Sindicatos são teleguiados pelo governo, diz Pastore

Sindicatos são teleguiados pelo governo, diz Pastore

No atual ambiente que combina democracia com crescimento econômico e inflação baixa, o movimento sindical ainda patina, dizem os especialistas. Para eles, os líderes sindicais amadureceram na análise de dados, negociam com mais pragmatismo, mas não abandonam o amparo do Estado.

Marcelo Rehder, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2010 | 00h00

"As raízes do corporativismo plantadas por Getúlio Vargas na década de 30 ainda estão vivas e dando muito ruídos", diz o sociólogo José Pastore, professor de relações do trabalho da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo.

Para ele, o sindicalismo da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e da Força Sindical está intimamente atrelado ao Estado. "Faz parte da máquina do governo federal e vive dela, pois conquistou, por lei, novas formas de repasse de recursos pela mão do Estado. No campo político, o sindicalismo é teleguiado pelo governo."

"Sempre fomos contra o imposto sindical, porque achávamos que o sindicato deveria ser mantido pela contribuição voluntária dos associados, afirma o ex-líder sindical Djalma Bom. Para ele, há muita contradição entre o discurso e a prática na CUT. "Não se pode lutar pela liberdade e autonomia sindical e depender do imposto sindical. Isso gera peleguismo e acomodação."

Já o diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Clemente Gaz Lúcio, considera o reconhecimento das centrais uma boa novidade no sistema de relações do trabalho brasileiro. "Reconhecidas e tendo recursos para atuar, as centrais começaram a colocar na pauta das negociações questões que dizem respeito a toda a classe trabalhadora e não apenas a uma categoria específica." Ele cita a valorização do salário mínimo, a questão previdenciária e, mais recentemente, a redução da jornada de trabalho de 42 para 40 horas semanais, sem redução dos salários.

Na outra ponta, o diretor sindical da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Roberto Della Manna, levanta a queixa de que as centrais têm interesses políticos que não representam necessariamente a defesa do trabalhador. "A redução da jornada não é um pedido nem um interesse imediato da classe trabalhadora", diz. "É uma bandeira política das centrais", ressalta.

Para o ex-ministro do Trabalho Almir Pazzianotto, a criação excessiva de sindicatos virou meio de vida no País. Pazzianotto era o advogado do sindicato de Lula na época das grandes greves da virada dos anos 70 para 80.

"Naquela época havia limitação para a criação de sindicatos. Hoje, tem um sindicato em cada esquina. Nem o Ministério do Trabalho sabe quantos sindicatos existem no Brasil."

Pazzianotto diz que a pulverização dos sindicatos ocorre em grande parte pelo desejo de participar do bolo da contribuição sindical.

"O sindicalismo virou chapa branca", protesta o presidente da Associação dos Metalúrgicos Anistiados do ABC, Manoel Anísio Gomes, que foi líder metalúrgico nas greve de 1980. "Naquela época já brigávamos contra os serviços temporários. Agora, até mesmo os sindicatos contratam serviços temporários de trabalhadores terceirizados.

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