Síndrome da perda de velocidade

Na economia global, após a crise econômica, o normal tem sidoa recaída, com novas quedas no PIB

STEPHEN ROACH, PROJECT SYNDICATE/O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2014 | 02h05

Uma recaída é a norma na economia global depois da crise. Nos Estados Unidos, Japão e Europa, o crescimento do PIB mais uma vez declinou no primeiro semestre de 2014. Esses contratempos não ocorrem por coincidência. A persistência de um crescimento econômico fraco em todo o mundo desenvolvido deixou as principais economias inusitadamente vulneráveis aos inevitáveis percalços do caminho.

Evidentemente, há desculpas - sempre há. A contração da economia americana no primeiro trimestre do ano foi minimizada e relacionada ao clima. A queda do Japão no segundo trimestre foi atribuída ao aumento do imposto sobre as vendas. Na Europa, a estagnação foi explicada como uma aberração que reflete a combinação dos efeitos do clima e das sanções impostas à Rússia.

Por mais tentador que seja atribuir esses desdobramentos a fatores específicos, a recente desaceleração nos países desenvolvidos não pode ser tão facilmente menosprezada. Carecendo de vigor cíclico na esteira de graves recessões, as economias de hoje acham particularmente difícil não se preocupar com o impacto dos choques e abandonar fórmulas de crescimento anêmico.

É o caso dos EUA. Embora se calcule que o crescimento do PIB anual subiu para 4% no segundo trimestre de 2014, após a contração de 2,1% no primeiro trimestre, ainda pode-se contar com um crescimento médio no primeiro semestre do ano de um mísero 1%.

O problema é bem mais grave no Japão, onde os consumidores anteciparam os gastos prevendo o aumento do imposto sobre as vendas. O crescimento de 6,1% no primeiro trimestre, que tornou isso possível, foi mais do que contrabalançado pelo recuo de 6,8% no segundo trimestre. O resultado líquido no primeiro semestre deste ano - um declínio médio de 0,3% - coaduna-se em grande parte com a contração de 0,2% que está sendo estimada para o quarto trimestre de 2013. Com a trajetória do crescimento real (corrigido para levar em conta a inflação) entrando em território negativo, em média, por três trimestres consecutivos, é possível que o Japão mais uma vez volte a cair na recessão.

A frágil economia da Europa tampouco conseguiu se recuperar o bastante para se proteger dos problemas periódicos do crescimento. Durante a fase aguda da crise do euro, a recessão ficou concentrada nas economias periféricas, como Grécia, Portugal e Espanha. Entretanto, agora, a doença se espalhou para as economias centrais da Alemanha e da Itália, que experimentaram uma contração no segundo trimestre, e da França, que registrou crescimento zero.

Consequentemente, o crescimento anual dos 18 países da zona do euro caiu para apenas 0,4% no primeiro semestre. Este desempenho só poderá exacerbar as preocupações do Banco Central Europeu com a deflação.

Coletivamente, a taxa de crescimento anual das principais economias desenvolvidas foi em média pouco inferior a 0,7% no primeiro semestre. O pálido crescimento de1% dos Estados Unidos deu início à tendência, enquanto Japão e Europa, cujos PIBs combinados mais ou menos equivalem ao dos EUA em termos de paridade do poder aquisitivo, não superaram o 0,3%. No fim das contas, trata-se de 1-1,5 ponto porcentual abaixo da tendência de crescimento de longo prazo ou potencial do mundo desenvolvido - resultado preocupante, para dizer o mínimo, para o emprego, o risco de deflação e o comércio global.

Este desempenho capenga é o equivalente econômico da "perda de velocidade" - o aumento da vulnerabilidade dos aviões que viajam a uma velocidade reduzida. Nessas circunstâncias, não é preciso muito para fazer abortar uma decolagem, ou pior ainda. A analogia se mantém hoje. Os choques, sejam eles atribuíveis ao clima, a distúrbios geopolíticos, greves ou desastres naturais, são a norma, e não a exceção. Quando afetadas por tais problemas, as economias que apresentam um crescimento vigoroso dispõem de formas de proteção para fazer frente aos golpes e têm a capacidade de recuperação para evitá-los. As economias que se encontram em perda de velocidade não têm nada disso.

A grande questão é o que fazer a respeito. A atual estratégia, centrada numa política monetária não convencional, não é a resposta. Embora a política monetária representasse um poderoso antídoto contra o congelamento dos mercados de crédito no momento mais negro da crise financeira global, não chegou a permitir clássicas recuperações cíclicas.

O que não surpreende. As principais economias desenvolvidas não padecem das deficiências cíclicas da demanda agregada que são propensas a um tratamento monetário. Como o Banco de Compensações Internacionais (BIS) destaca corretamente, elas continuam lutando na esteira de terríveis recessões do seu orçamento.

Desafortunadamente, quanto mais os bancos centrais dão a impressão de estarem trabalhando no caso, e mais os mercados os aplaudem, menor a pressão para os governos politicamente paralisados desenvolverem uma política fiscal e lutarem pela aprovação de reformas estruturais.

Autoridades míopes precisam deixar de se orientar por mercados financeiros fúteis e se concentrar mais na melhoria estrutural do mundo depois da crise. Esta é uma época para heróis, e não para animadores de torcida. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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