Werther Santana/Estadão - 21/3/2019
Carlos Alberto Oliveira Andrade, dona da Caoa. Werther Santana/Estadão - 21/3/2019

Sindicato dos Metalúrgicos do ABC pede audiência com o BNDES

Intenção é convencer dirigentes do banco de fomento da importância de liberar empréstimo para a compra da fábrica

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2019 | 04h00

O ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e atual presidente do Instituto Trabalho, Indústria e Desenvolvimento (TID), Rafael Marques, enviou na quarta-feira, 30, a um representante do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) pedido de audiência para tentar convencer o banco de fomento a liberar empréstimo para o Grupo Caoa adquirir a fábrica da Ford.

Segundo ele, depende disso a manutenção da fábrica e de empregos. Inicialmente, o grupo precisaria de 650 trabalhadores para tocar a linha de caminhões. Do grupo que deixou a empresa, 1,5 mil se inscreveram para disputar essas vagas.

Na visão de Marques, como o plano do grupo brasileiro é também produzir automóveis futuramente, mais empregos seriam criados. Ele ressalta ainda que, cada vaga na montadora (aberta ou fechada), representam mais quatro na cadeia de produção que envolve fabricantes de peças, fornecedores de serviços e revendas, entre outros.

“O papel do BNDES não pode ser apenas de bancar as privatizações”, disse, ressaltando que o projeto do Grupo Caoa traria investimento importante para a região, inclusive por adquirir a tecnologia de produção dos veículos Ford, incluindo a linha de picapes de grande porte F series.

Segundo fontes do mercado, o Grupo Caoa também discute parceria com fabricantes chineses para ficar com a fábrica do ABC paulista, que precisa de alto investimento para modernização de equipamentos. Cálculos indicam que seria necessário cerca de R$ 1 bilhão.

O Grupo Caoa informou que as negociações para a compra da fábrica continuam, sem dar detalhes. Em nota divulgada ontem, a direção da Ford também afirmou que as negociações “ainda estão em andamento, sem decisão conclusiva até o momento, e a Ford reitera que continua fazendo todos os esforços cabíveis para alcançar um resultado positivo”.

Salário menor

Algumas condições já discutidas entre a direção do Caoa e do Sindicato são de que salários e participação dos lucros (PLR) a serem eventualmente pagos a trabalhadores serão cerca de dois terços inferiores aos pagos pela Ford. O plano médico manterá a mesma bandeira, mas com serviços inferiores.

Marques informou que o serviço de manutenção em equipamentos feito pelos trabalhadores antes de encerrar as atividades garantem que a produção de caminhões possa ser retomada em até seis meses. Para a linha de automóveis, o período é de até três anos. “Ou seja, o grupo Caoa teria até abril para assumir a produção”.

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Ford dá adeus ao ABC após 52 anos  

Último caminhão deixou a linha de montagem de São Bernardo ontem; segundo relato dos trabalhadores, clima era de velório dentro da unidade

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2019 | 04h00

Aos 20 anos, Mauro Sérgio Rovaron foi contratado pela Ford para embalar peças, dando sequência a uma tradição da família. A avó materna Rosa trabalhou como copeira na Willys e, quando a empresa foi adquirida pela Ford, em 1967, permaneceu no cargo.

Quando ela estava para se aposentar, o filho Mauro foi contratado para trabalhar na linha de produção, em 1971, e só deixou a empresa 36 anos depois, já aposentado.

“Eu nasci um ano depois da contratação do meu pai e sempre sonhei em trabalhar na Ford também; quando consegui a vaga, achava que ia seguir o mesmo caminho deles”, disse Rovaron, hoje com 47 anos e funcionário da área de logística. Após passar pela catraca da empresa na tarde de ontem, ele contou, com lágrimas nos olhos, que esperava ficar lá até a aposentadoria, pois “era uma coisa de família”. 

Poucas horas antes, o último caminhão saiu da linha de montagem, colocando fim a uma história de 52 anos da marca americana no ABC paulista. A Ford anunciou em março que sairia do negócio de caminhões e fecharia a fábrica.

Desde então, o grupo Caoa, do empresário brasileiro Carlos Alberto de Oliveira Andrade, negocia a compra da fábrica, negócio que inicialmente foi conduzido pelo governador de São Paulo, João Doria, mas que está emperrado.

A unidade produzia também o Fiesta, que teve a produção encerrada em junho. A linha atual de veículos de passeio está concentrada na unidade de Camaçari (BA), onde também são feitos os modelos Ka e EcoSport. 

Velório

“Hoje o clima na fábrica foi de velório, de muita tristeza, várias pessoas chorando”, contou Claudio Araújo Machado, de 45 anos e há 25 anos funcionário da Ford – nos últimos anos como membro do comitê sindical. Ele começou a trabalhar na unidade de caminhões no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Em 2001, a montadora fechou as portas da filial e concentrou a produção no ABC paulista, onde produzia carros.

“O dia foi doloroso; a gente esperava que houvesse uma reversão por parte da empresa, mas infelizmente isso não ocorreu”, disse Eduardo Moura Araújo, de 29 anos, e há seis na empresa.

Morador da zona Leste de São Paulo, casado e com dois filhos (um de um ano e outro de quatro), ele disse que a esposa está desempregada e que a esperança agora é que o grupo Caoa fique com a fábrica.Pai de cinco filhos com idades entre 2 e 11 anos, Giovane Alves da Silva, de 32 anos, teme pelo futuro. “Quando entrei aqui, há quase cinco anos, achei que teria todo o suporte para o futuro, mas agora saio sem saber o que vai ser dos meus filhos e da minha esposa, que dependem de mim.”

Silva mora em São Bernardo, em casa alugada, e também afirmou que o clima na fábrica na quarta-feira “era de velório mesmo”. Para Adilson Moreira Lima, o choque foi grande pois ele foi reintegrado à fábrica, por decisão judicial, há apenas uma semana “e hoje fui demitido de novo”. Ele perdeu o emprego há dois anos mas, como tinha adquirido doença profissional nos sete anos em que trabalhou na área de ferramentaria, recorreu à Justiça, que determinou a reintegração na última sexta-feira. “Eu já estava em um trabalho temporário da Honda, em Sumaré (SP) e saí para voltar para a Ford e acontece isso.”

Em sua opinião, “será um grande desperdício deixar uma fábrica desse tamanho largada aqui”. Entre modelos que a fábrica produziu estão Escort, Maverick, Galaxie, Corcel, Del Rey, Pampa, Ka e Fiesta. 

Quando a Ford anunciou o encerramento das atividades, a fábrica do ABC tinha 2,8 mil funcionários. Parte deles aceitou pacote de demissão voluntária (PDV) e até esta quarta-feira, 30, restavam 650 na linha de produção – cujos contratos serão encerrados até a próxima semana. Outros mil da área administrativa serão transferidos para um escritório na capital paulista em março do 2020.

Indenização

Todos os demitidos da área de produção vão receber indenizações de 1,5 a dois salários extras por ano trabalhado como compensação, dinheiro que, segundo os próprios trabalhadores, será suficiente para se manterem por algum período.

“Comecei a distribuir currículos há dois meses”, informou Rafael Lasso de la Vega, e 28 anos. Ele estava na Ford há seis anos e trabalhava como auditor de qualidade.

Formado em Engenharia de Produção e cursando MBA em gestão de processo, ele contou que seu objetivo era “crescer na empresa, ter um cargo melhor e salário maior”. A esposa está grávida do primeiro filho.

Em nota, o presidente da Ford, Lyle Watters, agradeceu aos funcionários “pelo profissionalismo e dedicação durante vários anos” e afirmou que a decisão de encerrar atividades foi difícil, mas necessária para a reestruturação dos negócios do grupo.

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