FOTO: DIDA SAMPAIO/ ESTADAO
FOTO: DIDA SAMPAIO/ ESTADAO

Sindicato quer barrar indicação para Embrapa

Pesquisador aposentado Sebastião Barbosa foi indicado por Maggi para comandar instituição; Planalto ainda precisa dar aval à decisão

Lu Aiko Otta, O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2018 | 04h00

BRASÍLIA - O pesquisador aposentado da Embrapa Sebastião Barbosa foi indicado pelo ministro da Agricultura, Blairo Maggi, para presidir a empresa a partir de outubro. No momento, o nome passa pelo crivo do Palácio do Planalto antes de ser oficializado, segundo informou o secretário executivo da pasta, Eumar Novacki.

A escolha é polêmica e o Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário (Sinpaf) estuda barrar a nomeação na Justiça, por falta de transparência no processo de seleção. Alguns ex-subordinados não têm boas lembranças de sua passagem pelo comando da Embrapa Algodão. Foram iniciadas investigações por assédio moral, todas arquivadas por falta de fundamento. Barbosa foi exonerado do posto em fevereiro deste ano, por decisão judicial.

O Ministério Público do Trabalho ingressou com ação questionando sua nomeação, uma vez que ele não é funcionário de carreira da estatal, como determina o regulamento. O pesquisador foi do quadro da Embrapa, mas, com a aposentadoria, seu vínculo foi desfeito. Nada disso tirou de Barbosa a primeira colocação numa lista tríplice para o posto. Segundo Novacki, Barbosa obteve ótimos resultados à frente da unidade.

“Aumentou muito a visibilidade das nossas pesquisas para o setor produtivo”, confirmou o chefe adjunto de Transferência de Tecnologia da unidade, João Henrique Zonta. “Deu uma arrumada boa em muita coisa aqui, inclusive infraestrutura.” Segundo relatou, Barbosa se aproximou das associações empresariais e trouxe mais recursos para a unidade. Obteve financiamento privado e também mais verbas da própria Embrapa para a unidade.

“Ele tem fama de ser um pesquisador brilhante na área do algodão”, disse o vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira, Pedro de Camargo Neto. “A dúvida é se ele será também um gestor brilhante e para onde ele quer conduzir a Embrapa.”

Camargo é um dos signatários da carta subscrita por 40 entidades do agronegócio que pediu a Maggi para o setor ser ouvido no processo, conforme noticiou o Estado no último dia 15. O pedido foi ignorado. No entanto, o futuro presidente da Embrapa já foi orientado a intensificar a interlocução com as empresas do agronegócio.

Segundo Novacki, o fator que mais pesou a favor de Barbosa foi sua experiência internacional. O Brasil tem como meta aumentar de 7% para 10% sua participação no mercado mundial de produtos agrícolas, e para isso pretende usar a Embrapa como ferramenta. Nos países com os quais existe cooperação na área de pesquisa agrícola, a ideia é pedir preferência no campo comercial.

Não por acaso, os três candidatos finalistas no processo de seleção precisaram fazer ao conselho da Embrapa uma apresentação de cinco minutos, em inglês, sobre seus planos para a estatal. Barbosa atuou durante 17 anos na Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), tendo morado na Itália e no Chile. Além disso, chefiou a área de cooperação internacional da Embrapa.

O presidente do Sinpaf, Carlos Henrique Garcia, credita a nomeação de Barbosa ao interesse de Maggi em colocar alguém de sua relação no comando da Embrapa. Novacki nega. “O ministro nem o conhecia.”

Processo polêmico

Quarenta entidades de peso do agronegócio enviaram na semana passada uma carta ao ministro da Agricultura, Blairo Maggi, criticando o processo de seleção para o novo presidente da Embrapa, que deverá ser concluído até 15 de outubro.

O setor queria opinar na escolha, que seria feita pelo conselho de administração, composto exclusivamente por integrantes do governo.

Fontes do governo informaram então que a seleção do presidente da Embrapa seguia a Lei das Estatais. O processo teria sido aberto a toda a sociedade civil, de forma que todos os que se consideraram aptos ao cargo pudessem concorrer.

A ideia, com isso, era conduzir um processo de seleção com critério exclusivamente técnico. Assim, ao menos em tese, ficariam de fora pressões políticas e também os interesses classistas, aí incluídas as empresas do agronegócio.

Com o orçamento restrito, a estatal tem tido um desempenho aquém do esperado pelo setor privado na entrega de novas tecnologias, segundo especialistas. Os sucessivos cortes de verbas levou ao sacrifício de serviços de ponta.

Fundada em 1973, a Embrapa é uma companhia 100% estatal e dependente dos recursos do Tesouro. Com um orçamento de R$ 3,4 bilhões, 9,6 mil funcionários e 2,4 mil pesquisadores, que recebem de duas a três vezes o salário de um pesquisador de universidade federal, teve papel importante 40 anos atrás no desenvolvimento do agronegócio brasileiro, especialmente em novas variedades de soja adaptadas às condições do Cerrado.

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