assim, a estimativa é de que a empresa continue negociando com a categoria formas de evitar demissões.

A Latam é considerada mais vulnerável no País, sobretudo por conta da sua maior exposição ao mercado internacional. No último dia 9, a aérea informou que seu braço no Brasil entrou em recuperação judicial (chapter 11) nos Estados Unidos. O grupo Latam e suas afiliadas em Chile, Peru, Colômbia, Equador e Estados Unidos já haviam pedido a proteção contra credores em Nova York em 26 de maio, mas a unidade brasileira havia ficado de fora.

"A questão é a cláusula resolutiva que a Latam colocou na proposta. A empresa não está fazendo uma proposta temporária (de cortes até o fim de 2021). Ela está fazendo apenas a postergação da redução permanente", disse. Na proposta, a Latam estipulou o dia 31 de agosto como prazo para se definir a redução permanente e caso ela seja negada, todo o acordo seria revogado.

Sinal verde

Dados da Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata, na sigla em inglês) mostram que a crise ainda é grave. A demanda do setor (medida em receita por passageiros/km, ou RPK) caiu 91,3% em maio na comparação com igual período do ano passado. O mercado doméstico nos países tem demonstrado mais resiliência. A demanda recuou 79,2% em maio neste recorte na comparação anual.

Em um primeiro momento, os aeronautas fecharam um acordo com as aéreas que trouxe estabilidade para abril, maio e junho. Com o fim do período, iniciou-se então um novo processo de negociação. No início de junho, a Gol conseguiu aprovação da categoria da sua proposta, que prevê 18 meses de estabilidade com reduções de salários. Do total, 25% dos tripulantes vão ficar com remuneração fixa de 50%, com redução de jornada em igual proporção. Já o restante entrará em um modelo de escalonamento trimestral de cortes na jornada e remuneração de 23% no terceiro trimestre de 2020, chegando a 3% no terceiro trimestre de 2021.

Já a Azul conseguiu o sinal verde dos aeronautas no dia 24 de junho. De forma bruta, a redução de salário será de 45% entre o terceiro trimestre de 2020 e o primeiro trimestre de 2021, quando o porcentual começa a cair. No quarto trimestre de 2021, a redução na remuneração será de 25%. Considerando a ajuda de custo, as reduções líquidas vão de 23% no terceiro trimestre de 2020 para 3% de queda na remuneração no quarto trimestre de 2021.

Proposta

Dutra explica que além do corte permanente, a proposta da Latam é de uma remuneração média 40% menor durante o período de vigência do acordo, que se encerra em dezembro de 2021. Na Gol e Azul, a média é de corte de 16%. A Latam sinalizou ainda que pretende diminuir sua estrutura depois de 2022. Hoje, a aérea tem um excedente de 2.700 tripulantes.

"Todos estão dispostos a se sacrificar durante a pandemia, para contribuir com a recuperação da empresa. Mas tornar a redução permanente, aí já é se aproveitar dos trabalhadores", diz um funcionário sob a condição de anonimato.

Procurada, a Latam disse que as negociações com o sindicato continuam. "O momento é desafiador para toda a indústria no mundo e a empresa está buscando, por intermédio de um novo Acordo Coletivo de Trabalho, formas de minimizar os impactos econômicos e principalmente os sociais causados por esta pandemia sem precedência".

A empresa foi questionada sobre o motivo de, diferentemente de Gol e Azul, ter proposta uma redução permanente. A Latam argumentou ser a maior e mais antiga das três companhias aéreas e tem sua operação majoritariamente internacional e que por isso as negociações são diferentes. "As propostas foram apresentadas pela empresa ao Sindicato tendo como foco principal a preservação dos empregos dos colaboradores e a sustentabilidade da empresa no longo prazo".

Questionada sobre a sinalização de redução de quadro após 2021, a Latam disse que continua em negociações e que "não comenta especulações"./COLABOROU BETH MOREIRA

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